terça-feira, 26 de abril de 2011

Noturno

Ela mora nas linhas da minha mão. Como um presente que se sabe o dono antes de o dono conhecer-se dono do presente. E tem tanta sombra nisso tudo, tanta sombra! Nas unhas que crescem, alheias de vontade, cabe mais dela, nesses opacos que a guardam: velhos traços como as ruas.

Na noite, sem neblina, Paris acalma o sono dos vinhos. Quantas sombras, como os traços da minha mão! O Sena desce lento e Paris fecha os olhos com calma, grande dama com sono que espera no quarto pequeno, o livro no colo a pender. Fecho a mão e imagino outras sombras, seus reflexos no chão, seus dias.

Sabe Paris que ela, a das linhas da minha mão, vive na sombra, nos traços, nos rabiscos a lápis: à cidade toda. Ela e a cidade, nos enigmas. De dentro das tulipas, elas me olham, não mais agora nesta noite – e ainda nem são dez horas –, mas na tarde de outros relógios, em outras madrugadas.

As duas, na sombra, enquanto o sol desce lento na linha que a vista tenta, de cores mais brandas na primavera quente, nas ruas que dividem os fantasmas, seus poetas: versos de amor e a passante que não ouso cantar, na rua que curva depois do punho, do indicador, meu corpo.

Um comentário:

  1. E vc continua jogando na nossa cara q estás aí e nós aqui... hehehehhe...

    Vejo que estás curtindo esse passeio... Curta bastante e volte logo, estás fazendo falta...

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