sábado, 27 de março de 2010

azul-metileno

A casta cega inaudita: ânsia. Como cores de arroz. Em festa, a saliva sobra desvairada no gosto constante, entediada de esperar sempre o vento-não. No vendaval, em misturas inefáveis de passos de dança, a figura, a velha figura, bóia sozinha sobre o metileno, rindo desesperada da situação. Na palma da mão, os riscos de saudade que acalmam e tampam o sorriso.

Saindo de tudo, da casta ânsia, é possível observar com cuidado as formas de todas as coisas, suas densidades. É possível ter-lhes a textura, tecitura, tecendo, palmilhado a história e a superfície. No contato, o ser observa o movimento vermelho da saia colorida, o azul-fumaça do automóvel, o mundo dodecafônico dos ambulantes e das crianças.

Sobe, da praça, o hélio em cor-de-alegria! Em contraste ao metileno e ao cobalto, às seis da tarde, em que um forte roxo avança por entre sobre umbrais e olhos, vê o ser a completude de tudo: o ápice a que um dia deram o nome liberdade.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Tem um jeito amarelo que me lembra manga. Manga madura. Com casca, quem diria da manga madura seu amarelo? É amarelo-manga-sem-casa. Tem sabor de amarelo.

No doce da ferpa que me deixa no dente. No dente-pérola quase amarelo-manga. Mas de outro tom de amarelo, outros sentidos.

Lembra outras manhãs com cheiro de lavanda. Manhãs mais roxo-rochosas e rosas. Manhãs de ontem. Manhã na cor-saber: como o amarelo-manga é mais que a cor de casca sem a casca do amarelo? pergunta a infância a qual reponde do vapor Não sei.

Quando

um muro dividia as Alemanhas

políticas públicas remarcavam

os preços

e o menino antes de mim não tinha nome

faltava-me ar como faltava pão

e as bodas preenchiam

cheias

os jornais.

terça-feira, 16 de março de 2010

Cometi um erro que custará caro. Caro além das medidas. Caro como arrancar das plantas folhas que não mais trarão a vida-verde costumeira, a vida em fluxo, a vida em seiva - forma com que a natureza dá vida a todos os mortais.

A forma-vida é seiva, é densa, mais que o tom do dia no poema acordado, mais que a força inconstante do problema. Saber: como respeitar e saber que tudo, em tudo, é seiva, independendo o nome, a cor e a forma. A brincadeira do leite derramado, do anel que se passou, vidro, vidrilho. A torta carne cortada pela verdade insalobre da eterna inércia, como um morto infante, como corpo cansado de gás.

Cometi um erro maior que a proporção indócil, maior que a cor indistintamente vermelha da agonia-chocolate. A gosma-vida que o mar transmite, cheia de sal e de vida do todo, tomando e agredindo o interno formato da alma, perturbando a paz dos contentados. A paz, a inconstante paz, a ilusória paz que se proíbe com a afirmação da própria paz.

Não mais, musa, não mais, porque de tanto cantar a gente endurecida, o que era vida em profusão, o gosto do corpo sobre o asfalto, é erro e sal, cor-serpentina.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Conto que espera publicação

Fechando a última onda do Desde que o samba é samba, que de uns tempos para cá tem na bagagem algumas poesias (poesias que vieram depois de longo tempo sem novidades, mas carregado de re-leituras de meus textos) resolvi postar um conto que abre meu próximo livro - FOME- que começa sua jornada por editoras. Sem títulos, os contos descompassados remetem sempre a mesma temática: as muitas fomes dos homens.

Publiquei alguns textos em outros blogs que fiz e que receberam críticas das mais variadas e das mais interessantes, que não vem ao caso enumerar, mas que me contentaram por mostrar que o blog foi lido, de alguma forma.

Vai então, o texto que abre as muitas fomes de FOME, em breve, impresso, com capa e tudo que tem direito. Espero que gostem.


.

Pára. Não me interrompe de novo. É sempre você me interrompendo sempre que começo a falar. Chega, já não agüento mais. Não agüento. Quero sair também. Sai da frente. Anda, sai da frente que eu quero sair. Se você não deixar eu pulo da janela. Pulo. Você duvida? Você sempre duvida de mim, das coisas malucas que eu falo. Não é nada disso que você está pensando. Já disse, pára e sai da minha frente que eu quero sair. Quero sair agora, entende? Quero sair já. Não vou ficar aqui mais nem um minuto olhando para sua cara. Não começa outra vez. Não tem nada a ver com isso. É passado, já te disse mil vezes. Ai, quando isso vai terminar, não agüento mais. É muita pressão, não agüento mais. Por que você faz isso comigo, hein? Você gosta de me fazer sofrer? Por que você não sai por aí e pega uma meia dúzia de mulheres! Sai, me deixa logo! Eu quero ficar sozinha, ou aqui ou em outro lugar. Sai da minha frente, já disse. Você tá me machucando, pára. Sai da minha frente logo antes que eu comece a gritar. Você duvida? Você acha que eu não sou capaz de fazer um escândalo? Sai da frente, você está me machucando, larga o meu braço, pára!

Já não agüento mais, sabia? Tá bom, eu fico mais calma, mas solta o meu braço. Ficou roxo tá vendo? Estúpido. Imbecil. Vai baixar o nível? Me dá um minuto, porra, eu preciso respirar, já que você não me deixa falar.

Saí com ele sim, e daí? Saí sexta passada. A gente se conheceu num bar. Ele me pagou uma cerveja, você não quis sair comigo aquela noite, não ia ficar em casa. Depois que ele me pagou a cerveja, ou antes, tinha notado que ele tinha nos olhos um quê diferente do que você tem. Agora vai dar escândalo? Não foi você quem quis saber? Vê se não me interrompe mais se não você não vai entender nada.

O nome dele não interessa, tá bom! O que vale saber é que a gente saiu sim, na sexta. Ele me pagou uma cerveja e falamos umas coisas inúteis. Fiquei olhando muito tempo pra boca dele e não prestei atenção em uma palavra do que ele disse. Era coisa pra eu rir e eu ri. Pensava em você e na raiva que você tinha me feito passar. Aí comecei a pensar que você estaria fudendo com outra, em plena sexta, e me queria em casa te esperando. Não disse que você estava fudendo com outra, disse que pensei isso. É tão difícil assim entender o que eu digo? Aí comecei a pensar na boca dele me chupando. Na verdade, pensei isso no primeiro momento que o vi, antes da cerveja. Não tenho mais certeza. Depois disso a gente começou a se beijar. Não interessa quem começou, a gente se beijou de qualquer forma. Não joga a culpa no cara, eu sei muito bem o que fiz e fiz porque quis, tá ok? Não encosta a mão em mim. A sua mãe também, seu filho da puta.

Quero ir embora. Não, não vou falar mais nada. Você pede pra eu te contar e depois me agride. Quer terminar comigo porque eu dei pra outro, termina. Agora, pára de dramalhão, porra. Sempre disse que eu não era só sua e a gente combinou que seria assim, sem regras. Se você estivesse fudendo com outra na sexta, que que eu poderia fazer, chorar? A gente combinou que eu não sentiria ciúmes. Eu falei isso? E se eu fiquei mesmo imaginando você com outra, qual o problema? A gente não controla essas coisas!

Não distorce o que eu falei. Falei que fiquei pensando nele me beijando. Você que entendeu errado, fica inventando coisa. Quer saber, vou embora, sai da minha frente. Você vai se acalmar? Se não for, não tem mais conversa. Foi assim que a gente combinou, certo? Sem fronteiras, sem regras.

Tava dando tudo certo até ontem. Que crise é essa agora? Não foi você quem falou que não consegue ser fiel à mulher nenhuma? Não foi você quem sempre quis algo que não te prendesse, sem amarras? Pois então? A única coisa que eu estou fazendo é te contar a verdade. Eu não minto pra você. Eu topei o trato. Não, eu não tenho ciúmes de você. Por que você está me perguntando isso, você está me escondendo alguma coisa? Ah, você saiu com ela? E por que só agora você me conta isso? O combinado não era você me contar quando acontecesse? Não mistura. Você disse que eu não precisava te contar tudo assim que se desse. Tinha te dito que eu ia demorar a me acostumar com isso. Eu tenho me esforçado, ninguém muda de hábitos assim, sem traumas.

Não vem com essa porque você disse que agüentava, que sempre tinha feito isso e que as mulheres com as quais você viveu é que não. Também, foda-se se você dormiu com ela. Tô pouco me fudendo pra isso.

Quer saber, isso não vai levar a gente a lugar nenhum. Me deixa sair. Não vou continuar coisa nenhuma hoje. Você está de cabeça quente e eu também. Não, já disse. Quer fazer o favor de sair da minha frente. Estou pedindo com a maior educação. Usa a cabeça, não vai adiantar te contar nada hoje. E no fundo, o que te interessa tanto em saber o que eu tive sexta passada? A gente trepou, não é o suficiente? Eu não tenho que te contar todos os detalhes da minha vida. Você não tem nada a ver com isso, o que eu fiz ou o que eu deixei de fazer é problema só meu.

Pára de drama. Você pode sair da minha frente porque eu quero ir embora e você não deixa. Sim, eu prometo te contar tudo amanhã, sem te esconder nada. Não, ele não era bom de cama, tá bom assim? E o que que tem isso a ver? Pra que tanta dúvida? Quer saber, por que você não dá pra ele e descobre? Não é mais fácil assim?

Vai baixar o nível outra vez! Eu só quero ir embora, o que que custa você me deixar sair! O que que custa, hein? Que inferno! Será que eu preciso te matar pra sair? Vai começar tudo outra vez? Pára de drama, você não vai fazer isso.

Olha só. É simples. Você me deixa sair e amanhã a gente conversa, tá bem? Eu prometo. Sem faltar detalhes. Pára. Pára, eu quero ir embora. Pára.


terça-feira, 2 de março de 2010

para a mulher-destino

Acordei, depois de um sonho-cor-catavento cheio de nostalgias. Na verdade, cheios de falsas imagens, cheias de um vapor de amor.

Um vapor maior que o vapor comum, como quem é levado pelo sono às tortuosas curvas do passado que não aconteceu. Hoje, o passado, em pesados cabelos escuros e em sorrisos maiores que a eternidade, perfumaram-me com a voz e o gosto nítido do beijo, que tantas vezes em sono é de difícil distinção.

Carregado dessa nostalgia, desses olhos castanhos e cabelos pesados, pareci uma criança em manhã de festa. Mas no meio da madrugada, aos delírios, saí do catavento colorido-cor para abraçar na noite o corpo de vapor do meu baile de máscaras. O sempre estranho retorno do vapor na ante-sala madrugada.

Rimos muito, emparelhados pelas colunas do labirinto, e a alegria, cheia do cheiro do sol, carregava líquida a luz da alvorada que saía daquele imenso sorriso, cheio de abraços e de olhos apertados, que minha memória, a que sempre surge depois do instante, faz prolongar jogando com força a verdade crua na ausência.

Como carne que reclama a perna abandonada, o pedaço de mim amarrado em estreitos nós neste sonho reclamou minha atenção e me trouxe o velho sabor do vinho, da cor-roxa que esquenta a alma.