quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Das outras cozinhas

Na mesa da cozinha, o resto de pão e o café que cheira longe. Nos restos de nós, o que sobrou depois de tudo, da festa vermelha, da noite de sono.

Depois de tudo, do começo confuso e das partidas, das idas para além-além sem mais dispersos, os farelos de pão e o sal. O gosto das cores das palavras que se espalham na saliva, no grito, na vontade. Não fica o gosto amargo de ontem, da boca seca e da ressaca.

O amanhã é amarelo pela janela sobre a cômoda. Na cozinha sobreposta por outra, sem mesa e sem pães, o mel cristalizado, as vasilhas que se empilham sobre as vasilhas. Há a sujeira imposta, intermitente, como o tempo.

De sujeiras de tempo, meus azulejos, a tinta velha na parede que descasca, o que é perene é sujo. Sujo os olhos do cão, sujo o farelo amarelo-pão sobre a mesa na cozinha sobreposta. Sujo o corpo humano, o cansado corpo que gira sem mais tarde, sem mais fibra, sem mais a vontade.

Esquecido no não ser sem vontade, no nosso não ser sem moral, nas falências humanas sem café e sem pão, espalhadas nas sujeiras do mundo que se suja com a poeira que invade sob a porta, sob a colcha, impregnando o branco-encardido dos lençóis já gastos, descobre-se que a casa é também sobreposta, o tempo é sobreposto, não-linear como até então se pensava.

Agora, diante dos olhos, o tempo sobreposto e sujo que experimentamos, fraternos, na nossa fadiga. Não sobrou a casa, a cozinha, as cores do farelo com sal. Sobrou a sobreposta lição do mar: no leito abissal do mar, longe do sol, além das maiores cordilheiras da terra, sob a pressão profunda das águas do mundo sob os corpos, a vida cria outro lago.

Mais salgado, mais denso, o lago sob as águas é margeado de vida que não vê o sol. Estranhamente vermelha, a vida desconhecida com seus animais confusos, não sabem dos homens e de suas vontades, dos problemas humanos da secretária, do padeiro, da mendiga. A grande lição do mar: sobreposto, o sal é sempre sal, indispensavelmente sujo como um feto, como éter, como penicilina.
O sal nos dá outra lição: o mundo está além do humano, além-além numa planície desconhecida que acreditamos domar. Tudo sobreposto, tudo insolitamente líquido e sobreposto numa realidade que a água, como o ar, é impossível de dinstinção aos olhos.

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