sábado, 27 de novembro de 2010

A matula

para Edmar Ávila

Quando sair de casa, meu filho, leva um tanto de dinheiro mas faz a matula de comida. Pega um queijo do serro e um canastra. Leva uma garrafa da branca e da dourada, uma moringa d'água, um tanto de polvilho e uma pedra do rio das mortes. Leva na matula também uma caixa de goiabada e um pedaço dessa broa enrolada num pano, que a fome aperta na viagem. Não esquece a paçoca de carne e carne de lata, caso no além-Gerais, não tenha comida boa, que deixa o rosto corado. Leva um punhado de café que foi torrado hoje cedo, e tenta voltar pra semana santa: tem leite pra dar pros outros como manda a tradição.

Come aí antes de ir. Tem articum e o coco de polpa amarelo que pega no dente. Leva fubá, um guarda-chuva, um casaco, um santo antônio, uma imaculada conceição, um são jorge. Leva uma carranca e faz o nome do pai no rio. Não olha pra trás da árvore, não come fruta dada, passa fumo na picada do marimbondo preto, na da cabeça-de-nego, na da lava-pé. Não mata besouro verde porque fede muito e não bebe na ave-maria. Leva essa faca cega, na cinta, o canivete e a palha no bolso.

Lugar de cama de pé alto é rato na certa. Não amarra cachorro com linguiça, não fala muito e tenta que os outros não te notem. Fica quieto no pé da mesa e não responde os mais velhos, nem não olha nos olhos dos padres. Pra espantar, dipindura no cordão da medalhina de nossa senhora do pilar essa figa que o preto velho te deu, que pai joaquim benzeu e dona maria rezou em cima. Leva um ramo de arruda e põe na orelha na hora de cozinhar os quitutes ou quando gente estranha não arredar da frente quando cê pedir pra passar.

No dia de nossinhora, cê não trabalha não, tá? Não vai desrespeitar a santa. E pede a bênça a seu pai antes de ir que ele tá lá no fundo olhando um trem procê levar que cê pode esquecer alguma coisa. A ferradura ele já botô na mala e é procê dipindurar atrás da porta quando puser a santa no altar do quarto e o terço na cabeceira. Bagagem nunca é demais, mas não atrase na saída.

Se apressa que o sol e-vem aí. Procura ouvir se a rolinha tá cantando. Se cantar, é morte na certa. Se sonhar com dente, reze, que é mau agouro.

Vai logo, meu filho, vai logo!

Num atrasa não e que Deusteguardecomnossinhoraeosanjoseasalmas pelos caminho tudo aí afora amém.

Não esquece a matula que pode ser que cê tenha fome, e lá pra onde cê vai a gente não sabe como é o queijo, se o povo oferece café, se cê pode comer e apiar bem em casa que esbarrar. Vai saber, né! Não confia em ninguém e não deixe que desconfiem docê.

Agora, vai, vai logo que o sol e-vem e o trem parte cedo.

4 comentários:

  1. Sensacional...um mergulho "nus trem de minas"

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  2. Obrigado, meu irmão. Não mereço uma sequer dessas tão bem traçadas linhas. O coração do mano velho bate nessas terras de cá. Abraço, até breve (erguendo o chapéu de palha).

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  3. Ai meus jagunços preferidos... Aqui nas Geraes o tronco tá ficando seco de saudades de vcs... De vêizinquandu u'a lagriminha causada pela emoção de palavras tão bem escrivinhadas molha o pé da árvore.

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