terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Agora sim, uma retrospectiva pocket

2010 levou com ele o ano em que mais coisas diferentes vivi em toda a vida. Vivi histórias até então adiadas, vivi outras completamente novas e bagunçadas, cheias de novos obstáculos, abandonei memórias que alimentei por tantos dias, participei de famílias de toda ordem, recebi homenagens, lancei livro, fiz deste blog uma bandeira. E hoje, lembrando, é tudo retorcido.

Descobri que algumas cartas nunca chegam. Constatei que há pessoas para certos livros e que os livros são, sempre, para todas as pessoas. Vi que há sempre mãos estendidas e braços que se cruzam. Entendi mais do que antes que às vezes as palavras não bastam e que o silêncio, poderoso, faz o sol sair do mar na manhã.

Revi amigos, casei amigos, fiz com que amigos se encontrassem para se descobrirem.

Entendi que na Ilha, nas cidades que a circundam, no convento, nos seus morros e nos olhos dos que cruzam diariamente as pontes da cidade, há sempre o sonho do mar. Casas que sempre querem se lançar ao mar, com medo das tempestades e das ondas.

O mar quebrou em mim as durezas e muitas das arestas de quem nasce com 80% de ferro nas almas, nos chãos de terra vermelha de minério, no vento seco que sopra na manhã da Serra do Curral. É do mar o meu respeito, nas espumas do mundo como o resultado das grandes ondas do Atlântico. O mar me mostrou que o que sobra, de tudo, é outro movimento.

Nesse ano comemorei com amigos um dos meus feitos que não imaginava que chegaria à grandiosidade que hoje tem. Não sabia, aos dezoitos anos, que fundar uma república era criar, em alguma quantidade, uma relação de identificação e de carinho, uma família e uma amizade. Não sabia o que nascia naqueles poucos cômodos do Beco do Cica: uma infinidade de porvires que tanto mudaram as vidas de pessoas. Eu, um estudante pobre, com outros estudantes pobres tecíamos, no gesto de acolher estudantes e trabalhadores, uma teia que ainda não se concluiu, recheada de contatos que não posso vislumbrar. Comemorei o feito com muitas das pessoas que acompanharam a trajetória, com aqueles que hoje são parte desta família.

As fotos dos que não estavam lá, sorrindo, na parede, junto com a minha, de alguma forma, faziam com que eles estivessem outra vez em Kaza: todos nós ao som dos discos do Fernando, de suas frases pintadas na parede, nas portas, na mesa laranja, ao som de Mulambo no meu violão, das risadas do Truão, do silêncio do Costilla, das brincadeiras francas entre os Eds e seus pertences duvidosos, da bateria imaginária do Welber, da aranha no lustre, das piadas do Boy, no Argos atropelando tudo pelos corredores, do Calouro acordado de madrugada aprendendo javanês e a geladeira sacudindo ao desligar. Amizade e aprendizado sob as palavras que trocamos na Lém Kaza.

Revi lugares. Revivi em Manhuaçu o carinho que entre as montanhas cheias de café recebi. Vi e revi os olhos daqueles para quem ensinei um pouco do que nunca aprendi. E vi mais olhos cheios de esperança, na inocência pulsante e caótica de tantos. De lá, parti para pisar o chão de outras cidades.

No amanhecer em Ouro Preto, com o cheiro do vapor de alumínio que cai na madrugada, ainda nas nuvens que dormem sobre o Carmo na alvorada, em passos lentos, os meus passos, antes apressados, repisaram-se. Em Mariana, o mesmo aperto de mãos e os mesmos abraços. Em BH, um monstro que não mais conheço, caótico e confuso chocando e misturando tudo o que toca. A velocidade tomou conta das ruas pensadas há mais de um século. E nelas, velhos amigos, velhas e novas palavras, outras músicas: novas vivências.

Foi também tempo de Farrapos, de Circo-Volante, de ciranda no samba no pé-de-moleque. Os mesmos velhos sorrisos do meu carnaval, outra vez. Os dias entre amigos em que a semana nos traz outros conhecidos, outros sons. Na parede da Deuses, meu rosto tão diferente entre o de tantos outros amigos. Não é mais a casa de onde saiu meu velório, onde disse que o que nos faz humanos é a amizade. A casa em que tomei tantos cafés, ouvi confidências, dei e recebi conselhos, que tocou tantos sambas carregados de fumaça de cigarros e de copos de cerveja. Mas na casa nova, na mesa da cozinha, meu café da manhã, os copos vazios, e outra família que acordava aos poucos para conversas, discussões e samba.

Também descobri que somos seres de tempo e que o silêncio nos forma e nos diz o que é efetivamente duradouro: o presente. E somos de linguagem, como estas memórias. Por muitos dias só a linguagem chegou aos que tanto valorizo e deles recebi todo o peso que a linguagem nos devolve em seus textos, seus telefonemas, seus gestos, seu silêncio.

Não visitei muita gente, não entrei muito no mar, não pude estar em muitos momentos importantes com meus amigos, com meus parentes, mas na estante da sala do meu apartamento, a palavra escrita em pedra carregou para dentro de si o ano todo: saudade. Foi ela, que mais uma vez me segurou em pé na corda bamba.

No mais, as coisas corriqueiras do todo dia: comer arroz e tomar café, estudar dias trancado em casa, ler poesia porque só ela nos alivia a alma, sambar na Lama, passar noites em claro e perder cabelo. Ver que as feridas da mão sempre estarão sob a pele para me lembrar de meus cadernos e meus livros. De saber que é sempre possível devotar palavra.

Como disse a Julian e a Beatriz, a desordem que o amor nos traz, as loucuras e as confusões nas gavetas, faz-nos saber que amar é compartilhar, é des-ordem. A palavra compartilha e só pela linguagem amamos. E em 2010 eu aprendi que é a linguagem que sempre fará com que eu ame. Seja em minhas memórias, seja nas fotografias da minha sala, seja nas noites em que sonho estar novamente numa cozinha, entre panelas e potes, cercado por azulejos verde e que, de repente, amigos cheguem - pulando as janelas, assobiando dos portões, batendo com força à frágil porta - para tomar um café forte e falar, falar, falar...


2 comentários:

  1. Fico feliz, meu nobre amigo, de ter acompanhado de perto essas experiências que 2010 trouxe para sua vida... Sei q foi um ano muito importante para ti, que lhe trouxe muitas memórias, que lhe trouxe muitas mudanças e certezas...

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  2. um ano inteiro de coisas, e tanta gente a dizer que um ano passa rápido; discordo. num ano cabe tanta coisa, que a gente guarda com desconfiança, porque as coisas que acontecem dignas de nota são justo aquelas que mais nos balançam, mais que onda, mais que viola.

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