domingo, 23 de janeiro de 2011

Never know how much I care




À cor da aurora, ao som de Miles Davis. No jazz, o esconderijo de um corpo que muito se expõe ao samba, sempre por mania, sem remorsos.

Na alvorada, como se Miles Davis puxasse o sol de detrás das janelas na janela sobre a cômoda. E tingindo aos poucos os tons dos sons do dia, que no domingo intenso (de madrugada dura como bebida amarga), o jazz acalma os músculos dos olhos, das pálpebras quase caídas.

Da janela, a desordem da fumaça no azul que se anuncia. Ao fim do solo, a pausa que o jazz traz antes de voltar, o compasso que troca nos discos o nome para Coletrane, manso como o toque aveludado da mão de uma mulher nos ombros. O sax, o lento sax de Coletrane que eleva randômico ao céu, quebrando as cores repetidas da manhã no desarranjo dos cães que acordam as esquinas da cidade. O mar é o embalo de Coletrane e a espuma depois que a onda quebra é Miles Davis.

Quando a cor é azul e a cidade já desperta em seu movimento manco do domingo, é de Lucille o solo das esquinas, nas mãos de B. B. King. E quando o longo solo termina, tudo troca rápido: é Ray e Ella em Fever: all through the night. You give me fever in the morning.

É preciso sair da cidade azul de verão, como o jazz que baixa de tom, sem a febre, sem Lucille, sem Miles Davis e Coletrane, holding tight o sono na manhã sem mais palavras.

2 comentários:

  1. São poetas contemporâneos do cotidiano, que em forma de música trazem tudo aquilo que necessitamos para viver em harmonia nessa loucura do dia-a-dia...

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