quinta-feira, 29 de julho de 2010

Dois dedos de uma ida a Minas

Minas como dois dedos de poeira na estrada de ferro que levou e trouxe Minas.

A frase, carregada de significados, surgiu depois de longa conversa que tive com o pai de uma velha amiga (que carrego em mim como um leve passo de dança; amiga além do mais-que-perfeito). Jorge Guardacampos, o tal pai, poeta de um livro que li de um só tapa pouco depois de o ganhar de presente, mostrou outros novos poetas que eu desconhecia e que se guardam aqui, entre as montanhas, como um presente a ser dado a um velho filho que retorna ou ao viajante que partirá com a tropa com o raiar do dia.

Minas, a puta do poema de Paulo Augusto de Lima, ouvido na sala da casa de minha amiga, depois de um profundo mergulho nos livros e no passado dela, é sempre a dadivoza moça de Guimarães Rosa. Min(h)as além do som, na noite carregada de seu sorriso de ferro, como o trem que apita fumegando, levando e trazendo o velho sonho do mar, o velho desejo da pátria nunca isolada e sempre quista desde o inconfidente.

Aqui, entre as montanhas, Minas me traz mais que presentes, mais que novos poetas guardados em suas gavetas. Traz meus velhos amigos em longas conversas em que se olham nos olhos as mudanças e as permanências das muitas palavras que tivemos, nas noites de frio, na chuva intermitente no pátio marianense em que fazíamos de nós outras formas de crer. E também amigos que embarcam em outras formas de trem, na partida inevitável de quem nasce no solo Minas. Nosso eterno partir, dentro e fora de Minas, nômades eternos como os antigos índios que nos formam, como os bandeirantes que nos cortam, como os jagunços que dominam, como a tropa que nos faz.

Vacância, vaquejança, troparia: tudo, em andar e desandar resume em Minas nossa felicidade-ausente, substantivo que Guardacampos me ensinou ao relembrar o que some em Minas.

A estadia curta, entre meu partir e partir, levou-me mais de uma vez ao meu centro, o colapso Minas em que se filosofa sobre o resgate acenstral em se fumar um cigarro de palha, em que se tem a casa de amigos na fronteira além-Minas, nos frios campos que nem os paulistas resistiram tendo que inventar este chão beira-rio. Nos que vão aos campos paulistas reviver o trem fumegante, nos que ficam quietos à margem do Ribeirão do Carmo, recebendo a desfeitensa de mim, que não poderei cumprir outra promessa de café e conversa.

Todos os meus de Minas, de longe e de perto, em Minas nos dias que fiquei e que ficam, esperando o trem que me levará de volta ao litoral, sem vapor, mas com foligem e óleo e minério. Num vagão da Vale, meu coração de ferro embarca com a alma de Minas indo ganhar o mundo e o mar.

terça-feira, 6 de julho de 2010

o atropelo

A cidade é um atropelo. Na esquina, nos ônibus, no mar. Um constante e inquieto atropelo, arrebentando as pessoas como relógios.

Na cidade, nada cabe. Não cabe o espaço, não cabe o tempo, não cabem as cores. Não cabe a dor, na cidade. Cabe o atropelo e acabamos confundindo dor, espaço e tempo, achando serem essas as imanências, com o que na verdade são os destroços do atropelo.

Somos, na cidade, aos destroços. Reunidos, os nossos destroços com os dos outros formam os mosaicos que são os rostos que perambulam apertados na cidade. Comprimidos entre prédio e prédio, o mosaico-homem é repartido no atropelo-cidade, se perde por completo naquilo que acreditou ser formoso e completo como um móvel sem detalhes, liso como a superfície brilhante de um objeto. Somos, na cidade, às sobras. Tão iguais: sobras.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

(mais um, do livro)

Como tudo muda o tempo todo, o meu livro mudou de nome. Agora, em processo de registro, manterei o título em segredo, até seu provável lançamento. O conteúdo mudou um pouco, e o antigo conto que abria o livro - postado aqui há alguns meses - sai de cena. Aquele conto agora fica como parte do blog.

Ao invés de postar o conto que substitui o primeiro no novo livro - no antigo "Fome" - aqui está o último (que gosto mais).

Espero que gostem também.


***

Ela sentia falta do sol. Não desse sol praiano que nasce majestoso e soberano, mostrando ao mundo que ele é a vida em profusão, mas do sol pálido, aquele que aparece no alto da montanha numa manhã, entre, sobre, que está nas coisas. Falta daquela suavidade, como criança.

Ele sentia falta do frio. Aquele frio úmido, que dói os nós dos dedos, que nos faz esfregar as mãos uma na outra, ou aquecê-las na xícara de café. Só nessas épocas entendia o porquê de café quente pela manhã. O frio fazendo doer o nariz. O dia nascendo esquentando o resto de nuvem, evaporando o orvalho e dando ao ar um cheiro-manhã, antes do sol aparecer sem força, acordando o azul-céu do edredom.

Mas ela sentia mais falta do vento. Sentir o vento. Sensação de liberdade, os cabelos para trás, o corpo solto. As roupas coladas à pele e as lágrimas brotando açoitadas pela força, sem direito a durarem no rosto. Um vento cortante em que abriria seus braços, querendo tocar os pólos e o sabor da saliva quente dentro da boca, cortada de frio, que sangra ao menor sorriso.

Ele acha que o vento tira do chão, que dificulta o passo. Uiva na esquina da rua, sofre, corre de agonia, foge. O vento como um bandido que joga atrás de si os objetos que encontra dificultando a perseguição, de braços abertos e aos saltos.

Ela sentia falta do vento cuidando, dificultando-a, ciumento, impedindo-a de acabar de ler a página, despenteando-a como se sentisse saudades, tirando sua roupa, com sede de tocar a pele e feri-la com seu sopro louco mais delirante.

Para ele, o vento não precisa existir. O vento é dono de si e pode causar, derrubar o mundo ou levar a vida, esconder a voz e deixar atrás de si uma tempestade sem fim, com mortos. O vento cega. Não tem pátria, não tem.

Às vezes, ela sentia falta de estar ao vento. Solta, deixando nele o seu passado, deixando-se ser carregada, sem memória, sem pátria, para o lugar mais longínquo e que não mais a perturbe. Ser-do-vento. Tentar controlá-lo com as mãos, tentar ter com ele rédeas curtas e vê-lo se agitar como um cavalo louco e indomável. Soltar-se nele por inteira e ser como ele, livre, sem lei, sem regras, sem forma definida, sem boa educação e bom humor fingido. Ser parte do vento, como era um pouco parte de todas as coisas.

É das coisas do mundo que ele mais sentia falta. Nada lá fora dependeria do seu bom comportamento. Nada no mundo pararia pelo seu mal.

Mas o homem, para ela, era insignificante na sua existência de erros, precisava do vento. Precisava se castigar porque era frágil demais diante do vento. Precisa de família porque era frágil demais. Precisava de leis, porque era fraco. O homem, para ela, tem medo de si mesmo.

O que mais a incomoda é que esses muros não deixam o vento entrar. Tanto abrigo, tanto esconder! Às vezes, se sentia a poeira. Escondida ali, não incomoda.

Queriam muito ser menos que isso. Ser-mais-forte. Saberem a hora de morrer.

Pensavam sempre que lei era algo em que se acredita. Se não acreditar, ela não existia. Se ela não existia, ela não os punia. Podiam se punir assim, por fora, sem as leis. A maior lei eram eles mesmos. Se eles não se puniam por dentro, não erravam, e mesmo que o mundo os punisse, apontando-lhes os dedos, eles eram livres e controversos, sem punição.

Queriam, cada qual, estar ao vento. Para ser exato, queriam estar no vento agora para que o dia em que morrerem se tornarem parte do vento também. Ser-do-vento, Ser-mais-forte, sem medos.