sábado, 19 de março de 2011

Das Nichts

Guardar nas caixas mais que papéis, fotos e anotações. Encaixotar todo um momento, o lugar onde habitei os últimos anos, o tempo e seus fragmentos.

Tudo retorna à mala como no quarto de hotel do poema Assalto, de Drummond. Jogado os restos de mim da janela do nono andar, eu mesmo agora, depois de lavado pelo branco sabão da calma e seco com a branca toalha do olvido, posso marchar, quem sabe, por outro caminho, por outra rua que passa por muitos países.

No fim da suspensão em que estive nos últimos meses, a força imperiosa do nada que tanto estudei operou em mim mais do que reflexões. Dias depois de sair do nada, ainda sob a angústia tranquila, sem palavras, observava o quarto em desordem, a casa ainda com papéis e restos de carnaval. Não mais. Outro, refeito, de mesma carne e sangue, tocava, como qualquer ser, a palavra que há em todas as coisas.

No ínterim do renascimento, a releitura de dois versos de Canção amiga que não fizeram antes mais que breve toque e que se tornam hino de novas paradas: “Minha vida, nossas vidas / formam um só diamante”.

Haverá sempre outras palavras para que as tornemos mais belas no mundo de palavras sempre re-ditas. Porém, em tudo, o nada me trouxe a companhia de vidas que não mais se desvencilham da minha, múltiplas nas suas formas leves, cristalizadas agora nos meus fragmentos.

No fim, enfim, a visão de que sou o que sobrou de todos os conflitos, somado à mudança intermitente, às vidas que em mim se cristalizam como um só diamante, às canções que todos cantam. E o poeta, aquele que há anos me diz tais palavras, opera em mim aquilo que nele estudo: a força fundadora e imperiosa do nada.

3 comentários:

  1. Queria ser uma dessas vidas cristalizadas, posso!? =0)Como a colega aí em cima, também estou emocionada!

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