quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Caixa de guardados

As coisas do costume, os papéis, os cacos de uma xícara na gaveta, as fotos que desbotam. Velhos relógios, fotos digitais, máquinas esquecidas e quinquilharias, fios de telefone, parafusos. Radiografias da coluna, dos pulmões, da cabeça, das costelas.

Todas essas coisas - fragmentos no tempo de um resíduo - são parte estranho de meu corpo. A caixa de guardados, na sala entre tantas outras caixas de guardados.

Em todas as coisas - o marca-páginas anotado no verso com letra de mulher, a bola-de-gude, o retrato 3 x 4 datado, a carteirinha de papel da biblioteca, os anéis que deixei de usar - todas essas coisas, minhas velhas coisas, envelhecem, em silêncio, entre livros, notas fiscais, recibos de aluguel. Guardei todas essas coisas - como todos guardam coisas - para que elas, agora que já não são mais coisas, fossem uma marca, uma luz que não me deixasse esquecer.

O problema é que eu esqueci o que não podia esquecer e que agora os fragmentos meus da caixa de guardados me fazem lembrar que esqueci. Atônito, diante desses restos de mim, com cheiro de poeira e de vidros vazios de perfume, vidros de relógios, o esquecimento do que não podia me esquecer me induziu à viagem, ao retorno que me faria encontrar, assustado, com o que esqueci, como um grito por detrás da escada.

Lembrei da frase de Monte Cristo, no alto da cela "Não me deixe esquecer", da Casa Balzac de Carlos Eduardo, em Coimbra, da morte de Pedro da Maia, com um tiro. Da infância na Itália facista e das memórias que sobraram ao bibliófilo, do não analisa não. Lembrei do Matraga, aos murros no chão, de Rioblado retumbando o sertão, o que não sei, do batistério aberto com o nome de Maria Deodorina. Da armadura desfeita de Rimbaldo, paladino de Carlos Magno, do visconde esquerdo brigando com o direito, ambos pelas metades. Da pele, única bandeira digna de drapejar ao vento.

Lembrei da insônia de Beatriz, sentada no sofá do quarto do fundo do quintal, do Jovem Promissor correndo no escuro pelo parque municipal atrás de Vedetinha, da Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora. Da fonte que troca a cor das pessoas, surgida no meio da viagem, da carne da perna da Caipora na barriga respondendo. Da âncora na página que não mais poderia ser vista novamente, do homem que lê um romance diante de uma janela, do parafuso que seria a paz. De louco gritando pelas ruas de Paris Eu quero a Farfallo e da manifestação pela cidade das camélias, na Rua da Bahia. Da menina de vermelho, no parque, seduzindo o homem, do cavalo morrendo de exaustão depois de descer a serra a galope, da palmeira boiando na enchente, da sacola de ovos com o visco amarelo no bonde, do tiro errado de Turíbio Todo, dela vindo com o estandarte, de vestido, no carnaval, de estar deitado numa pequena canoa no rio, descendo, de em Copagabana encontrar um homem que me perguntaria: Você é Eduardo Marciano, não é?

Lembrei outros, outros cacos de coisa. Lembrei do pé da múmia, do retrato oval, da mancha do gato depois do incêndio. Até dos moinhos, da destruição da biblioteca, do pergaminho a ser traduzido, do doce dado à Ana Karenina, do homem se escondendo dos guardas debaixo das saias da mulher com quem teria um filho e que escreveria a história dentro de um manicômio. Do piado da coruja na noite, nos três tons de castanho dos cabelos de Maria Eduarda, do cheiro de ranço ao som da Rádio Relógio pingando as horas. Das ruas de Praga cheia de tanques, do sul da Inglaterra, na fazenda, da locomotiva Elizabeth e de Quinipeg, do homem na estação, outro andando pela multidão, do adultério visto pela janela do palácio. Do mar, de Ismael ao mar.

Todas as lembranças dos sabores do vinho, dos cognacs, dos charutos, das iguarias de Simbá, de Abade Busoni e dos títulos da casa Morrel e filhos. Todas, menos o que havia esquecido.

Cansado do recriado e da necessidade de lembrar, larguei a rotina azul-cinzenta da cidade em troca do mar. E se eu fizesse uma canoa? Uma canoa pequena que só coubesse a mim e me lançasse ao mar? Chegaria à outra margem, a terceira? Será que é na terceira margem que mora o que eu esqueci?

3 comentários:

  1. O que esqueceu está em qualquer margem, da primeira a todas.

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  2. Sabe meu irmão, seu texto é um café da manhã farto, na verdade, serve também como uma ementa de Introdução aos Estudos Literários I. E mais, fiquei imaginando o que diria o Duda, o grande Duda Machado: "Esquecer é tão ou mais importante do que lembrar, não é?" rsrs. Sigamos esquecendo, se não, como vamos nos lembrar? Abraço

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  3. Esquecimento, detalhes e objetos: qual é a parte que te cabe nestes guardados?
    Abração do Burgão!

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