segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Das estações

Ele acordou de madrugada para cumprir a coragem. Adiava a decisão há meses, em noites sem fim em que só um nome boiava: voz que ela sussurrou na última manhã que se levantaram juntos.

No meio da viagem, no trem, entre um lugar no entre, lembrou-se dos momentos em que a viagem antecedia o sorriso dela à porta do apartamento, os traços das mãos.

O sol, os lugares. Nos momentos-cores, aumentava o bater da ansiedade de quem não se sabe sombra. Vê-la, na quinta-essência!

Repisou a cidade, subiu a pé a avenida. Como onda que se aproxima com muita fome da areia, fez retrair as águas: uma voz antes do susto. Um misto de indecisões e surpresas que nos olhos dela pronunciaram: dois estranhos que se reencontravam na mesma sala da despedida, na cozinha de tantos cafés.

Estranhos, um diante do outro. Olharam-se com o ar de quem, no passado de seus próprios olhares, entendessem o absurdo do momento, desnecessário para os então desconhecidos. Era estranha a improbabilidade da cena, como se ele voltasse de uma ida rápida à padaria, ou se ela acabasse de chegar com as compras. Mas ali, na mesa em que a xícara, o café, os talheres haviam sido preparados com o zelo de antes, deram-se os dois o momento que só às fotografias serve.

Como antigos amantes, enlaçando dedos na cidade, se olhavam mutuamente buscando as cifras de um enigma. Não cabia mais nada do que se dera com ambos no passar do tempo que os separou. O calor do abraço, as coincidências, as garrafas, tudo agora era recolocado, quente e estranho como um velho abraço.

Sentado na manhã, ele a olhava dormir. Ali, nada fazia sentido: nem a viagem, nem a noite, nem o passeio pela cidade. Não sabia dar a nada um contorno e percebeu o erro da empreitada, da odisséia perdida. Não fora reconhecida a cicatriz e nem se percebeu a colcha. Era ali, como em uma fotografia: os lençóis envolvendo uma mulher completamente diferente, que precisaria.

O tom da parede, o mexer dela na cama, o respirar. Era como se estivesse acordado diante da estranha e, ao mesmo tempo, da mulher que ele acordava à noite para ver dormir na semi-luz do antigo apartamento.

Em silêncio, de pernas cruzadas, ele também não era mais o homem que acordou naquela manhã de há muito. Não era mais o homem de até-amanhãs. Tampouco por isso menos lúcido. Dar à praia. À grande onda: espuma e outro movimento.

O dia do despertar foi um vago tempo em que ambos repensaram seus retratos. Efetivamente outros e distantes, nada mais tinha sentido naquilo. Tornou-se insuportável a verdade da presença daquela que ele cobriu de outras personalidades, da imagem que a custo esvaziou. Para ela, o homem ali era um tormento, a cristalização de um passado que a custo se desvencilha, como quem lança fora densa camisa que não mais serve, ridícula e desatualizada. Na cidade que antes as mãos passearam entrelaçadas, ambos fugiram por destinos opostos e ignorados.

Tentaram outra manhã mais uma vez para terem certeza de que os corpos já quedavam mortos. Ainda na madrugada, sem querer que a manhã se repetisse, foi retido pela mão que já não mais conhecia. Disseram que se amavam como um bom-dia.

No caminho até a estação, mortos. Emudecidos, tentaram dizer o costume na despedida.

Em pé na estação, segundos antes de partir, ele entrou em suspensão. Sem ontem e sem amanhã, vazio, era como se ele estivesse enfim dentro de um retrato: um quadro impressionista que mescla o vapor do trem, as pessoas, os sons em fortes borrões de tinta, que distanciado o olhar, tem-se a ilusão de pessoas, apitos, tudo cristalizado em movimento.

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