terça-feira, 19 de outubro de 2010

De novo no vermelho

Do olho do furacão, no meio da multidão, pula uma velha foto, outra música, um copo d'água. É hora de lembrar que somos, sobretudo. Somos, na soma de seres que nos dizemos ser a todo momento, em suas multiplicidades. Somos o conjunto do que fomos e a força constante impelindo ao movimento, como as coisas do mundo.

Na multidão, surgem outros olhos, esquecidos olhos que já se pensavam impossíveis, carregados de vontades, de vozes na chuva. Viver é também estar na chuva, com vozes, em canto. Viver é estar em canto também, nos quartos, nas ruas varridas, na madrugada.

Do resto que fomos, somados como pedaços de coisas, nossos guardados, nesta vontade constante de gritar. Há muito não se via, há muito se tinha esquecido e agora, na grande luta contra tantos outros inimigos com ternos tão iguais aos de antes, é preciso lembrar de nós mesmos, do que somos, nestes seres incontáveis.

Lembrar para não deixarmos que vençam as velhas práticas, os velhos medos. Lembrar porque é disso que vive a matéria-homem: de passado lembrado para que no futuro nunca o passado se repise igual. Sem passado, nem os mortos estão seguros.

Recortados das fotos de jornais, nossos olhos na multidão. Outra vez na multidão! Outra vez a multidão vermelha a pedir, constante, o que sempre pediu. Não a paz aniquiladora das verdades prontas, mas a cor vermelho-voz do que nos faz humanos: o direito inconstante de falar.

Tornemo-nos, pois, falantes, é hora! De novo nas ruas, de novo no vermelho que tanto quiseram calar.

2 comentários:

  1. É isso aí, mano! Vermelho denovo. Essa cor que tanto temem os subordinados ao azul e amarelo.

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