quinta-feira, 23 de setembro de 2010

amar em potência

Descobri esses dias a leveza que existe na potência de amar. Percebo que há, em mim, a potência de amar como só a madureza permite notar, arrumando o espaço das coisas.

Na potência de amar, o dizer – esse mero dizer habitual – perde totalmente o sentido que possa haver na vida das pessoas. Mais que comunicar, o dizer passa a ser a troca, a silenciosa troca que existe até no não-dizer. Nos olhos, nas mãos, no abraço. A fala sobra, meio perdida, sem lugar no grande lugar que o dizer ocupa.

Na potência, o dizer é além-palavra, além-verbo. Na pele, na gota de bile, na indiferença, no costumeiro ato do café a dois, na tarde de maio, na janela sobre a cômoda. Em todas essas novas coisas, outros dizeres em outros lugares, diferentes das falas comuns de todos, de todo-dia.

Perguntado um dia se amava, neguei veementemente. Não amo, disse taciturno. E reafirmo: não amo. Não o amor vazio da fala. Em mim, amor-substantivo, sujeito-paciente e febril, morre de espera. Existe em mim o amar, potente. Voltado para o olhar nas plantas, nas cores do mar. O amar do bom-dia que se dá aos seres humanos nos seus dias. Na conversa reconfortante com velhos e novos amigos. O amar que observa a jovem que veste um vestido que não será nunca mais usado de outro jeito que naquela tarde, beira-mar, em que ela é a potência reproduzida do amar em seus espelhos.

Isso não me torna um ser mais duro que os demais, desprovido da leveza e da intensidade sem pressa que existe na potência de amar.

Quando se está de posse desta consciência, a de que não mais se espera amor em qualquer lado das faces humanas, mas sim oferta-se a potência de amar, no cotidiano constante dos segundos, um mar de complicações se desfaz.

Nada mais cabe no hábito e tudo, em tudo, ganha o tempo natural que os seres tentam, em vão, abandonar. Para tudo na existência é preciso um tempo certo: o tempo para a madureza. Estarmos maduros para, como um delicioso e suculento fruto, ofertarmos os sabores que nos habitam, inesgotáveis e impossíveis, que línguas e Línguas tentam, em vão, interpretar.

Aí, no tempo de madureza, tempo-sem-pressa, sabe-se que é preciso a perda: no olhar, nos gestos, no toque e no contra-toque. A perda que nos dá a intensidade.

Tudo pode o amar, sem pressa, potente. Interessar-se, demorar-se, perder-se por longos minutos no silêncio mútuo, ofertado como é também o copo d’água, o ouvido, o olvido, o falar nas noites quentes. Passar a serem mútuos os cabelos e os olhos, o tato e a linguagem. Um ser envolto a tal ponto em outro ser que, no detalhe, se mostra assim, difuso. O amar traz a inconstância de se ser constante na possibilidade infinita de sempre se ter mais.

Por isso tenho a potência de amar. Não carrego mais a obrigatoriedade do protocolo comum a que nos obrigam os gestos e condutas do cotidiano e vazio amor da fala.

Um comentário:

  1. "amor começa tarde" Drummond
    Somos só essa potência, meu amigo.
    Lindo demais, viu? Catártico.

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