sábado, 19 de fevereiro de 2011

No contrapé da contra-luz

O olhar de súplica de Holofernes para Judith. A mão firme de Judith que segura os cabelos dele enquanto olha atenta para o corte. O rosto feio da terceira personagem, como se a voz esganiçada pudesse ser ouvida na suspensão da cena. A sensação é de que, desviado o olhar, o corte findará e que a cabeça ficará suspensa na mão esquerda de Judith. Forte e contagiante. Parece que seguramos as mãos dela enquanto mantemos nossos olhos presos na tela. É o nosso olhar que impede que Holofernes termine de sucumbir.

Na livraria, passei a tarde com o olhar de Judith: o mais enigmático dos olhares. Há em Judith, em especial e mais que nas outras telas de Caravaggio, certo lirismo: uma dissimulada e dúbia graça ao cortar uma cabeça. Se não fosse o olhar dela, compenetrado, talvez a cena tivesse mais horror, mais crueldade. Talvez até por isso mesmo seja mais cruel, mais horrenda, dada a leveza de seus braços enquanto ela degola o homem que a olha suplicante.

Toda a tela é o olhar profundo de Judith. Escuro e cheio de enigmas, duplo e contraditório. Nada mais barroco nas pinturas. A pele, a cor e a leveza dos cabelos, o longo e pesado pano vermelho sobre as personagens. Em tudo, uma sensação densa de realidade, de profundidade. E a sombra pesada, escura, o denso negro que encerra tudo como na Vocação de São Matheus ou na Conversão de São Paulo.

Os braços de Judith tão densos como os pêssegos numa tigela. Tão mais eróticos os pêssegos! Tão mais eróticos os corpos que perderam as musculosas formas! Davi cortando a cabeça de Golias nem lembra os músculos da estátua de Michelangelo, mas é mais real, feito de detalhes.

Sempre bocas pequenas, sempre olhos brilhantes. Esses pequenos detalhes que carregam as telas de Caravaggio de vida estão em Judith, seus braços pouco musculosos, sua boca contrita, as sobrancelhas, a mão que, firme, segura o cutelo enquanto a outra apóia a cabeça de Holofernes ainda cheia de vida. Tudo na tela é resumo da ambivalência entre o pesado colorido, a leveza dos atos e a força das cenas maior do que todo o conjunto, exatamente por causa das disparidades.

Talvez, sem Caravaggio, nunca as artes teriam experimentado a potência das cores de forma tão profunda e intensa. Talvez, sem Caravaggio, não fosse possível nem sonhar.

Um comentário:

  1. Caramba! O que é issso!! Você descreve com os olhos do observador e do agente. Dá prá saber o que se passa na cabeça que degola e na do degolado.
    Sim, sem Caravaggio talvez nem fosse possivel sonhar como eu sonho esperando cada sábado que traz uma nova postagem! Você é sensacional!!

    ResponderExcluir