terça-feira, 1 de junho de 2010

Inter-dita

Uma ânsia irresoluta em um presente nunca vivido. Interdita, a possibilidade de mais é sempre uma ausência. Sem o estar em mim, mas a ausência como a gula.

Sentir o estado incomum de tudo que faz falta, como a boca entreaberta na noite ou mesmo o caos que me consome as vistas. Em tudo, cores e destroços. Em tudo é ânsia.

Soubesse o presente de tudo, o meu presente em tudo, o sorriso brotaria da noite, grande, incalculável e insustentável de tamanha fluidez. E dele, alvo em pétalas, sairia a imagem, a sem-contorno imagem que criei no ar, em arabesco.

Não mais, em nada. E se nada fosse, pleno seria. Ficou a ânsia na boca não tocada, na noite não vivida, na memória distante e empoeirada como um cais. Sem as partidas, tudo é destroço inalcançável, distante das mãos e dos olhos, como se no túnel se desfizesse em mil partículas e as partículas em mais mil pedaços de poeira e delas em átomos, e nem isso, perdurasse apenas o movimento, ou o rastro dele no vazio.

A gula. A maior das sebes. Sem fronteiras, numa imensidão que se propaga e que, a cada dia, me distancia mais e mais daquela imagem, da forte imagem que sobrou de tudo no redemoinho. Distorcida, diferente, distante, ela agora tem outro peso, outra medida, outra textura, e não sei se é feita de densa cor, como outrora. É feita de miragem, uma miragem cinza-ocre, como uma foto em decomposição, em que os rostos vão se tornando sombra de suas próprias formas.

Nesta distância toda, nem mesmo o som roça o caos. Afinal, o som é conseqüência de tudo. Sobra a gula que a boca pede e que a memória já não traz, de turva-sintonia. Não sobra, na ausência, a branca-fome. Sobra, desesperada, a não-vontade que me poda a potência. Sem potência, tudo se perde e o que me vem de longe, na memória, é um vulto estranho, um insosso sorriso que um dia pensei ser paz.

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