sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sal fino

Mais uma noite a menos. Tudo é a agonia ruim, amarga, incômoda. O dia amarelo-ovo-cozido nasceu, molhando de amarelo tudo como gema mole. Esse tom de laranja que no fundo também cheira a óleo, a ovo, a sal.

Vem do mar o sal e o sol. Uma vez na praia, sentado na areia, seria possível olhar a amarelidão complacência do mar tomando a rua e fazendo o mundo voltar a funcionar, os ratos e seus boeiros para amanhã, fechando as portas, o cigarro e o gosto velho de cerveja quente.

Mas aqui, nesse lugar sem lugares, espaço difuso-meu, um labirinto, a manhã traz a agonia do não concluído.

Lá fora, o sol banha as banhas dos políticos em letras e números que não dissolvem. Uma pasta rançosa como queijo velho faz lembrar as narinas, nessa política que se divide como um bolo para as cadeiras do senado.

Um vento de mar, que a lua ainda no céu guarda, será a lembrança da noite não acabada. Um dia que não acontece, na contagem regressiva do que espera além, como um trem de ferro.

Falta sal para as palavras.

2 comentários:

  1. Fino trato. Cara, mandei imprimir o Quarto Desamparo. Vou encadernar e começar a leitura em breve.

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  2. Que massa, Costilla! Espero que goste!

    Começo a olhar os trâmites da versão impressa agora, por esses dias! Assim que acertar, te aviso!

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