quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Amizade de cozinha

Nascer em Minas é saber que as amizades mais íntimas são à cozinha da sua casa.

Ninguém é tão seu amigo se não for "da cozinha da casa da sua mãe", "da cozinha lá de casa". O lugar, então, é mais que o lugar da fome e das panelas. É onde o mineiro passa seu maior tempo. Nas cozinhas de Minas se discute política, economia, futebol, religião. Foi de uma cozinha nas vertentes que a Inconfidência saiu.

Mais que um cômodo, as cozinhas de Minas guardam as histórias de gerações, guardam a fome do período do ouro, os adultérios, os divórcios. As cozinhas - além de seus sabores, seu alho, suas folhas de loiro no feijão, suas linguiças a defumar sobre um fogão à lenha - são o lugar maior das amizades e das confidências.

Sair de uma cozinha mineira é uma batalha. Uma vez à mesa do café da manhã, num sábado, as refeições se trocam entre um e outro café, e as pessoas comem a farta culinária, o quitute, o doce de leite com queijo fresco, o pão-de-queijo feito com queijo do Serro. Bebem-se as cachaças das vertentes, do sul, da Campanha, de Ouro Preto, do Triângulo, de Sete Lagoas. Todos os países que coexistem dentro de Minas expõem-se à mesa, nos sabores que atravessaram o sertão, as serras, as minas nos lombos de seus muitos tropeiros por séculos de sua história.

Estive na última semana com amigos da cozinha da minha casa. E todos nós, amigos das cozinhas uns dos outros, passamos os dias na cozinha da casa do Costilla, confabulando, falando do governo, criticando frankfurthianamente a sociedade lucianohuckyzada que cheira a lavanda, as mulheres de plástico. Rimos, bebemos, tomamos cafés e mais cafés entre as farras gratuitas que só os amigos das cozinhas compartilham, dividem, compreendem.

Amigos de cozinhas, viajamos para ver as cozinhas que faltavam ser conhecidas. Em Rio Casca, mais cozinhas, mais histórias, mais confabulações. Falta a grande cozinha de São João do Rio das Mortes, viagem que sempre adiamos mas que cumpriremos em breve. E a de Timóteo, quando se tornar realidade, para mostrar aos cariocas que a cozinha, para nós, é a consubstanciação máxima daquilo que entendemos por amizade.

Amigos da cozinha da minha casa, eu das cozinhas das casas deles. Todos nós, numa imensa cozinha: a nossa identidade compactada.

12 comentários:

  1. Querido Danilo,
    é a primeira vez que visito o seu blog, entretanto não poderia haver melhor ocasião... Virei fã! Fiquei sinceramente tocada por sua escrita e, especialmente, emocionada com esse texto. Faz tão pouco tempo que nos encontramos, mas já estou com saudades das nossas conversas à beira do fogão. Espero, em breve, sua visita na minha cozinha em Timóteo e prometo fazer os pães de frigideira com sabor de infância. E nessa ocasião, provarei de uma vez por todas que a hospitalidade mineira é uma questão de espírito e não de geografia. Um grande beijo dessa carioca a moda mineira, Isis.

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  3. Aliás, mês que vem, invadiremos a cozinha da casa do Truão! Eita lelê

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  4. O melhor de tudo é ver que aos poucos, nossa nação lémfrankfurtiana, da conjuração contra o mundo pasteurizado, cimenta a tendência à concretização de nossa grande família. Que venham à cozinha!
    A Isis foi abduzida por Minas, ou melhor, a magnetita do solo a trouxe para o "entre nós", esse abraço de muitos braços. Descobriu que no provincianismo mineiro, o próprio provincianismo é pseudo, aqui cabe o universo.

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  5. Mais do que o cômodo e os encontros e as conversas neste ambiente, vale a amizade que construimos e respeitamos por estes caminhos.
    Um abração do Burgão!

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  6. Eu e a Kelly estamos aqui concordando plenamente com você, "voltar a MG é voltar pra cozinha", com certeza.

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  7. Eu jurava que tinha postado um comentário!!!

    Saudades Cândido!!!

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  8. Da casa inteira que construímos, e ainda estamos construindo, só fiz uma exigência: Uma cozinha enorme, para poder receber minhas visitas! Ter enfim uma mesa que não se deixa vazia de quitandas, pães e amigos. Por enquanto dividi minha cozinha e parte dela é meu quarto, mas a metade já operante espera ansiosa por meus amigos!

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  10. Achei legal isso de que em Minas as amizades mais íntimas são à cozinha de casa.Daí fiquei pensando se eu nascesse em Minas.Seria diferente é claro...quer dizer acho...ou depende a que eu me refiro...ou não depende?...Sei lá.
    Aluna do Edmar(professor de literatura)

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  11. Ah... as cozinhas... um cômodo que pra mim quando criança era o maior da casa da minha avó paterna e não duvido que realmente fosse. Lembro do cheiro da lenha queimando no fogão, do barulhinho que fazia, do cheiro da lingüiça defumada pelo calor e fumaça do fogão à lenha, dos meus 10 tios e suas respectivas, tagarelando e fofocando, da minha madrinha implicando meu primo, do meu vô com seu chapéu já velho mas indispensável e da minha ajuda arapalhada para enrolar o fumo do cigarro de palha dele. Quantas lembranças com esse texto, dos meus 8 anos que não voltam mais e dos meus quase 3 anos e meio de ufop com conversas ao redor do fogão. Não tenho sonho de casas luxuosas, mas sonho com uma cozinha bem grande...

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