terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Para aprender a sambar

Lição 1-) Eu vou ao samba porque longe dele não posso viver.

Não me lembro mais quando ouvi um samba pela primeira vez. Sei que o samba está comigo desde sempre. Nas festas da minha família, das que me lembro da infância, tinha samba. Tocava samba no rádio da minha avó na cozinha, aos domingos. O primeiro samba que me marcou, na infância ainda, foi Kid Cavaquinho, que meu pai tocava ao violão. Eu ficava quieto ouvindo a parada que a música tem, depois de "Genésio, a mulher do vizinho...". Eu gostava do som desse nome. Era engraçado ouvir meu pai gritá-lo no meio do samba, rápido, forte. Foi o samba que tentei tocar no violão de meu pai, em casa, nas tardes do fim da infância, com a pasta de músicas sobre a cama.

Eram muitos os sambas que meu pai cantava. Aliás, essa é uma mania que ele tem. Cantar sambas e de nos dizer coisas cantando algum samba. Mania que eu também tenho. Gostar de samba, a primeira lição, é uma mania antes de tudo. Herdei a mania do samba de meu pai. Principalmente do samba-canção.

De pai herdei o samba de palma de mão, o sambar, o batucar no balcão que ele me ensinou dentro do ônibus, quando saíamos de um médico que eu sempre ia por causa da saúde sempre com problemas.

Quando tinha uns sete anos, ouvi pela primeira vez Sinal Fechado do Paulinho da Viola. Fiquei parado, em silêncio, olhando. Eram os sábados: a rede Minas passava um programa sobre música popular e muito samba-canção. Ouvindo e vendo Arrumação, que emendava com outros programas de música, conheci a maior parte dos sambas que marcaram a minha infância. O samba, a mania do samba foi tão forte, que venceu os outros testes musicais de meu pai: o disco The Man-Machine, do Kraftwerk que tocava repetidamente numa vitrola velha, um disco dos Stones do meu irmão, Help, dos Beatles. O samba sempre foi mais forte porque samba é mania, o resto é gosto musical.

Lição 2-) Mas não me altere o samba tanto assim

O primeiro disco inteiro de Paulinho da Viola que ouvi foi uma coletânea. Foi a primeira das inúmeras vezes que ouvi Argumento, que fazia muito sentido para mim, num momento que o violão se enchia de bossa-nova. A bossa-nova pede o argumento de Paulinho. A bossa sempre foi uma saída interessante para um adolescente que não tinha uma banda de rock, que não era fã nem de Engenheiros, nem de Titãs, nem de nada que se parece com isso. Quando me perguntavam sobre rock, respondia que o disco mais legal que tinha ouvido era Revolver, que foi um presente de dia dos namorados do meu pai para minha mãe (assim como o violão foi um presente de namoro da minha mãe para meu pai). As músicas do meu todo-dia eram as de Ataúlfo, de Dalva, de Herivelto Martins, de Dolores, de Paulinho, de Noel, dos velhos sambas da Portela, de Martinho da Vila e de tantos outros nomes do samba. Podia citá-los por horas para as meninas que nada queriam com aquilo.

Por isso, mandei-as todas pastar ao som de Lupicínio, de Nelson, de Sílvio Caldas. Os mais pesados sambas-canção que já toquei no violão, e fechava a onda com Desilusão, do Paulinho, imitando o dedilhado que o Gil faz no CD da Marisa, mas com o jeito do Paulinho cantar.

O mais legal disso é que todas as meninas que não queriam nada com aquilo, anos depois me chamaram para um samba, com um discurso louco de que era preciso amar a música brasileira.

Lição 3-) Doralice, eu bem que lhe disse...

Foi Alice a primeira que entendeu que o samba tocava em outro tom em mim. Passávamos dias ouvindo um disco do João Gilberto e Doralice é uma das músicas que mais me lembram aqueles dias, além de Eu vim da Bahia. Foi no Rio, na madrugada de 30 para 31 de dezembro que comecei os meus dezoitos anos. Estava com Alice em um show da velha guarda da Mangueira e de Nelson Sargento. Na mesa ao lado, os filhos de Paulinho da Viola. Um show pequeno em que as cabrochas cantaram Alvorada, vozes estridentes em "Ai ai meu Deus, tenha pena de mim". Foi com os ecos desse show que vi 2000 nascer.

Foram presentes de aniversário que Alice me deu naquele ano: uma camisa azul, que usei até não poder mais, com a qual me despedi de meus amigos em Mariana, no meu velório; um par de canetas com as quais autografei o primeiro exemplar de Barulho Branco, que dei a minha mãe; Chega de Saudade, de Ruy Castro, que ocupa lugar de destaque na minha estante e que li incontáveis vezes, e o show da velha guarda da Mangueira. Amar é tolice, é bobagem, é ilusão? Mas ainda vivo sozinho ao som do lamento do meu violão.

Lição 4-) Beba do samba, beba da chama (bêbado samba, bêbada chama) também.

O samba cortou os longos dias de Mariana. No corujão, no corredor do ICHS, em Kaza com meus amigos. Nessa época, as pessoas queriam saber daquilo. Foi também nessa época que apertei a mão de Paulinho da Viola, num show que ele fez na praça da Universidade, em Ouro Preto.

Antes do show, anos antes do show, eu e Fabrício cantávamos samba e nos reuníamos para ouvir sambas. Em meus aniversários, no tamborim que ganhei de Alice, Fabrício marcava o tempo. E como ouvíamos Paulinho. Já sem a vergonha da tietagem, sabendo que o samba era mania, a notícia de um show de Paulinho - que vimos em silêncio, quase em lágrimas, com mais 700 pessoas (ou menos que isso) - foi para mim o que foi para um beatle-maníaco o show para bilhões em São Paulo em novembro. Era o Paulinho, ao alcance do braço. O sambista que compôs uma das músicas mais sofisticadas do cancioneiro brasileiro. O que não abandonou o barco, tornando-se timoneiro, em época que a Bossa-nova ganhava o mundo. Ele, que tímido chora em Saravá, quando canta o verso "... e as coisas estão no mundo, mas é preciso aprender." Que, sereno, toca Pecado Capital como quem canta Para ver as meninas, que é o meu silêncio de mil compassos. É como estar bêbado de samba e de chama, com boca negra e rosa.

Ali, no frio em Ouro Preto, Paulinho cantou Bêbado samba, cantou Argumento, cantou Meu pecado, música que cantei na casa de amigos outro dia. É também meu pecado "passar noites em serestas e bebendo por aí pela cidade" e "querer em minha mocidade amar tantas mulheres", mas ele é sábio: "meu tempo já passou, tenho saudade".

Quando o ouvi cantando um verso que quase traz a alvorada com "Duas horas da manhã, contrariado espero/ pelo meu amor / vou subindo o morro sem alegria", vi meus passos nas noites de Mariana. "Qual será o paradeiro daquela que até agora não voltou?"


Lição 5-) Chama que o samba semeia a luz de sua chama. A paixão vertendo ondas, velhos mantras de Aruanda. Chama por Cartola, chama por Candeia, chama...

Cartola chegou depois de Paulinho, de Dolores, de Orlando Silva, de Garoto, de Herivelto, de Dalva, de Nelson. Chegou depois de Candeia, de Martinho, de Sargento e de Elton Medeiros. Depois de Dorival Caymmi e de João Gilberto. E foi Cartola que fechou o ciclo. Já o ouvia, claro, como uma mania. Mas menos do que hoje.

Cartola cantou a música de muitas madrugadas em Vila Velha. "Nada consigo fazer quando a saudade aperta", e a saudade sempre aperta. Mas "Alegria era o que faltava em mim!" Todas as músicas de Cartola são a trilha sonora dos últimos anos dos meus 20 anos. Junto com Paulinho e com todos os outros. Um São Jorge na mesa, instrumentos, cerveja, cachaça, uma feijoada no fogo, como em meus aniversários em Mariana. Balde, prato, colher, tudo é percussão.

É de samba que se fazem todas as melodias, já disse João Gilberto. Basta chamar. Lembrar também que o samba tem um terno branco, um sapato bicolor, uma navalha no bolso. Sem malandragem, sem a nata da malandragem, não é possível perguntar nem com que roupa se vai ao samba, nem pedir um samba feito só para si, para acabar, virar, espalhar a noite inteira.

Com ou sem malandro, a mania do samba ensina. Chame o samba que ele sempre vem. Mas é como canta João Gilberto: "mas quem não gosta de samba não dá valor, não sabe compreender."

2 comentários:

  1. lembro de ver paulinho da viola em são joão del rei, com amigos do ICHS, numa excursão insana. o momento da viola me fez ultrapassar o que era coragem bêbada e perceber a doçura, a delicadeza daquele momento: era para ver as meninas. não entendo de samba - porque o samba me emociona de um jeito meio despretencioso, eu me solto do samba, meu sambado é de gringo - entendo de perceber paixão, e no samba há muita, ou senão devoção. suave e arrebatadora doralice, a alice das tantas histórias que ouvi, está presente em música, e isso é lindo, sempre será. alice dos encontros, alice da grande cidade, do movimento, e também da introspecção. alice das memórias, das notas, do seu tom. quem tem uma memória feita em música tem coração grande, peito aberto diante do mundo. tem medo não. felicidade é samba de uma nota só. que se repete repete repete.

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