sábado, 5 de fevereiro de 2011

O sol-pedestre

O sol como há muito eu não via. Lembrou o daqueles dias ainda dos parafusos, quando voltei a sair de casa, ainda com o halo, para ver as pessoas na rua, pegando ônibus, reclamando. Numa manhã dessa semana, em São Torquato, o sol das onze e as pessoas reclamando, indo e vindo no movimento da cidade me trouxeram de volta aquela esquecida alegria, aquela densa forma de saudade.

O retorno do sentido, da pequena alegria esquecida, revisitada, é leve, acalma. A alegria antiga que me faz recordar a razão de continuar andando pelas cidades a pé, de ônibus, de metrô. Ver as pessoas: a cidade chocando-se e as pessoas colorindo as ruas. A alegria em ver Barbalho no letreiro de um ônibus numa rua suja e colorida da Cidade-vermelha de todos os santos – o nome da música de Caetano, do jeito de pongar no bonde. De depois de me perder na Grande Cidade e mirar os altos prédios, de cruzar o mais que histórico lugar onde os sindicalistas do país iniciaram longa caminhada. As placas e uma rua sem árvores, sem pessoas, cinza como quase tudo na garoa: Rua Machado de Assis, uma curva entre asfalto e asfalto.

Tudo colorido e com cheiro. Os cheiros variados das pessoas nos variados momentos do dia, seus suores na testa, suas roupas novas, velhas, gastas, de trabalho. Sobretudo, as cidades têm cheiro: de pastéis e óleo velho, de esgoto, de salgado frito, de pedinte, de perfumes caros e baratos, de livros novos e velhos, de grama molhada, de suores, de cerveja velha, de queijo, de meninas com cheiro de Comfort. E sons como uma grande feira livre em que todos temem a todos, olhando o chão de pedra da Costa Pereira na Ilha, da Afonso Pena nas Alterosas, da Rio Branco do Juiz-da-zona-da-mata, da Paulista na Grande Cidade, da Brasil na Perdida-maravilhosa. Tudo colorido, cheirando. Os cheiros loucos que sempre me despertaram a atenção, assim como as grandes cores, os prédios sobre seus cotovelos.

Os uniformizados da cidade, os trabalhadores urbanos, os flanelinhas, os mendigos, as meninas nas esquinas, as menininhas dos Jardins que gostam de happ(y end). A cidade com tudo que lhe é próprio e particular e que os vidros escuros dos carros se recusam a mirar nas horas. Tudo isso me traz a alegria de quando ainda estava com a cabeça nos parafusos. Ali, com o mundo margeado pelos metais frente ao rosto, o temporário cárcere privado de meu corpo carregava o detento e a cela para ir ver o mundo efetivamente colorido, pulsante, intermitente: cheiros condensados dos seres do planeta. Bonito e cheio de arestas, de pontas, de erros e de defeitos. Mais bonito e colorido que o que vendem os encartes das lojas, que as vitrines das varandas frente ao mar.

3 comentários:

  1. Como disse o sempre brilhante Lenine: "Ninguém faz idéia de quem vem lá."

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  2. É tanta gente, tanta pessoa, tanto ser humano, tanto sujeito, tantas ideias e possibilidades, que me perco.
    Adorei o visual novo do blog!tem que me ensinar a criar estas artes!
    Abração do Burgão!

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  3. O cheiro que a tudo remete, também devolve enebriando os sentidos dos que vem e não vêem (como fica a história de acento aqui?)...
    O cheiro de baunilha no perfume feminino desperta no nariz do macho o primeiro cheiro de mãe na cozinha...assim como o cheiro de tabaco ou terra incendeia o tesão feminino que nem desconfia que é do pai ancestral que ela lembra.
    Não sei quantas vitrines já passaram por suas retinas mas sei bem como você foi capaz de registrar com a sutileza dos que enxergam com a alma.
    Beijos Dan!!! Ler você é um banquete prá Alma!!

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