quinta-feira, 1 de julho de 2010

(mais um, do livro)

Como tudo muda o tempo todo, o meu livro mudou de nome. Agora, em processo de registro, manterei o título em segredo, até seu provável lançamento. O conteúdo mudou um pouco, e o antigo conto que abria o livro - postado aqui há alguns meses - sai de cena. Aquele conto agora fica como parte do blog.

Ao invés de postar o conto que substitui o primeiro no novo livro - no antigo "Fome" - aqui está o último (que gosto mais).

Espero que gostem também.


***

Ela sentia falta do sol. Não desse sol praiano que nasce majestoso e soberano, mostrando ao mundo que ele é a vida em profusão, mas do sol pálido, aquele que aparece no alto da montanha numa manhã, entre, sobre, que está nas coisas. Falta daquela suavidade, como criança.

Ele sentia falta do frio. Aquele frio úmido, que dói os nós dos dedos, que nos faz esfregar as mãos uma na outra, ou aquecê-las na xícara de café. Só nessas épocas entendia o porquê de café quente pela manhã. O frio fazendo doer o nariz. O dia nascendo esquentando o resto de nuvem, evaporando o orvalho e dando ao ar um cheiro-manhã, antes do sol aparecer sem força, acordando o azul-céu do edredom.

Mas ela sentia mais falta do vento. Sentir o vento. Sensação de liberdade, os cabelos para trás, o corpo solto. As roupas coladas à pele e as lágrimas brotando açoitadas pela força, sem direito a durarem no rosto. Um vento cortante em que abriria seus braços, querendo tocar os pólos e o sabor da saliva quente dentro da boca, cortada de frio, que sangra ao menor sorriso.

Ele acha que o vento tira do chão, que dificulta o passo. Uiva na esquina da rua, sofre, corre de agonia, foge. O vento como um bandido que joga atrás de si os objetos que encontra dificultando a perseguição, de braços abertos e aos saltos.

Ela sentia falta do vento cuidando, dificultando-a, ciumento, impedindo-a de acabar de ler a página, despenteando-a como se sentisse saudades, tirando sua roupa, com sede de tocar a pele e feri-la com seu sopro louco mais delirante.

Para ele, o vento não precisa existir. O vento é dono de si e pode causar, derrubar o mundo ou levar a vida, esconder a voz e deixar atrás de si uma tempestade sem fim, com mortos. O vento cega. Não tem pátria, não tem.

Às vezes, ela sentia falta de estar ao vento. Solta, deixando nele o seu passado, deixando-se ser carregada, sem memória, sem pátria, para o lugar mais longínquo e que não mais a perturbe. Ser-do-vento. Tentar controlá-lo com as mãos, tentar ter com ele rédeas curtas e vê-lo se agitar como um cavalo louco e indomável. Soltar-se nele por inteira e ser como ele, livre, sem lei, sem regras, sem forma definida, sem boa educação e bom humor fingido. Ser parte do vento, como era um pouco parte de todas as coisas.

É das coisas do mundo que ele mais sentia falta. Nada lá fora dependeria do seu bom comportamento. Nada no mundo pararia pelo seu mal.

Mas o homem, para ela, era insignificante na sua existência de erros, precisava do vento. Precisava se castigar porque era frágil demais diante do vento. Precisa de família porque era frágil demais. Precisava de leis, porque era fraco. O homem, para ela, tem medo de si mesmo.

O que mais a incomoda é que esses muros não deixam o vento entrar. Tanto abrigo, tanto esconder! Às vezes, se sentia a poeira. Escondida ali, não incomoda.

Queriam muito ser menos que isso. Ser-mais-forte. Saberem a hora de morrer.

Pensavam sempre que lei era algo em que se acredita. Se não acreditar, ela não existia. Se ela não existia, ela não os punia. Podiam se punir assim, por fora, sem as leis. A maior lei eram eles mesmos. Se eles não se puniam por dentro, não erravam, e mesmo que o mundo os punisse, apontando-lhes os dedos, eles eram livres e controversos, sem punição.

Queriam, cada qual, estar ao vento. Para ser exato, queriam estar no vento agora para que o dia em que morrerem se tornarem parte do vento também. Ser-do-vento, Ser-mais-forte, sem medos.

2 comentários:

  1. Lindo texto. Uma onda de sensações muito conhecidas me veio enquanto eu lia. Mas eu acho que é pra isso que serve a palavra, não é?

    Parabéns, Danilo!

    Fui seu aluno por dois períodos na UFES, tbm to com um blog, as vezes arrisco uma poesia, hehe. Mas meu 'problema' é que não foco em nada, a arte me engolfou.

    www.gianlefou.blogspot.com

    Abração!

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  2. Lindo texto, Danilo.
    Deixa um gostinho de quero mais, de ler todo o livro, e acho que não deixa de ser sua intensão ao postar parte dele.

    Palavras bem postas, e interessante como permaneci no exercício de me identificar com "ele" ou "ela", mas no fim percebi que não importava de qual gostava mais, sou uma terceira que tenta unir os opostos... loucura de ser humano.

    Beijão!

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