quinta-feira, 24 de junho de 2010

Cais

Enfim, deixar para trás, como cortar os pulsos. Sem o melodrama, é um banho de sangue e de água do mar, lavando a alma em três matérias.

Olhar a diante sem a preocupação da dor torcido-opaca do pescoço, esperando, no canto do olho, o brilho que nos faça voltar. Não há mais. O lugar, em mim, tem mais peso que o lugar real. E nele, onde habito, faço meu sudário.

Deixar para trás as noites frias e secas, as mãos no escuro, as lágrimas, a ante-sala madrugada em que o destino me pregou um grande susto. Deixei para trás, sepultando longe o que restou da camisa colorida que cobria, como no samba.

No limite, de onde tudo parte, esse princípio, vislumbro outras paragens com outros sabores e sais. Do cais, o barco partiu, enfim, desligado do para trás, e não sobra de tudo mais que uma marca, uma cicatriz no braço, pequena para o que se pensou ser imensa chaga. Como as cicatrizes que ficaram depois dos parafusos. Sem atenção, quem perceberia?

Agora ao cais! Depressa, pois é preciso embarcar.

3 comentários:

  1. Além de ser um grande professor, um querido amigo, e por muitas vezes um tremendo estraga prazer, é também um ótimo escritor.

    Quanto talento, hein!

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  2. O cais é, sem dúvida alguma, um lugar que marca idas e vindas, mudanças importantes em todas as vidas... É um lugar de partidas para novas oportunidades, um lugar onde podemos vislumbrar um horizonte infinito, de possibilidades imensas!

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  3. "Para quem quer se soltar, invento o cais..."
    Saudade grande,amigo!

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