domingo, 30 de maio de 2010

O novo

Tenho sapatos com os bicos abertos e muitos mortos que carrego nos ombros. Observo todos, com a cabeça mal disposta, e noto que quase todos são eu mesmo em meus muitos outros momentos: meus mortos-de-mim.

Colocados como fotografias ladeadas, é estranho observar no tempo o quanto morri em muitas faces nas quais não me reconheço mais e que não consigo efetivamente tocar. Um mosaico estranho, em uma pouca cor, mas que me apresentam em multi-facetadas outras formas que abandonei, que me abandonaram, mas que são, em pedaços de mim, um outro eu.

No caleidoscópio de rostos, percebo outros, outros rostos que não são meus. Desmontados, são a soma de todos os rostos que me atropelaram vida à fora - porque todo contato com o outro é um atropelo.

Violentos, os outros rostos precisam ser escamados, um a um, para que eu possa notar a marca que deixaram no pós-atropelo. Sob a marca de um, outro rosto diferente, de data não sequencial. No fim, sobra um conjunto disforme que também não é meu rosto, ou qualquer outro rosto meu abandonado, morto; mas o de todos os que me antecederam em eras mais imprecisas. Parentes que eu não reconheço no traço do nariz, mas que enviaram dos confins do passado as tremuras das mãos, os cacoetes de ajeitar os óculos, as doenças, o arqueado dos ombros.

Depois de tantos outros, meus joelhos reclamam o peso de todos sobre mim. Lembro-me que é hora de cometer outra morte e, como se desencarnasse, recordo-me das outras vezes em que antes de morrer notei os mortos. Sairá outro rosto de tudo, mais leve, que não notará seus muitos mortos e eu terei, dali em diante, a sensação de que re-nascer é tornar-se novamente virgem de todo e qualquer contato. Se é sempre virgem para o novo, mesmo sendo o novo o repetido exercício do presente.

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