domingo, 30 de janeiro de 2011

vermelho-almodóvar


Sonhei com um poema. Um poema que não era meu e que surgiu no sonho inteiro, rico, cheio de rimas internas, feito em quadras. O poema, de bom título - Farra urbana - de som que me seduziu, não consegui reproduzir uma linha, a não ser a temática: um apartamento que quebra as amarras do costume e se revolta contra o hábito-concreto das cidades.

Lindo, denso, grandioso. O poeta que o leu, no sonho, era Adauto Novaes. Barbudo, de óculos pequenos, cabelos atrapalhados. Leu o poema pois estávamos todos em um evento: um congresso de literatura em que, numa espécie de sarau, os poetas ou liam seus textos, ou os expunham impressos em encartes distribuídos entre os presentes, ou em vídeos cheios de movimento. Eram muitos os textos, muito bons em sua maioria.

Acordei com os ecos do poema de Adauto Novaes, nome que para mim, no pós-sono, nada significava a não ser o de estar ligado ao poema, ao grandioso poema que não consigo reescrever e que merecia um belo papel, uma bela publicação.

Comentei com amigos e com alguns colegas o sonho, o acontecido. Pesquisei: achei em uma agenda, em data antiga, o nome de Adauto Novaes e um título de livro que ele organizou que ainda espera leitura: Poetas que pensaram o mundo. Há também em minha estante um bom livro organizado por ele, que ficou anos com a Thaís e que por isso ainda traz o cheiro dela: Ética. Um livro que dei como perdido, queimado, esquecido como o nome do organizador que voltou no sonho.

Fiquei com aquilo na cabeça e isso trouxe outra memória incompleta: a cena de um filme de Almodóvar que nunca me lembrei do nome. Lembrava o enredo, as cores, o ritmo. Mas o nome me escapou. Vi esse filme com Fernando em uma sessão Almodóvar que fizemos. Lembrei o filme sem lembrar o nome para Vanessa, na minha cozinha, enquanto conversávamos sobre situações tão Hable con ella.

Hoje, voltei à busca na casa de Adolfinho e achei o nome em uma imagem do cartaz do filme: Carne Trémula. O cartaz lembrava a cena que achei mais importante, quando Victor, injustiçado no início do filme, efetivava sua vingança, imprimindo na pele de Elena seu cheiro. Os dois, deitados, nus. Cheiro que ela, depois, busca ávida no banho, sob o chuveiro.

E tudo misturado, voltando assim de repente, cheio de suas cores. Como a cor vermelha do sangue no chão da cozinha em Volver, dos tomates vermelho-almodóvar que eu e Vanessa compramos. As imagens que só o tato tenta, como o cego em Los abrazos rotos.

Mas o poema, o poema...

2 comentários:

  1. Rapaz, seus textos têm um não-sei-o-que de inacabado que dá um charme filho da puta. Creio(emos) que tais textos são os merecedores da gente imprimir e colar na geladeira, tentando matutar, tirando fio de barba e bebendo (porque quem toma é cruzeirense) uma cerva gelada e petiscando qualquer merda. Quero sonhar um conto, não um poema (que não sei fazer isso), e visualizar alguma droga vinda do Costa-Gavras.
    Abração, nego!

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