sábado, 28 de agosto de 2010

em memória de mim

Sem atropelos, sem destroços.

A verdade comungada como um pão de sal, como a sardinha na mesa dos pescadores, a cor-pão-guardada no armário estudantil, o macarrão das noites, a comida pronta, a mesa do almoço da família de amigos, a fruta roubada de uma árvore pública por mendigos, por meninos de rua, conhecidos e desconhecidos dos restaurantes públicos, em todos os lugares onde pobres e ricos comungam uma verdade.

Os lugares das verdades nos dentes das pessoas do mundo, das cidades do mundo, dos lugares imprecisos do mundo. Como se todos os seres pudessem, no comungar a verdade, saber algo que mora nas peles das civilizações, no pão etrusco, na tâmara dos beduínos, na carne salgada dos homens dos pampas.

Comer, como uma dádiva: na língua, as civilizações se alimentam dos saberes ancestrais, dos milênios em que as cozinhas dos povos adaptaram-se à única e real rotina dos seres: vencer, a contragosto e sobretudo, o hostil mundo que nos recebe todas as manhãs como um corpo humano recebe um vírus.

A verdade digerida, no estômago humano, gigante e gordo estômago humano, menos nobre que os estômagos das vacas.

Um comentário:

  1. Que me recorda a lucidez e a nobreza da busca pelo entorpecimento da alma. Me empreta uma verdade aí!

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