sábado, 6 de novembro de 2010

O paquiderme

O que me sobrou foi a ponte. Não a de pedras, sobre a rua do Catete; não a com os arcos de Santa Tereza, sobre os trilhos do trem; não o pontilhão de ferro sobre o Piranga; não a Ponte dos Suspiros, sobre o Carmo. Sobrou a imensa ponte sobre o mar.

Sem os arcos, sem as pedras das primeiras pontes de Minas, sem o ferro dos pontilhões, sem o charme de uma ponte que hoje nem mais é ponte, sobrou a ponte gigante de concreto armado, açoitada pelo vento do Atlântico: a ponte dos suicidas.

Nela, não se pode ficar parado ao acaso e olhar o mar. Nela, não se pode demorar, não se pode jogar pedras, não se pode fazer poemas como o de Apollinaire na ponte Mirabeau. Não se vê garimpeiros como na ponte sobre o Carmo, nem carros, como sobre o Catete, nem trilhos.

A ponte de concreto armado é das máquinas. Não se pode estar na ponte sobre o mar. Pode-se passar, porque é isso que fazem as máquinas. A ponte deixa de ser o lugar suspenso sobre: é movimento sobre. Como não pode parar, o movimento sobre a ponte nos dá o que sobrou da vista sobre o mar: o instante da janela, na manhã, com o sol que nasce majestoso e quente. Além, nas montanhas que terminam a baía, sob a cor rosa-laranja entre o Penedo e a água. Tudo visto em movimento.

A ponte dos suicidas, dos saltos dos desiludidos que não figuram nos jornais; a ponte das máquinas que nos transmitem o movimento e que amamos como a seres humanos dotados de vida; a ponte que não nos permite o açoite demorado do vento que vem do mar, que sopra por quilômetros por sobre o Atlântico. A ponte: um grande paquiderme.

Com os pés na água, o paquiderme é visto de longe, com o rabo descido sobre a ilha. Passeamos em seu dorso e ele, manso, nos parece amigável. Quase nos faz um favor, se não nos engolisse.

O grande pescoço entra no continente entre as serras. Comeu a terra que unia o Moreno e a Penha. Come a avenida e desenrola sua língua dentro do valão, reverberante, na cidade.

A ponte continua no fluxo inverso do resto de nós, que ruma ao mar da baía, imersos na fluida língua do paquiderme que nos engole lentamente. A língua é um rizoma e toma a Vila toda, como a caridade dos homens. Lambe bairros longínquos e traz as viscosidades de nós, misturando pobres e ricos na mesma cor cinza-opaca com cheiro de esgoto, com o nosso cheiro. Nós cheiramos no valão e o paquiderme nos traz a todos lento, misturando. Todos somos, na língua do paquiderme, cinza. Os seres que o paquiderme come têm o mesmo cheiro de esgoto, o mesmo formato fluido e diário. Nós, lentamente engolidos, olhamos para os outros lados: não somos nós no valão. Na língua do paquiderme, todos vêem um outro: um outro que não é nenhum ser humano, nenhum de nós. A verdade cinza de nossa matéria é trazida constantemente pela fome voraz do paquiderme que serve às máquinas que amamos como a seres humanos. E as máquinas querem que o paquiderme avance. Será dada mais comida, mais de nós, cinza, rumo a grande garganta que concentrará, jogando-nos irremediavelmente no azul do mar.

O que há de humano no mundo é jogado sem trato no mar. Diferente do que o que o mar nos traz e nos dá. Toneladas de homens da mesma cor e do mesmo cheiro, vindos por debaixo das pontes do Brasil, para desaguarem no Atlântico, trazidos pela língua voraz do paquiderme das máquinas.

O paquiderme avançará mais sua cabeça, e cresce a cada dia. Sua língua fluida, cinza e mal-cheirosa lamberá a todos - porque estamos todos misturados nesta língua - , no sentido oposto ao da cabeça do monstro, trazendo-nos para sua grande traquéia, para o estômago azul do mar, para que todos nós, cinza, possamos nos irmanar com a humanidade: o esgoto cinza do planeta que entra a todo segundo no azul.

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