terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Da linguagem

Disse Duda Machado a nós, alunos da graduação, no fim de uma aula: "o verdadeiro aluno é aquele que permanece na aula mesmo depois que ela termina".

É claro que, dada à juventude, à pouco leitura, ao contexto, entendi pouco da frase, que reverberou. Não entendia que Duda ampliava de forma extraordinária o sentido de continuidade e do exercício da aula, do que é "estar em aula", muito maior do que a contagem do tempo humano da sala e da atividade burocrática que acostumamos a chamar de estudo.

A então aula de Teoria da Literatura II terminava, mas continuei nela, preso na memória - este passado recheado de agoras de que diz Walter Benjamin - por todo o tempo que se seguiu, na grande aula que é o constante aprendizado. O sentido de aula, na frase poderosa de Duda, era o de estar em contato, em busca constante pelo saber. Não pelo saber específico que a tecnocracia ironicamente nos diz dar ao nos conferir um papel, como um diploma de graduação, de técnico em informática, em culinária. Mas a aula como a experiência: a busca pela experiência presente no tempo e só possível de, nele, chegar próximo de um vislumbre do saber.

Isso transforma a aula num continuum: sempre em contato com a experiência que vislumbra o saber maior que só o tempo no traz, a aula nunca termina e o aluno - o que está aquém da luz - pode sempre aprender continuamente.

De todas as lições, as reais lições da graduação, esta é uma das mais fortes porque efetivamente ensina, transmite a experiência profunda de que fala Benjamin: o mais velho e viajado narrador dá aos mais novos em uma narração potente um saber que ele buscará compreender por toda a vida, reverberando e suspendendo o tempo daquele momento de fala, efetivando a grande aula.

Só hoje vislumbro esse conceito ampliado de aula que nos deu Duda e só hoje posso aplicá-lo a outra aula da qual nunca saí.

Um dia, numa tarde nas Intocáveis, encontrei as meninas empolgadas numa calorosa discussão que já havia tomado um dia - o anterior à minha chegada - e que me atropelou antes do tradicional café que sempre bebia lá, como faço em casa de amigos. Bia, com olhos brilhantes, disse que a discussão que a envolvera, assim como à Vanessa e à Carla, era se havia linguagem em um quadro, em uma escultura, como há em um texto poético. Claro que a pergunta não era da definição meramente linguística da linguagem. A pergunta jogava a discussão para o profundo terreno da filosofia, pois indagava, de modo fundamental - como diz Heidegger - principiando o verdadeiro pensar interessado, que sempre retorna.

Tomei a pergunta a sério e discuti calorosamente o restante daquela tarde, pensei na frase pela semana, ainda discutindo com Bia pelos dias que passaram, até pedirmos a ajuda de nosso professor de História da arte, José Arnaldo, que trocou o foco da discussão impondo-nos outra pergunta: a da existência de um discurso, mais palatável ali aos estudantes de graduação de letras e história tão distantes que estavam dos pensamentos da filosofia e da teoria da linguagem.

Imputávamos, naquela querela, a grande aula de que disse Duda. Eu não sabia que a discussão da tarde entraria em mim na mesma suspensão que a da aula de Teoria II, e de que a outra pergunta de Zé, que desviava ilusoriamente o foco, não seria o bastante para a resposta.

Não sei quem iniciou a discussão nas Intocáveis, mas, de fato, a pergunta era valiosíssima e acredito hoje ter chegado perto de uma resposta. Como pergunta valiosa, como as grandes perguntas das grandes aulas que fazem com que os alunos permaneçam nela mesmo depois que elas terminem, acredito nunca podê-la responder sem criar com ela outra profunda questão filosofando ao gosto heideggeriano em sua Introdução à filosofia.

Em bravata, empolgada com a questão imensa que ali, em explosão na mão dos jovens estudantes causava o despertar saboroso do contato livre com o saber, Bia defendia: sim! Há linguagem em tudo. E há. A linguagem nos envolve, sem fora, fundadora, nas palavras de Heidegger.

Era a linguagem que nos provocava, independente de onde tenha partido a pergunta. Assim como a aula de Duda: no planisfério da linguagem que nos domina, iludido é, como diz Leibniz aquele que acha que domina a linguagem, que nos usa sempre e a todo instante e que usou a nós naquela tarde.

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