quinta-feira, 24 de junho de 2010

Cais

Enfim, deixar para trás, como cortar os pulsos. Sem o melodrama, é um banho de sangue e de água do mar, lavando a alma em três matérias.

Olhar a diante sem a preocupação da dor torcido-opaca do pescoço, esperando, no canto do olho, o brilho que nos faça voltar. Não há mais. O lugar, em mim, tem mais peso que o lugar real. E nele, onde habito, faço meu sudário.

Deixar para trás as noites frias e secas, as mãos no escuro, as lágrimas, a ante-sala madrugada em que o destino me pregou um grande susto. Deixei para trás, sepultando longe o que restou da camisa colorida que cobria, como no samba.

No limite, de onde tudo parte, esse princípio, vislumbro outras paragens com outros sabores e sais. Do cais, o barco partiu, enfim, desligado do para trás, e não sobra de tudo mais que uma marca, uma cicatriz no braço, pequena para o que se pensou ser imensa chaga. Como as cicatrizes que ficaram depois dos parafusos. Sem atenção, quem perceberia?

Agora ao cais! Depressa, pois é preciso embarcar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

casas, livros, rachaduras

Passei parte da noite fazendo um exercício que há muito não fazia. Arrumei mais ou menos as coisas da casa e sentei-me para olhar as lombadas de meus livros. Um café quente. O momento era de fechamento de coisas, de trocas. Tudo o que traz de novo as muitas histórias dos meus livros, histórias sobre histórias, o que abre milhares de labirintos.

Um deles me remete à sensação de sentar para olhar os livros. Em Ópera dos mortos, Autran Dourado fala de um filho que quer, na casa que herda do pai, um pouco de si e um pouco do pai, de forma que vista de longe a casa seja uniforme, mas que se olhada com detalhe, se perceba o filho sobre o pai, no segundo andar um pouco diferente do primeiro, como uma continuação ao mesmo tempo parecida mas particular. A casa como ícone da individualidade que não nega a tradição. É claro que Autran Dourado não falava de casas.

E casa me remete a uma frase de um amigo, bêbado, num bar em Mariana: "toda casa muito bonita, se olhada muito de perto, apresenta rachadura". É claro que o amigo não dizia de casas, e sim de mulheres, de uma em específico.

A mulher em específico, minha amiga, há alguns dias, me disse que procurava casas que fossem outras vertentes. É claro que minha amiga não falava de casas e sim de destinos, dela mesma, de ligações, retornos e partidas.

Eu, numa aula, usando a frase acima, a do amigo, disse que a palavra casa era exemplo de pluralidade de significações. É claro que eu não falava de casas. Mas o que importa mesmo é que a casa, a primeira, é anterior em qualquer sentido, anterior até a que hoje estive a observar as lombadas e as histórias dos livros.

Nas longas e frias madrugadas de Mariana, em que ficava férias sozinho, fazia isso: sentado, bebia café e olhava os livros.

Ler mesmo os lia depois, mas ali, imóveis nas estantes, era como se observasse a terra inteira sem a mão de alguém que se aventure por tal ou qual caminho. Distante, como um observador mudo, me vi sempre mais distante das coisas todas, dos livros, da própria casa. Pensava mais detido nas histórias que os livros teriam vivenciado até aquele momento, ali, na estante, e as histórias que terão para além daquelas estantes, quando serão de tantos outros, em um destino ignorado, separados e vendidos em bancas, estocados em alguma biblioteca, herdados por amigos que também ignoram os destinos de seus livros depois que passarem por eles. E das casas que tiveram: as casas por que passaram até aquela, e as que passaram além daquela até esta. As que ainda passarão de aqui para adiante. Dos meses que muitos passaram em outras casas, outras mãos. Da minha ignorância sobre todos eles e suas histórias e meus afetos a eles como coisas além das que ficam nas estantes, do que carrego deles. Cada um, como uma casa.

Essa semana outro livro voltou da rua, para casa, depois de seis meses. Mas antes de chegar, outro partiu para breve estada fora. Um outro chegou depois de anos, de ameaças de destruição, de esquecimento em outras casas, cheio de outros cheiros, como mulher que se deitou com outro. E tantos outros, em mais ou menos tempo, tiveram destinos variados por cidades que eu desconheço, mesmo depois de chegarem aqui. E sabe-se lá o que causaram, se amor ou ódio, sono ou desespero. Marcados de dedos, curvos de outras estantes, muitos de meus livros rodam por aí meses sem mim. E não me contam o que viram do mundo, além do que lhes vêm impresso, como digitais. Além do que carregam, como aquilo possível de se perceber, não menos intrigante e complexo do que o que se pode tocar nos seres. Como casas, que recebem tantos em tantas épocas.

Não sei eu o que minha casa recebeu até mim, e não saberei o que receberá depois. Como não sabia nas outras casas que morei e muito provável não saberei das casas que virão. E de destino ignorado, como o dos livros, que só guardarão as digitais por baixo das tintas. E nas digitais outras histórias que as paredes não me contam e que nunca tiveram testemunha e se perderam, como muitos dos que passaram por meus livros.

Casas como livros, como rachaduras. Imperfeitos todos, cheios de marcas, particulares e indistintos. Mas é claro, não falo de livros, nem de casas, nem de rachaduras.

Inter-dita

Uma ânsia irresoluta em um presente nunca vivido. Interdita, a possibilidade de mais é sempre uma ausência. Sem o estar em mim, mas a ausência como a gula.

Sentir o estado incomum de tudo que faz falta, como a boca entreaberta na noite ou mesmo o caos que me consome as vistas. Em tudo, cores e destroços. Em tudo é ânsia.

Soubesse o presente de tudo, o meu presente em tudo, o sorriso brotaria da noite, grande, incalculável e insustentável de tamanha fluidez. E dele, alvo em pétalas, sairia a imagem, a sem-contorno imagem que criei no ar, em arabesco.

Não mais, em nada. E se nada fosse, pleno seria. Ficou a ânsia na boca não tocada, na noite não vivida, na memória distante e empoeirada como um cais. Sem as partidas, tudo é destroço inalcançável, distante das mãos e dos olhos, como se no túnel se desfizesse em mil partículas e as partículas em mais mil pedaços de poeira e delas em átomos, e nem isso, perdurasse apenas o movimento, ou o rastro dele no vazio.

A gula. A maior das sebes. Sem fronteiras, numa imensidão que se propaga e que, a cada dia, me distancia mais e mais daquela imagem, da forte imagem que sobrou de tudo no redemoinho. Distorcida, diferente, distante, ela agora tem outro peso, outra medida, outra textura, e não sei se é feita de densa cor, como outrora. É feita de miragem, uma miragem cinza-ocre, como uma foto em decomposição, em que os rostos vão se tornando sombra de suas próprias formas.

Nesta distância toda, nem mesmo o som roça o caos. Afinal, o som é conseqüência de tudo. Sobra a gula que a boca pede e que a memória já não traz, de turva-sintonia. Não sobra, na ausência, a branca-fome. Sobra, desesperada, a não-vontade que me poda a potência. Sem potência, tudo se perde e o que me vem de longe, na memória, é um vulto estranho, um insosso sorriso que um dia pensei ser paz.