quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Começar: de novo e de novo e de novo...

Pula, vai, tá um calor danado e a água tá boa.

Era uma terça-feira, feriado. Pula! Quatro latas de cerveja, um churrasco na casa de colegas, uma piscina com um metro e meio de profundidade. Pula! Os meninos pularam, parecia funda, ali, do lugar em que estava observando.

Pulei. Uma forte dor nos ombros e na cabeça depois de batê-la no fundo da piscina. O putaquepariu tomou a garganta, depois que ergui o corpo ainda na água. Com essa você poderia ter quebrado o pescoço, disse um dos colegas.

Em casa, depois de um dia sentindo a dor de cabeça aumentar. O ombro doía ainda e meu irmão empurrou o pescoço: é uma luxação, amanhã passa. Uma noite de sono. Na manhã seguinte, a dor na coluna, a corrida de hospital em hospital, a chegada ao João XXIII, o encaminhamento: mergulho em águas rasas. A emergência foi ontem, senhora, para a minha mãe, ali, comigo.

A sala de raio-x: o último segundo antes da notícia, deitado na maca para fazer uma radiografia do crânio: Não se mexe mais, meu filho, falou a enfermeira, ao pé do ouvido, saindo para dar a notícia a minha mãe.

Fratura do corpo da quinta vértebra do pescoço em quatro partes, trincas na quarta, na terceira e na sexta. Um milímetro: o que separava o corpo fraturado da medula. A imensa distância que me separou naquele dia da morte, da cadeira de rodas e que me faz, hoje, escrever este blog.

A fratura como um divisor de águas. Para o menino que, ainda no berço, quase morreu com uma parada cardíaca e uma respiratória, aos três meses: pneumonia, coqueluche, e tudo o que prejudicou pulmões por uma vida. Para o jovem que, depois da fratura, foi espancado na segunda de carnaval ao voltar da casa da então namorada, um ano depois do pulo na piscina; que dois anos depois de ser espancado, cortou a mão e a faca quase atingiu a artéria; que três anos depois disso foi atropelado; que três anos depois do atropelamento, teve o apartamento em chamas.

Seria uma bonita e trágica ficção e se contada em um livro venderia milhares de exemplares para um público ávido por tragédias. Mas, aqui, 12 anos depois do pulo na piscina, completos ontem, é uma lembrança amena de uma vida como as outras.

Brinco com amigas que as quero de branco em meu velório. Talvez porque a morte seja minha companheira de vida, em tantos momentos soprando o hálito doce em meu nariz que quase não sente cheiros. Dá-me a mão sempre, a morte, mostrando que viver é frágil como o sono que tenho nas noites: sem ar por segundos que atormentam os que me vêem dormir, a intermitência pulmonar constante.

Estar vivo hoje, desde aquele 8 de dezembro de 98, às 14h. O pulo como a fecundação. Naquele momento, ainda no ar, nunca poderia imaginar que a distância que promove a vida, a contínua vida que sempre reaparece diante de mim, é imensa como um milímetro. Imensa como o centímetro que separou a lâmina da artéria, como o minuto em que o coração parou junto com os pulmões, no corredor do hospital, no frágil corpo de três meses de vida.

A distância constante entre a vida e a morte é frágil como tantas vezes constatei. Deitado no asfalto, enquanto apanhava de muitas pessoas, pensava nos chutes que acertariam a coluna. Com a cabeça em frangalhos, arrebentada em todos os lados, nenhum chute no pescoço. Instantes que separam os chutes do portão que se abriu, salvando-me de um linchamento sem fim em época que pessoas morriam espancadas no bairro. Os mesmos centímetros que separaram as chamas no apartamento da botija de gás debaixo do fogo, na área de serviço. Pequenos instantes no imenso tabuleiro, em que a morte dá um xeque, sem mate.

É nas pequenas distâncias, nos pequenos e insignificantes momentos que a luta feroz entre morte e vida se dá: um lance no tabuleiro. Errada a jogada, a morte ganha. Até agora, ela tem dado apenas bons apertos. Faz parte da minha trajetória, do meu cotidiano. Durante o jogo, a distância, a mínima distância prova constantemente que a vida é sempre mais forte, mesmo nesses bons apertos.

8 comentários:

  1. Minha Fênix, a sua alegria é o reflexo constante de seu inquebrantável amor à vida.

    OBS: Eu poderia usar um pretinho básico, o branco me engorda?

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  2. "Viver é muito perigoso", meu amigo de sempre!
    E nascer, renascer e outras idas e vindas faz parte dessa nossa caminhada!
    Saudade grande de você.

    Me passa seu cel, que vou te ligar, proposta para o carnivale!
    Todo abraço,
    eu uso branco na sua morte, mas só se for escrito na camisa "Descobrir o quê?"rsrsrsrsrs

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  3. OLha, é bem provável que eu passe primeiro pro lado de lá. Então não vou precisar de branco. Mas em todo caso, quero que vc toque "Mulambo" pra mim. Vou batucar lá de cima, ou lá de baixo não sei. Ergamos um brinde a essas duas mulheres gostosas, a "vida" e a "morte". Sistemáticas!!! rsrs

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  4. cê faz muito mais sentido agora, darling.

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  5. Fico feliz que tudo isso que aconteceu tenha sido uma experiência e um recomeço, e não um fim, pois dessa forma pude conhecer-te meu grande amigo!!!

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  6. "Abrindo um antigo caderno foi que eu descobri: Antigamente eu era eterno." Paulo Leminski

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. As parcas ainda não terminaram de tecer esse maravilhoso tapete que é a sua história, um fio de ouro que perspassa e entrelaça com tantas outras tantas vidas, e por isso mesmo já não são mais as mesmas!
    um bjo no coração amore!

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