segunda-feira, 15 de março de 2010

Conto que espera publicação

Fechando a última onda do Desde que o samba é samba, que de uns tempos para cá tem na bagagem algumas poesias (poesias que vieram depois de longo tempo sem novidades, mas carregado de re-leituras de meus textos) resolvi postar um conto que abre meu próximo livro - FOME- que começa sua jornada por editoras. Sem títulos, os contos descompassados remetem sempre a mesma temática: as muitas fomes dos homens.

Publiquei alguns textos em outros blogs que fiz e que receberam críticas das mais variadas e das mais interessantes, que não vem ao caso enumerar, mas que me contentaram por mostrar que o blog foi lido, de alguma forma.

Vai então, o texto que abre as muitas fomes de FOME, em breve, impresso, com capa e tudo que tem direito. Espero que gostem.


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Pára. Não me interrompe de novo. É sempre você me interrompendo sempre que começo a falar. Chega, já não agüento mais. Não agüento. Quero sair também. Sai da frente. Anda, sai da frente que eu quero sair. Se você não deixar eu pulo da janela. Pulo. Você duvida? Você sempre duvida de mim, das coisas malucas que eu falo. Não é nada disso que você está pensando. Já disse, pára e sai da minha frente que eu quero sair. Quero sair agora, entende? Quero sair já. Não vou ficar aqui mais nem um minuto olhando para sua cara. Não começa outra vez. Não tem nada a ver com isso. É passado, já te disse mil vezes. Ai, quando isso vai terminar, não agüento mais. É muita pressão, não agüento mais. Por que você faz isso comigo, hein? Você gosta de me fazer sofrer? Por que você não sai por aí e pega uma meia dúzia de mulheres! Sai, me deixa logo! Eu quero ficar sozinha, ou aqui ou em outro lugar. Sai da minha frente, já disse. Você tá me machucando, pára. Sai da minha frente logo antes que eu comece a gritar. Você duvida? Você acha que eu não sou capaz de fazer um escândalo? Sai da frente, você está me machucando, larga o meu braço, pára!

Já não agüento mais, sabia? Tá bom, eu fico mais calma, mas solta o meu braço. Ficou roxo tá vendo? Estúpido. Imbecil. Vai baixar o nível? Me dá um minuto, porra, eu preciso respirar, já que você não me deixa falar.

Saí com ele sim, e daí? Saí sexta passada. A gente se conheceu num bar. Ele me pagou uma cerveja, você não quis sair comigo aquela noite, não ia ficar em casa. Depois que ele me pagou a cerveja, ou antes, tinha notado que ele tinha nos olhos um quê diferente do que você tem. Agora vai dar escândalo? Não foi você quem quis saber? Vê se não me interrompe mais se não você não vai entender nada.

O nome dele não interessa, tá bom! O que vale saber é que a gente saiu sim, na sexta. Ele me pagou uma cerveja e falamos umas coisas inúteis. Fiquei olhando muito tempo pra boca dele e não prestei atenção em uma palavra do que ele disse. Era coisa pra eu rir e eu ri. Pensava em você e na raiva que você tinha me feito passar. Aí comecei a pensar que você estaria fudendo com outra, em plena sexta, e me queria em casa te esperando. Não disse que você estava fudendo com outra, disse que pensei isso. É tão difícil assim entender o que eu digo? Aí comecei a pensar na boca dele me chupando. Na verdade, pensei isso no primeiro momento que o vi, antes da cerveja. Não tenho mais certeza. Depois disso a gente começou a se beijar. Não interessa quem começou, a gente se beijou de qualquer forma. Não joga a culpa no cara, eu sei muito bem o que fiz e fiz porque quis, tá ok? Não encosta a mão em mim. A sua mãe também, seu filho da puta.

Quero ir embora. Não, não vou falar mais nada. Você pede pra eu te contar e depois me agride. Quer terminar comigo porque eu dei pra outro, termina. Agora, pára de dramalhão, porra. Sempre disse que eu não era só sua e a gente combinou que seria assim, sem regras. Se você estivesse fudendo com outra na sexta, que que eu poderia fazer, chorar? A gente combinou que eu não sentiria ciúmes. Eu falei isso? E se eu fiquei mesmo imaginando você com outra, qual o problema? A gente não controla essas coisas!

Não distorce o que eu falei. Falei que fiquei pensando nele me beijando. Você que entendeu errado, fica inventando coisa. Quer saber, vou embora, sai da minha frente. Você vai se acalmar? Se não for, não tem mais conversa. Foi assim que a gente combinou, certo? Sem fronteiras, sem regras.

Tava dando tudo certo até ontem. Que crise é essa agora? Não foi você quem falou que não consegue ser fiel à mulher nenhuma? Não foi você quem sempre quis algo que não te prendesse, sem amarras? Pois então? A única coisa que eu estou fazendo é te contar a verdade. Eu não minto pra você. Eu topei o trato. Não, eu não tenho ciúmes de você. Por que você está me perguntando isso, você está me escondendo alguma coisa? Ah, você saiu com ela? E por que só agora você me conta isso? O combinado não era você me contar quando acontecesse? Não mistura. Você disse que eu não precisava te contar tudo assim que se desse. Tinha te dito que eu ia demorar a me acostumar com isso. Eu tenho me esforçado, ninguém muda de hábitos assim, sem traumas.

Não vem com essa porque você disse que agüentava, que sempre tinha feito isso e que as mulheres com as quais você viveu é que não. Também, foda-se se você dormiu com ela. Tô pouco me fudendo pra isso.

Quer saber, isso não vai levar a gente a lugar nenhum. Me deixa sair. Não vou continuar coisa nenhuma hoje. Você está de cabeça quente e eu também. Não, já disse. Quer fazer o favor de sair da minha frente. Estou pedindo com a maior educação. Usa a cabeça, não vai adiantar te contar nada hoje. E no fundo, o que te interessa tanto em saber o que eu tive sexta passada? A gente trepou, não é o suficiente? Eu não tenho que te contar todos os detalhes da minha vida. Você não tem nada a ver com isso, o que eu fiz ou o que eu deixei de fazer é problema só meu.

Pára de drama. Você pode sair da minha frente porque eu quero ir embora e você não deixa. Sim, eu prometo te contar tudo amanhã, sem te esconder nada. Não, ele não era bom de cama, tá bom assim? E o que que tem isso a ver? Pra que tanta dúvida? Quer saber, por que você não dá pra ele e descobre? Não é mais fácil assim?

Vai baixar o nível outra vez! Eu só quero ir embora, o que que custa você me deixar sair! O que que custa, hein? Que inferno! Será que eu preciso te matar pra sair? Vai começar tudo outra vez? Pára de drama, você não vai fazer isso.

Olha só. É simples. Você me deixa sair e amanhã a gente conversa, tá bem? Eu prometo. Sem faltar detalhes. Pára. Pára, eu quero ir embora. Pára.


4 comentários:

  1. Muito bom, Dan! Parabéns. Espero que o livro saia logo. Vc nem falou que tinha outro blog heim, canalha!... Mas eu descobri. Uahahahaha!!!

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  2. Uai, pensei que tinha avisado! Mas q bom q c leu e gostou! O livro sairá! Esse ano, sem falta!

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  3. É, vc é um viadinho mesmo. Mas eu já adicionei essa bagaça ao blogroll do Pata do Guaxinim. Depois posto um texto divulgando o Desde que o Samba é Samba. Agora, esse conto-monólogo dá uma boa HQ heim? Uhuahuahuah!... Quem sabe depois que o livro for lançado a gente faz uma adaptação... Abraço.

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  4. hahahahah
    Vamos pensar na adaptação sim! ia ser massa!
    abração!

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