sábado, 28 de agosto de 2010

em memória de mim

Sem atropelos, sem destroços.

A verdade comungada como um pão de sal, como a sardinha na mesa dos pescadores, a cor-pão-guardada no armário estudantil, o macarrão das noites, a comida pronta, a mesa do almoço da família de amigos, a fruta roubada de uma árvore pública por mendigos, por meninos de rua, conhecidos e desconhecidos dos restaurantes públicos, em todos os lugares onde pobres e ricos comungam uma verdade.

Os lugares das verdades nos dentes das pessoas do mundo, das cidades do mundo, dos lugares imprecisos do mundo. Como se todos os seres pudessem, no comungar a verdade, saber algo que mora nas peles das civilizações, no pão etrusco, na tâmara dos beduínos, na carne salgada dos homens dos pampas.

Comer, como uma dádiva: na língua, as civilizações se alimentam dos saberes ancestrais, dos milênios em que as cozinhas dos povos adaptaram-se à única e real rotina dos seres: vencer, a contragosto e sobretudo, o hostil mundo que nos recebe todas as manhãs como um corpo humano recebe um vírus.

A verdade digerida, no estômago humano, gigante e gordo estômago humano, menos nobre que os estômagos das vacas.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

QU4RTO DESAMP4RO prepara-se para tornar-se público

Depois de mais de doze anos de escritas e reescritas, de leituras incessantes e constantes, de conselhos de amigos que leram cordialmente depois dos meus exaustivos pedidos, virá a lume nas próximas semanas meu segundo livro, agora de contos: QU4RTO DESAMP4RO.

Decidi fazer um lançamento virtual porque o mais importante de um livro é ser lido e a internet disponibiliza a leitura em larga escala gratuitamente. Outro ponto é o fato de o livro ter um momento virtual. Alguns dos textos foram publicados neste blog, reescritos e reencapados para irem aglutinar-se aos demais, no compêndio-livro. Isso sem contar as experiências de outro blog, onde postei textos da última versão antes da definitiva. Nele, recebi críticas das mais variadas de todos os tipos de leitores.

Uma vez que o livro também necessitou da internet para ser feito e teve, com isso, breve vida virtual, nada mais justo do que lançá-lo virtualmente.

Em muito pouco tempo, virei aqui no Desde que o samba é samba anunciar a publicação e convidar os leitores para a festa virtual de lançamento: um texto, um blog e um arquivo em pdf.

Tudo simples, rápido e direto!

Mas, como para antecipar a festa, publiquei alguns fragmentos de alguns dos contos no blog do livro. Caso queiram conferir, basta acessar http://quartodesamparo.blogspot.com

Assim, começa a empreitada de divulgação virtual!

Espero que gostem do livro e de suas outras formas de cor.




segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Nau cabralina

As coisas andam meio loucas e paradas, como uma grande calmaria que carrega um dos navios da esquadra cabralina para o desconhecido.

Como eu ainda, à deriva, não sei aonde baterá a nave - se num cais, se na ilhas das sereias, se no abismo do mundo que acaba, ainda não redondo - vou fazendo minhas preces marítimas, como um português aventuroso e ladrão, doente e magro deitado no convés.

Faz sol, sem vento, e a correnteza lenta me leva para um conjunto de páginas que brotam, soltas, de dentro da água. Maiores que as nuvens, sem provocar o vento, as páginas que brotam de dentro do mar têm mãos que as seguram, mãos rotas de pessoas de um tempo futuro, divinas e compactas.

Nessa miragem no deserto azul de sal e calor, percebo entre o branco que separa as letras desenhos que desconheço, imerso que estou, marinheiro, nesta personagem viajante, nesse homem-mar.

De um estalo, o homem-mar que sou dá lugar a Ismael, a Jonas, ao Capitão Nemo, a Colombo, a Oribela, a Fernão de Magalhães, a tantos outros seres do mar - fictícios - que povoam a memória coletiva, a memória humana ibérica e ancestral de que meu povo é eternamente cansado e escravo.

No ocidente, nas américas, no Brasil, todos somos do mar, homens do mar à deriva como os tripulantes da coroa que sumiram, como os canibais da Nau Catarineta, como os loucos da Nau dos desgraçados. Eternamente nômades, saudosos, fadistas, somos o povo que se fez ao mar, dentro dos livros.