segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Nau cabralina

As coisas andam meio loucas e paradas, como uma grande calmaria que carrega um dos navios da esquadra cabralina para o desconhecido.

Como eu ainda, à deriva, não sei aonde baterá a nave - se num cais, se na ilhas das sereias, se no abismo do mundo que acaba, ainda não redondo - vou fazendo minhas preces marítimas, como um português aventuroso e ladrão, doente e magro deitado no convés.

Faz sol, sem vento, e a correnteza lenta me leva para um conjunto de páginas que brotam, soltas, de dentro da água. Maiores que as nuvens, sem provocar o vento, as páginas que brotam de dentro do mar têm mãos que as seguram, mãos rotas de pessoas de um tempo futuro, divinas e compactas.

Nessa miragem no deserto azul de sal e calor, percebo entre o branco que separa as letras desenhos que desconheço, imerso que estou, marinheiro, nesta personagem viajante, nesse homem-mar.

De um estalo, o homem-mar que sou dá lugar a Ismael, a Jonas, ao Capitão Nemo, a Colombo, a Oribela, a Fernão de Magalhães, a tantos outros seres do mar - fictícios - que povoam a memória coletiva, a memória humana ibérica e ancestral de que meu povo é eternamente cansado e escravo.

No ocidente, nas américas, no Brasil, todos somos do mar, homens do mar à deriva como os tripulantes da coroa que sumiram, como os canibais da Nau Catarineta, como os loucos da Nau dos desgraçados. Eternamente nômades, saudosos, fadistas, somos o povo que se fez ao mar, dentro dos livros.

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