segunda-feira, 15 de novembro de 2010

... chuva, pode cair à vontade...

Tão atarefado com leituras e escritas, em pensar lentamente coisas que me gritam urgências, em viver os prazos que me comem pelos calcanhares, em ficar horas com livros abertos pelos cômodos, com grifos e quilômetros de anotações que não se encaixam, em viver com conceitos descendo lentos pela goela, com poemas retumbando como hinos, entoados nos sonhos, acordando-me de madrugada e buscando se escrever sobre, em sonhar com toda a trama de elementos bem alinhavada, clara feito água na minha cabeça, capaz de sair por horas para pessoas de vária ordem; depois de dias trancado em casa pensando e escrevendo desconexos papéis e análises que não se completam e não se concluem, pedi a pausa para a noite.

Mergulhar todas as informações na noite. Os amigos, cansados de outras batalhas, prontos para mergulharem outras histórias em seus litros de conversa, de risada, de chuva. Surge um violão para o qual não tenho dedos, não tenho músicas, refugiadas, dando espaço para as anotações que se buscam e se atropelam. Surge um livro de músicas. O livro com o qual se deve lembrar músicas. Como um baú de retratos, na mesa, o livro se abre e canto, com uma amiga, as músicas de meu passado, de minha infância. As velhas músicas ouvidas na sala da casa de meus pais, enquanto meu pai ainda me ensinava a dançar. As melodias que primeiro toquei no violão, os sambas que cantei no chuveiro, na minha casa, nas ruas pela madrugada quando voltava bêbado para casa ou quando fazia serenata pulando janelas de quartos de meninas. Músicas que ouvi pelas estradas de Minas, no rádio de pilha que minha avó mantinha ligado no basculante da cozinha, enquanto cozinhava o nosso almoço de domingo. As músicas do rádio velho de minha avó - um velho rádio que meu avô adaptou, pôs antena de radiola velha e que hoje fica mudo dentro do meu armário - trouxeram o gosto de suas comidas, de seus doces, do pano no cabelo enquanto cozinhava.

Tudo enquanto eu cantava as músicas inteiras, ou pelas metades, ou por partes, ou só as introduções, e tanto eu quanto minha amiga lembrávamos, cada qual, parte de nossas histórias, mergulhadas naquelas letras, naquele baú ali aberto diante de nós. Era como se dois álbuns de fotos, cada qual de um passado, estivessem ali, abertos, e que pudéssemos vislumbrar em ambos as histórias compartilhadas, as harmonias e vibratos que nos permeavam a alma.

Por um instante, todos os poemas na minha cabeça, os conceitos, as teorias e as brigas com os prazos, os dias trancado em casa, tudo cedeu lugar às músicas. Com elas, regressaram a trajetória de mim pelos caminhos, as decisões, o que deixei para trás. Lidas, as músicas traziam os muitos ônibus por muitos caminhos, as despedidas, os até-breves que ficaram no adeus perpétuo, as lágrimas que não vi os outros derramarem, o tempo repisado.

Mas naquela mesa, na noite, com aquele livro, estive novamente entre essas cores, numa época em que a leveza me permitia ver nas cores só cores, nos tacos da sala o universo particular que suas linhas me criavam, além de só tacos na sala. De ver nos olhos de todos o que não vejo mais.

A sensação que me trouxeram as músicas: fechar os olhos e ver a luz do sol de domingo esquentando o chão, o barulho das panelas enquanto minha mãe cozinhava conversando com meu pai, a voz de mãos irmãos no quarto, aos gritos. Todo o grito do mundo e a música, tocada - não sei se da tv ou se do rádio - enchendo os traços dos tacos da sala.

3 comentários:

  1. Danilo, sensacional! Infelizmente tem sido assim pra muita gente, mas ainda dá tempo de reverter essa correria toda e aproveitar mais as coisas simples da vida, né?
    E como é bom ler o que vc escreve...
    Beijos, beijos e beijos!!!

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  2. "Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra."

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