terça-feira, 1 de junho de 2010

casas, livros, rachaduras

Passei parte da noite fazendo um exercício que há muito não fazia. Arrumei mais ou menos as coisas da casa e sentei-me para olhar as lombadas de meus livros. Um café quente. O momento era de fechamento de coisas, de trocas. Tudo o que traz de novo as muitas histórias dos meus livros, histórias sobre histórias, o que abre milhares de labirintos.

Um deles me remete à sensação de sentar para olhar os livros. Em Ópera dos mortos, Autran Dourado fala de um filho que quer, na casa que herda do pai, um pouco de si e um pouco do pai, de forma que vista de longe a casa seja uniforme, mas que se olhada com detalhe, se perceba o filho sobre o pai, no segundo andar um pouco diferente do primeiro, como uma continuação ao mesmo tempo parecida mas particular. A casa como ícone da individualidade que não nega a tradição. É claro que Autran Dourado não falava de casas.

E casa me remete a uma frase de um amigo, bêbado, num bar em Mariana: "toda casa muito bonita, se olhada muito de perto, apresenta rachadura". É claro que o amigo não dizia de casas, e sim de mulheres, de uma em específico.

A mulher em específico, minha amiga, há alguns dias, me disse que procurava casas que fossem outras vertentes. É claro que minha amiga não falava de casas e sim de destinos, dela mesma, de ligações, retornos e partidas.

Eu, numa aula, usando a frase acima, a do amigo, disse que a palavra casa era exemplo de pluralidade de significações. É claro que eu não falava de casas. Mas o que importa mesmo é que a casa, a primeira, é anterior em qualquer sentido, anterior até a que hoje estive a observar as lombadas e as histórias dos livros.

Nas longas e frias madrugadas de Mariana, em que ficava férias sozinho, fazia isso: sentado, bebia café e olhava os livros.

Ler mesmo os lia depois, mas ali, imóveis nas estantes, era como se observasse a terra inteira sem a mão de alguém que se aventure por tal ou qual caminho. Distante, como um observador mudo, me vi sempre mais distante das coisas todas, dos livros, da própria casa. Pensava mais detido nas histórias que os livros teriam vivenciado até aquele momento, ali, na estante, e as histórias que terão para além daquelas estantes, quando serão de tantos outros, em um destino ignorado, separados e vendidos em bancas, estocados em alguma biblioteca, herdados por amigos que também ignoram os destinos de seus livros depois que passarem por eles. E das casas que tiveram: as casas por que passaram até aquela, e as que passaram além daquela até esta. As que ainda passarão de aqui para adiante. Dos meses que muitos passaram em outras casas, outras mãos. Da minha ignorância sobre todos eles e suas histórias e meus afetos a eles como coisas além das que ficam nas estantes, do que carrego deles. Cada um, como uma casa.

Essa semana outro livro voltou da rua, para casa, depois de seis meses. Mas antes de chegar, outro partiu para breve estada fora. Um outro chegou depois de anos, de ameaças de destruição, de esquecimento em outras casas, cheio de outros cheiros, como mulher que se deitou com outro. E tantos outros, em mais ou menos tempo, tiveram destinos variados por cidades que eu desconheço, mesmo depois de chegarem aqui. E sabe-se lá o que causaram, se amor ou ódio, sono ou desespero. Marcados de dedos, curvos de outras estantes, muitos de meus livros rodam por aí meses sem mim. E não me contam o que viram do mundo, além do que lhes vêm impresso, como digitais. Além do que carregam, como aquilo possível de se perceber, não menos intrigante e complexo do que o que se pode tocar nos seres. Como casas, que recebem tantos em tantas épocas.

Não sei eu o que minha casa recebeu até mim, e não saberei o que receberá depois. Como não sabia nas outras casas que morei e muito provável não saberei das casas que virão. E de destino ignorado, como o dos livros, que só guardarão as digitais por baixo das tintas. E nas digitais outras histórias que as paredes não me contam e que nunca tiveram testemunha e se perderam, como muitos dos que passaram por meus livros.

Casas como livros, como rachaduras. Imperfeitos todos, cheios de marcas, particulares e indistintos. Mas é claro, não falo de livros, nem de casas, nem de rachaduras.

3 comentários:

  1. licença, mas este cara foi meu melhor professor de literatura, e o que eu posso fazer agora é ficar num estado nostalgico.

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  2. Como presenciei estes atos e subjetividades nas noites frias de Mariana. Geralmente eu chegava bêbado e falava muitas besteiras; ou eram conteúdos literários?

    Por aqui eu vou tentando digerir outros livros.
    Abração do Burgão

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  3. e continuaremos interligados, rachados, exaustos e sedentos por perambulação: porque a vida é esse samba doido.

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