sábado, 26 de fevereiro de 2011

A pele

Um corpo sólido, como um soco. A vontade do soco antes do soco, na cor da verdade camuflada. Mas há o corpo, ali, diante dela, como um soco. Compacto, pesado, incomodando.

Ela não sabia se queria o corpo, como um soco. Queria a pele dele, só a pele, para dependurar na janela, na parede, forrar a poltrona. Mas denso, o coágulo exposto na cama é estranho e cheira intermitente.

O calor do corpo: ali, entre os lençóis, no janeiro, ela não queria mais calor que o dela. No sono, o soco denso era calor ainda, incomodava mais que o cheiro, mais que o sensível tato. O corpo que tinha mãos demais, pêlos demais, poros demais. Se pudesse, dava ao corpo um único poro, grande, como a imensa boca que aberta na noite engole a lua.

Mas o corpo ali era um soco, incomodando.

3 comentários:

  1. "Se pudesse, dava ao corpo um único poro, grande, como a imensa boca que aberta na noite engole a lua."
    Danilo, suas postagens fazem minha alegria nas tardes de sábado!
    Lindo!!!
    Beijão!

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  2. belo texto, também gosto de pendurar peles nas janelas...

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  3. Bravo!
    copiei esse e "Ela vai sair"... aliás o último parece um lamento do primeiro...

    para onde mando o número do tel pra gente marcar a prosa???
    no carnaval estaremos em mariana e OP.
    bjim

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