terça-feira, 19 de outubro de 2010

De novo no vermelho

Do olho do furacão, no meio da multidão, pula uma velha foto, outra música, um copo d'água. É hora de lembrar que somos, sobretudo. Somos, na soma de seres que nos dizemos ser a todo momento, em suas multiplicidades. Somos o conjunto do que fomos e a força constante impelindo ao movimento, como as coisas do mundo.

Na multidão, surgem outros olhos, esquecidos olhos que já se pensavam impossíveis, carregados de vontades, de vozes na chuva. Viver é também estar na chuva, com vozes, em canto. Viver é estar em canto também, nos quartos, nas ruas varridas, na madrugada.

Do resto que fomos, somados como pedaços de coisas, nossos guardados, nesta vontade constante de gritar. Há muito não se via, há muito se tinha esquecido e agora, na grande luta contra tantos outros inimigos com ternos tão iguais aos de antes, é preciso lembrar de nós mesmos, do que somos, nestes seres incontáveis.

Lembrar para não deixarmos que vençam as velhas práticas, os velhos medos. Lembrar porque é disso que vive a matéria-homem: de passado lembrado para que no futuro nunca o passado se repise igual. Sem passado, nem os mortos estão seguros.

Recortados das fotos de jornais, nossos olhos na multidão. Outra vez na multidão! Outra vez a multidão vermelha a pedir, constante, o que sempre pediu. Não a paz aniquiladora das verdades prontas, mas a cor vermelho-voz do que nos faz humanos: o direito inconstante de falar.

Tornemo-nos, pois, falantes, é hora! De novo nas ruas, de novo no vermelho que tanto quiseram calar.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pelo mês do aniversário do Poeta Maior

Estamos a praticamente meio mês das comemorações do aniversário de Drummond. Este ano, se estivesse vivo, o poeta comemoraria 108 anos de vida em dia de eleição. E neste ano, ele não aparece, escondido que está, dentro de seus livros.

O mais engraçado é que a popularidade de Drummond vem assomada de uma série de coisas. O poeta é mais uma marca do que reconhecido pelos seus textos. Tem estátua no Rio, estátua em Itabira, Fundação cultural, selo comemorativo, moeda especial da casa da moeda, bóton, camisa, chaveiro, bibelot de estante, xícara, quebra-cabeça, viaduto, bilhete de ficha de cerveja de festa de DA de letras: Carlos Drummond de Andrade virou coisa.

As coisas Drummond, pelo país, são rios de lucros para comerciantes que o exploram como a uma mina de ferro, de ouro, vendendo-o a um conjunto de fãs que colecionam - como eu - cada uma dessas quinquilharias. Falta ser marca de perfume e rótulo de conhaque.

Logo ele, que inveja a força das coisas. "E eu não sou as coisas e me revolto", verso de Nosso tempo. Logo ele, tão preocupado com o não tornar-se etiqueta, que tanto pediu pela paz dos picos de Itabira, quando ainda existia pico em Itabira.

A coisificação da figura do poeta é um fenômeno ainda não pensado e de difícil digestão. Como coisa, Drummond vira marca, produto, tem preço estampado. Drummond já foi moeda corrente de rápida desvalorização no plano Cruzado.

Nisso, claro, há o reconhecimento do amor que o povo tem por seu poeta. Se não fosse amado, não seria tão lembrado. Mas o problema é que em tudo que se vê gosto também se vê dinheiro e o que ele é capaz de fazer com a imagem do poeta: vendê-lo, só por ser ele, por qualquer meia dúzia de reais.

Isso me incomoda um pouco. Drummond deveria ser lido, ser estudado, estar na vida das pessoas por seus textos. Não porque se tornou coisa, como monumento público ou xícara de café. Deveria estar por ser literatura, não pela sua figura pessoal. Transformar Drummond em coisa é esquecer, em parte, o que Drummond dizia, na ilusão de que a comercialização de sua imagem o mantém vivo.

Deveria estar na boca do povo e não no bolso das políticas públicas oportunistas, como a secretaria de turismo de Itabira tanto explora, e a de obras de BH tanto faz questão de edificar. Os escritores brasileiros deveriam ser patrimônios não por serem pessoas geniais, figuras de outdoor, e sim porque escreveram coisas geniais, que não se estampam nos mesmos outdoors.

Não acredito que a coisificação do poeta propicia uma maior leitura de seus textos. É fenômeno que merece ser pensado. Fato é que Drummond agora é produto mercantil do mundo caduco que criticou.

Mas, independente de ter virado coisa, Drummond merece os parabéns, talvez um dia, um feriado. Parabéns, poeta!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Na política, parte II


Continuando a pausa feita na produção de literatura comum ao Desde que o samba é samba e voltando mais uma vez às reflexões sobre o período eleitoral, o que mais tem me incomodado nos últimos dias, tanto na mídia golpista quanto nas discussões mais informais com amigos, é a de que as pessoas polarizaram a discussão política entre votar em Serra ou em Dilma.

Claro que tal disputa não está desligada de um ranço que o brasileiro tem de encarnar na figura de um único sujeito toda uma idéia de política. Ninguém discute as vantagens e as desvantagens de se votar no PT ou no PSDB. A miltância tucana ataca a figura pessoal de Dilma, chegando ao ponto de divulgar um vídeo no Youtube dizendo que "Lula segurou o PT"e tenta implementar o medo perguntando se ela segurará, como se Lula também não fosse PT. Em contrapartida, essa mesma militância esconde a figura de FHC como se FHC também não fosse PSDB.

Nessa corrida por votos, o eleitor acaba sendo iludido pelas mentiras escabrosas da mídia golpista e se esquece de pensar que quem efetivamente governará o país é o partido que levar as eleições. A figura do líder é importante, sem dúvida, mas mais importante é a quantidade de membros que o partido que governará tem nas cadeiras do Senado e na Câmara. Fato é que o PT e a base governista, no primeiro turno, conseguiram maioria em ambas as casas.

Outro problema que não vejo discussão sobre é com relação ao sistema de eleições que herdamos do governo bipartidarista de fachada dos militares. Não faz sentido em uma estrutura eleitoral pluripartidária um segundo turno entre A ou B. As eleições então se tornam uma corrida para um plebiscito e, no fim, somos obrigados a ver a corrida desesperada das legendas pelos votos da terceira opção. As candidaturas já partem da seguinte premissa: se não levarmos no primeiro, empurramos a briga para o segundo turno em que pegaremos mais um conjunto de votos dos pequenos partidos ou das legendas que ocuparam as terceira e quarta posição.

Acredito que falta no brasileiro uma discussão mais profunda sobre o sistema eleitoral. Foram escolhidos somente dois candidatos entre os 9 presidenciáveis. Por que não podemos ter, uma vez que são tantos os concorrentes ao pleito, 3 candidatos no segundo turno? Isso forçaria necessariamente um debate mais aprofundado no primeiro turno, as coligações teriam que se voltar mais para quais opções podem ser apresentadas e não teríamos, no segundo turno, um plebiscito.

Outro ponto importante é que os atuais candidatos não estão disputando um pleito de 4 anos. Desde que os tucanos conseguiram aprovar a reeleição, todos querem um pleito de 8 anos. É ingenuidade pensar que quem assumir a presidência - seja o PT seja o PSDB - vai governar o primeiro mandato não visando uma política, ao findar deste, em que o discurso seja o da efetivação daquilo que o candidato só começou e que ele precisa continuar, como foi nos últimos 16 anos. Cristóvão Buarque, em entrevista antes da eleição de Lula para o segundo mandato, disse que a reeleição é só uma oportunidade de o/a presidente fazer quatro anos de campanha paga com o dinheiro do Estado, mesmo que essa campanha melhore a situação do país.

Nesse sentido, porque não discutirmos a ampliação do pleito para seis anos, sem direito a reeleição? Assim, além de um processo eleitoral que não nos levaria a um plebiscito - no segundo turno entre três candidatos -, o candidato realmente terá tempo para pôr em prática suas metas de campanha e então encaminhar seu substituto, seja pelo seu partido ou pela coligação que fizer.

Assim efetivaríamos a democracia pluripartidária de que tanto nos orgulhamos e mataríamos de vez esse esquema que a ditadura nos deixou, que faz com que sempre nos voltemos por uma disputa bipolar, entre o sujeito A e o sujeito B. É preciso colocar de novo em cena, também, os partidos, suas idéias e suas propostas e esquecer que o voto não será no indivíduo. Se assim fosse, o número dos candidatos deveria ser o seu número de suas carteiras de identidade, e não o número de uma legenda.

Enquanto isso não acontece, neste plebiscito, como disse em post anterior, fico com o PT e seus próximos 4 anos de governo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Na política:


Pensei muito no que escrever sobre as eleições e cheguei à seguinte situação.

Entre

1-) o sucateamento da educação pública, o sucateamento da máquina pública com a não contratação de funcionários, a tentativa de trocar o nome da Petrobás para Petrobrax numa tentativa de privatização, a venda a preço de banana da Vale do Rio Doce, a tentativa de por fim à CLT, a crise energética, a não criação de escolas técnicas federais, o não investimento em pesquisa e infraestrutura, a alta taxa de juros, o baixo investimento na saúde e a substituição da contratação de médicos pela mão de obra voluntária, resultado da administração de oito anos do PSDB,

e


2-) a criação de Universidades Públicas e a ampliação das já existentes, a criação do piso salarial dos professores da rede pública de ensino, a criação e ampliação dos institutos federais de educação e o nivelamento salarial dos professores federais, a contratação de professores da rede pública, o investimento na máquina pública com a contratação de profissionais de vários setores, a não-privatização da Petrobrás e a transformação dessa na segunda maior empresa energética do mundo, o renascimento da indústria naval, o investimento no pequeno agricultor via agricultura familiar, o crescimento econômico, a respeitabilidade internacional, a exigência do beneficiamento do minério brasileiro no Brasil, o investimento em pesquisa, o investimento nas UPAs e no SAMU, a transformação do país numa potência emergente, resultado da administração de oito anos do PT,

eu fico com o segundo grupo de coisas. Eu fico com o PT.

domingo, 3 de outubro de 2010

A cor da voz de Marina


Em alguns momentos de minha vida, meu coração leviano se deixa levar por vozes femininas. Vozes que são tocáveis, de mulheres que me chegam só pelos ouvidos, mulheres que carregam na cor vermelho-carne das veias azuis dos pescoços o grosso caldo da vontade que me causa a vontade de mais, de crer na possibilidade das coisas.

Aconteceu pela primeira vez com Marisa Monte, de noites dos meus 16 anos, noites inteiras em que o samba de Paulinho da Viola chegava a proporções absurdas, densas, como um beijo. Pensei ser da idade, escondi-me dela enchendo o ouvido de outras músicas, dos choros de Paulo Moura em Os oito batutas. Passou, quase como uma forte pneumonia, deixando sequelas no meu ar.

Depois, outra voz de mulher me carregou, traindo a Marisa que a custo eu apaguei. Gal era a tuberculose incurável neste quase adulto cheio de responsabilidades. Chegou, trouxe pela mão de novo a velha amante, seus cachos-pesados-diminutos, em que eu misturei tantos amores. Há pouco, no desconexo tempo, Gal cantou para mim numa manhã uma música mais forte, com Mamãe não chore, do Tropicália, quase como se eu dissesse da independência composta de não-tem-mais-fins.

Quando Gal chegou, deixei de lado a fuga. Quis a montanha russa que ela provocava e mergulhei por inteiro em dias pesados de Maria Bethânia, ouvi desesperado Elis, Ella, Joss Stone, Billie Holiday, Tracy Chapman, Diana Krall, Nora Jones, Maísa, Dolores, Roberta Sá, Vanessa da Mata, Mercedes Sosa... Mulheres apresentadas por amigos, por mulheres reais, sem tanta voz. Tantas vozes femininas que é difícil colocar aqui tantos nomes.

Mas, de todas, sempre Marisa e Gal, como mulheres mais principais, mulheres com mais que vozes. Nelas, as cantoras carregam uma personalidade capaz de transmutar a vida, de nos carregar para os sem-fim lugares dos desejos.

Como um adolescente, como aquele adolescente de 16 anos que viu a foto da capa do Mais e quis daquela mulher mais do que a imagem, mais que a foto, quis a voz, os passos, as noites, essa semana me perdi de novo, num retorno, em outra voz brasileira, outra voz que traz uma carga pesada da vontade impactante como também fizeram as cores Marisa e Gal.

Quase Marisa, quase Maria da Glória Gal Costa, surge outro nome, mais que a foto. No rodapé da página última, nos rostos que a Carta Capital nos apresenta em branco e preto, Marina de La Riva, tão cubana, tão brasileira, tão latina, trouxe a cor que eu busco nas vozes femininas. Um peso maior que os beijos, que os corpos. Marina trouxe de volta o amor inocente por uma voz que inundou e inundará constantemente a cor-aurora.

Com um respeito incomum à música latina, tão difícil de entrar hoje no cotidiano dos ouvidos eletrônicos, Marina recupera os pianos e os metais de Havana com a limpidez das vozes das cantoras dos antigos saloons cubanos, com neblina-cinza dos Cohiba. Isso, sem abandonar o batido brasileiro, a faceirice de quem canta com olhos fechados, quase como se amasse, num misto de gozo e clareza que faz surgir dentro do compasso o sorriso branco, leve, limpo.

O disco dispensa apresentações. Todo ele é um elogio a las calles, a los amores. Um soco. O disco de Marina pede o ruído dos LPs e o sol de sábado quando em casa eu ouvia, com meu pai, tantas músicas latinas. Até Chico Buarque fica como um coadjuvante. Se não estivesse lá, não faria falta. Aliás, Chico deveria compor uma música para Marina. Aliás, João Gilberto, Caetano, Gil, Paulinho, todos deveriam compor músicas para ela, músicas cubanas, músicas latinas que fazem com que nós nos reconheçamos num pan-americanismo, cheio de palmas, trompetes e falta de ar, suor e poeira levantada. Marina é mais forte que a tuberculose, mais forte que a pneumonia. Marina de La Riva é a minha maior falta de ar.