quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Retomadas

Recuperar velhos hábitos como um mantra na madrugada. Tão sagrado e tão litúrgico é sempre o contato com o passado: mutante intocado, um corpo vivo.

Primeiro o cumprir promessas e o pagar as dívidas que temos com a alma, no nosso íntimo. Cortar os braços que não mais servem e que crescem em nós como enormes polvos sem controle. Depois, replanejar, repaginar, reencontrar.

Quando o passo adiante é estranho e novo, eu olho o passado-mutante. Recuperar hábitos, não os ruins, mas os de olhar com atenção, de ouvir mais, de usar menos palavras que sobram, que atrapalham demais. Praticar mais outros sentidos, experimentar mais as mãos, a pele, o olfato. Ter mais equilíbrio sobre a corda bamba, no vento. Apurar os hábitos para que eles percam o mando costumeiro e se tornem outras coisas, agora recolocadas.

Na onda, voltei a olhar o mundo, olhar os olhos dos passantes, as cores das paredes, os detalhes das portas fechadas, as palavras escritas no muro. Do alto da ponte dos suicidas, lê-se palavras de amor a uma única letra, escrita em branco sobre a pedra. Pombas na manhã remexem o lixo, recolocando tudo em outro lugar do sensível, como se elas ali mudassem o significado das coisas. Os olhares nos ônibus, os transeuntes distantes, imersos em si-mesmos mas com uma mágica de hipnose louca que põe um coletivo inteiro em transe, como zumbis indo cumprir as ordens costumeiras.

Abandonar algumas palavras, como a recuperação dos olhares. Esquecer de dizer demais, de buscar sempre o melhor alento, o melhor termo, mas intensificar o uso potente de um não que ao invés de excluir, agrega novas formas. Negar como construir, edificar, habitar. Não às antigas palavras ofertadas a qualquer um, em qualquer lugar. Mas o olhar volta a dizer mais, com mais potência, com o velho silêncio repaginado.

Tudo medido para recolocar no lugar na corda-bamba. Cada novo-antigo hábito revisto para que outro melhor, mais potente e certo, surja. Um dia tudo, enfim, será abandonado.

3 comentários:

  1. C tá ficando danado memo, sô! eita nóis

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  2. Entre a lembrança e o sonho, entre a reflexão e a ação.Muito bem escrito!

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  3. Rapaz, postando aqui pra você ver que te visito bastante. Mesmo quando não comento, venho sim. Sua escrita carrega no simbólico e é de dentro pra fora; boa reflexão, excelente metáfora do polvo. Abraço, Giu

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