sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Porque um mineiro pega a estrada

Caí na inelutável sina mineira há dez anos. Li, tem uns dois anos ou mais, em um livro organizado por Drummond de título Minas Gerais, em um dos textos - não me lembro mais se de um cronista, se de Pedro Nava ou de Aníbal Machado - que o que nos fazia migrar (pelo país de Minas ou pelo mundo) era o nosso traço indígena, sempre nômade. Além disso, esse jeito descobridor - de vaqueiro, de garimpeiro - nos coloca no rastro, vítimas de nossa própria fortuna. Outro ponto é o trem: o trem nos leva e nos traz para Minas. Nos trilhos que cortaram o Estado e o país, muito mineiro chegou, muitos partiram. Não é de graça que o trem é base de nossa linguagem.

Pode-se pensar isso de todo o jeito, indo até à preocupação que tinha Juscelino em abrir estrada, em migrar até a capital de forma inconsequente. Mas o que sobra, afinal, é um fato: há em nós uma força inexplicável que nos faz sempre sair e sempre chegar. A mala está sempre ao pé da porta: nunca se sabe quando será preciso ir. E sempre há uma matula, um pano para amarrar panelas, um canivete para uma ocasião inesperada, uma medalhinha de santo e/ou uma figa. O partir está no batente da porta, no jeito de guardar as coisas do costume.

Talvez por isso o mineiro receba tão bem quem no seu lugarejo chega. A hospedaria só pode ser boa se aquele que recebe entende as necessidades do viajante. O mineiro sabe, de uma forma íntima, que aquele que anda longe da terra natal precisa de boa comida, de boa cama, de bom banho e de boa conversa. Ele sabe da solidão poeirenta da estrada, dos dias que o silêncio impera entre um canto e outro, seja no sacudido do trem, no balanço da mula de tropa, no gado da madrugada, no carro de bois e nos mais novos. Sabe o mineiro que aquele que parte pode nunca mais voltar. Sabe de um jeito hereditário, sem explicação. Por isso trata a visita como se nunca mais fosse vê-la de novo. A atenção é dobrada, é multiplicada. É preciso que ela conheça tudo do lugar antes de partir, para que se um dia voltar, seja recebida com um sorriso no rosto e os braços abertos como um parente distante.

Os mineiros viajam muito. Talvez mais do que a maioria dos brasileiros. Desde as pequenas distâncias às maiores, sempre viajamos muito e sempre para fazer alguma coisa. O mineiro viaja a passeio também, mas muito mais a trabalho. Ele muda de lugar porque o ouro estava em muitos lugares, porque é preciso levar e trazer secos e molhados. O trabalho move o mineiro. Diferente dos outros, ele viaja calado a trabalho. Foi o trabalho que tirou de Minas Carlos Drummond, Juscelino, Milton, Guimarães Rosa, Aníbal Machado, Fernando Sabino, Carlos Chagas, Vital Brasil, Santos Dummond, até a Dilma e o Pelé, só para citar alguns.

Muitos nunca voltam a Minas para morar, mas voltam para ver cidades, pessoas. As pessoas de Minas carregam nas malas dos trabalhos que fazem pelo resto do mundo a sua pátria. Por isso, quando mineiros se encontram pelo Brasil ou pelo mundo, eles se reconhecem como irmãos. Defendem o Estado até a morte e se ajudam - diferente do que dizem - mais que os demais. Mas sempre com um pé atrás. O mineiro sabe que o outro também sempre desconfia de tudo.

Com isso todas as distâncias são ali. Nunca há um lá. Se há, é porque é muito difícil chegarmos lá. Mas a Europa, por exemplo, é ali. Distância não é problema: devagar e com paciência, sem muito falar mas prestando atenção em tudo, sempre se chega.

Na estrada, é como se cumpríssemos um ritual: chega-se sempre cedo - à rodoviária, à estação - compra-se ou leva-se comida para a viagem, uma blusa mais grossa, uma mala boa. No trânsito, um misto de sentimentos nos toma. Em qualquer parte do mundo estamos todos cumprindo um legado secular - sim, ser mineiro é ter tradições. É tradição viajar como é comer queijo, receber bem, fazer café para a visita, benzer-se mesmo sem fé.

Por isso, tradicional mineiro que sou, estou sempre num entre-lugar. Entre um partir e outro partir para um dia voltar. Como Lila disse uma vez, meu nome é partir. Mas não só o meu: o dela e o de muitos outros mineiros também. Mais cedo ou mais tarde a viagem acontece no mineiro. É só esperar. Brota como um pé de couve, de ora-pro-nobis.

Sempre que o sol sai, há em mim um grito: pegar a matula, fazer as malas, partir em busca de fortuna - seja ela a do dinheiro, seja a de amizades, seja a de alegria, para ter histórias porque, no fim da vida, contar causos é o que o mineiro melhor faz.

3 comentários:

  1. Eu sabia quer ser o que sou ( Mineiro), me faz agora muito mais feliz, lindo , obrigado palavra de mineiro então espero viajar mais .

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  2. Lindo lindo, é de encher-se de orgulho por ser dessa terra.
    E como boa mineira que sou, caio amanhã nas estradas dessas Gerais, ao sertão do Vale de Jequitinhonha...
    Comer beju seco, farinha fina, chupar tamarino e fazer careta...
    Ver o Jequitinhonha serpentear suas cauldalosas águas de janeiro...
    bjus.

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