domingo, 3 de outubro de 2010

A cor da voz de Marina


Em alguns momentos de minha vida, meu coração leviano se deixa levar por vozes femininas. Vozes que são tocáveis, de mulheres que me chegam só pelos ouvidos, mulheres que carregam na cor vermelho-carne das veias azuis dos pescoços o grosso caldo da vontade que me causa a vontade de mais, de crer na possibilidade das coisas.

Aconteceu pela primeira vez com Marisa Monte, de noites dos meus 16 anos, noites inteiras em que o samba de Paulinho da Viola chegava a proporções absurdas, densas, como um beijo. Pensei ser da idade, escondi-me dela enchendo o ouvido de outras músicas, dos choros de Paulo Moura em Os oito batutas. Passou, quase como uma forte pneumonia, deixando sequelas no meu ar.

Depois, outra voz de mulher me carregou, traindo a Marisa que a custo eu apaguei. Gal era a tuberculose incurável neste quase adulto cheio de responsabilidades. Chegou, trouxe pela mão de novo a velha amante, seus cachos-pesados-diminutos, em que eu misturei tantos amores. Há pouco, no desconexo tempo, Gal cantou para mim numa manhã uma música mais forte, com Mamãe não chore, do Tropicália, quase como se eu dissesse da independência composta de não-tem-mais-fins.

Quando Gal chegou, deixei de lado a fuga. Quis a montanha russa que ela provocava e mergulhei por inteiro em dias pesados de Maria Bethânia, ouvi desesperado Elis, Ella, Joss Stone, Billie Holiday, Tracy Chapman, Diana Krall, Nora Jones, Maísa, Dolores, Roberta Sá, Vanessa da Mata, Mercedes Sosa... Mulheres apresentadas por amigos, por mulheres reais, sem tanta voz. Tantas vozes femininas que é difícil colocar aqui tantos nomes.

Mas, de todas, sempre Marisa e Gal, como mulheres mais principais, mulheres com mais que vozes. Nelas, as cantoras carregam uma personalidade capaz de transmutar a vida, de nos carregar para os sem-fim lugares dos desejos.

Como um adolescente, como aquele adolescente de 16 anos que viu a foto da capa do Mais e quis daquela mulher mais do que a imagem, mais que a foto, quis a voz, os passos, as noites, essa semana me perdi de novo, num retorno, em outra voz brasileira, outra voz que traz uma carga pesada da vontade impactante como também fizeram as cores Marisa e Gal.

Quase Marisa, quase Maria da Glória Gal Costa, surge outro nome, mais que a foto. No rodapé da página última, nos rostos que a Carta Capital nos apresenta em branco e preto, Marina de La Riva, tão cubana, tão brasileira, tão latina, trouxe a cor que eu busco nas vozes femininas. Um peso maior que os beijos, que os corpos. Marina trouxe de volta o amor inocente por uma voz que inundou e inundará constantemente a cor-aurora.

Com um respeito incomum à música latina, tão difícil de entrar hoje no cotidiano dos ouvidos eletrônicos, Marina recupera os pianos e os metais de Havana com a limpidez das vozes das cantoras dos antigos saloons cubanos, com neblina-cinza dos Cohiba. Isso, sem abandonar o batido brasileiro, a faceirice de quem canta com olhos fechados, quase como se amasse, num misto de gozo e clareza que faz surgir dentro do compasso o sorriso branco, leve, limpo.

O disco dispensa apresentações. Todo ele é um elogio a las calles, a los amores. Um soco. O disco de Marina pede o ruído dos LPs e o sol de sábado quando em casa eu ouvia, com meu pai, tantas músicas latinas. Até Chico Buarque fica como um coadjuvante. Se não estivesse lá, não faria falta. Aliás, Chico deveria compor uma música para Marina. Aliás, João Gilberto, Caetano, Gil, Paulinho, todos deveriam compor músicas para ela, músicas cubanas, músicas latinas que fazem com que nós nos reconheçamos num pan-americanismo, cheio de palmas, trompetes e falta de ar, suor e poeira levantada. Marina é mais forte que a tuberculose, mais forte que a pneumonia. Marina de La Riva é a minha maior falta de ar.

4 comentários:

  1. Mano, valeu pela indicação! Uma nova candidata a nora da minha mãe haha. E, como meu espírito Charlie Brown tá em alta, ela entra nesse meu mundo do ideal de sempre. Eita lelê.

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  2. Só faltou o Welber soltar o tradicional: "gatchuinha"... uhauhauhauhauha!!!

    Quando vi o título da postagem no Facebook achei até que o Danilo tinha surfado na onda verde (ou verde-canabis, só pra imitá-lo no estilo, uhauhuahuah).

    Mas fiquei tranquilo quando vi que se tratava somente das reminiscências juvenis trazidas à tona pela voluptuosidade sonora da muchacha carioca. Danilo, danilo! Vai ficar com a mão peluda! Uhauhauhauh!!!

    Esse é o problema da mesclagem sensorial que o Danilo impõe às coisas. Ele acaba tendo esses orgasmos involuntários quando sente cheiro de esfirra de carne, quando vê a cor do sachê de catchup, quando lambe sorvete de framboesa com calda de maracujá e quando percebe um requebrado de ondas saracoteando no ar.

    Mas o importante é que eu fiquei tranquilo. O texto não era sobre a onda-verde da Marina Silva. Era sobre as ondas-sonoras-morenas-cheirosas-saborosas da Marina de La Riva...

    (Cara, um dia eu serei poeteiro igual a você!) Uhauhuahu!...

    Bom, chega de zueira!

    Belo texto, mano! Tudo a ver com o seu blog. Continua divulgando as postagens lá no Facebook. Abraços!

    (Observação: o Welber gravou o disco dela no pendrive pra ouvir no banheiro).

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  3. Danilo, Marina de la Riva me soa tão bem como AQUELE cd do Flavio Henrique e Marina Machado. Há momentos para escutá-los.
    Boa pedida, boa escrita, como sempre!

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  4. Só hoje vi as calúnias pabloriosas. O Pablito é um safado, mentiroso, mistificador!

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