terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Saldo final


No período em que todos começam os seus votos de um ano melhor e olham as retrospectivas, mirando um ano que sempre que revisto aparece retorcido, 2010 se despede sem ter do que se vangloriar.

Fechamos a década com o ano em que a homofobia saiu do armário e deixou de se esconder na hipócrita face do brasileiro que se diz sem preconceitos. Pôs a discussão em pauta, alarmou a população e nos fez reviver um fantasma amargo da intolerância, do extremismo que tanto matou homossexuais, negros, judeus. Um fascismo silencioso que pairava entre todos e que ressurge pelas mãos de um jovem na Paulista. Uma violência gratuita que ainda espera justiça.

Foi o ano do preconceito: a vitória de uma mulher para a presidência pelo maior partido de esquerda do país trouxe mais uma vez o fascismo daqueles que se acham brasileiros puros. Um movimento sórdido que invadiu as redes sociais, a imprensa, os meios de comunicação, produzida pelos covardes sem cultura e sem memória, adensando o fantasma que o Brasil quis esconder.

As vítimas - nordestinos, negros, pobres, trabalhadores do país - foram inferiorizados pelos vencidos que se acham mais brasileiros que os demais, acreditando que suas contas bancárias fazem com que seus votos valham de forma proporcional às suas fortunas.

Foi também mais um ano da violência na tv. Uma guerra com milhares de civis feridos, numa ocupação que muitas vezes se confundiu com uma limpeza étnica. A imprensa apoiou desmedidamente uma polícia que não conseguiu, com todo o armamento pesado e com toda a estratégia de guerra, prender os verdadeiros chefes do crime organizado.

Também foi o ano da política mais sórdida na festa da democracia. Felizmente agora sabemos que no Brasil a maior parte da direita não significa oposição. Aqui, ser de direita é sempre intentar o golpe. Não há para ela uma estratégia político-democrática: há a vontade de recuperar o brinquedo de quinhentos anos à força, no grito, na baixeza e na vilania. Um ano de política para se lembrar, em que o golpe estava nos jornais, nos sites e na tv.

Os meios das famílias que dominam a imprensa nacional ressuscitaram fantasmas que acredito que não nos abandonarão pelos próximos anos. Caída a face do bom-mocismo, as organizações Globo, o grupo Folha, a editora Abril e os jornais Associados não mais podem disfarçar o quanto colaboraram para um golpe de uma elite que não sabe jogar no cenário democrático. Uma elite que nunca quis ser oposição e que só conhece o baixeza, o vilipêndio, o boato, enquanto promete na surdina vender mais uma estatal, mudar as leis para que as petrolíferas internacionais saíssem no lucro fácil.

Algumas batalhas internas se colocam no fim da primeira década do milênio. O brasileiro percebe a urgência que temos em sanar as injustiças históricas, étnicas, sexuais, de um povo com problemas e com desigualdades de vária ordem. Nunca foi tão urgente uma política em que as diferenças sejam respeitadas e não aniquiladas pelo discurso do" somos todos iguais", do "acima dos partidos". Só há democracia se o povo é sapiente de que a diferença é que compõe a nação. Um povo que entende a discussão como válida e que encara a manifestação pública pelos direitos, pela escolha, pela melhora, como importantes caminhos para eliminar os abismos do preconceito, do ódio, da violência fascista em ressurreição no Brasil.

Que na próxima década, o saldo final seja melhor. Que cenas como as que vimos de homofobia, violência e de falta de decoro sejam menos frequentes e que o país possa, enfim, consolidar o plano democrático que tenta ser efetivado desde 1989, respeitando as diferenças mas buscando uma política que seja efetivamente para todos os brasileiros.


domingo, 19 de dezembro de 2010

Canto branco

No quente abril de outrora, carregado, volta o nome dela, que dizia, no longe do tempo a alvorada que perdia em mim que dela desprendia.

Não sabia da perda processada, mas de mão recolhida me servia com vontades loucas repassadas nas palavras que sosobram na agonia.

O nome se faz carne de repente e mostra-me agora, rediviva, a força que tivera de perder-se no silêncio que antes me trazia.

Viveu em mim, tanto e potente, a carga do dizer que desfazia a velha lembrança embaraçada do sabor do amor intenso que irradia.

Sentados frente à frente na mansarda, de olhos pensos e nomes divididos. A Máquina do Mundo fez-se de repente e o mundo grande se mostrou possível.

Por ela aberta no momento da advinha, o nome da mulher que em mim vivia amou-me em intensa liberdade.

Mostrou o nome claro, de repente, aberto como gota de alegria e fez sair do tempo intermitente a graça que em mim já fez-se fria.

Ali, vi retorcido um outro rosto de alguém que nada respondia. Responde à imensidão da claridade o amor que tinha e que a custo silencia.

Inverso o lado do espelho a Terra toda, flutuando e se movendo, pequenina. Mostra no desvelo a quarta etapa do que nunca falou em qualquer língua.

O amor então presente aberto em mágoa pesa o nome à flor que o vertia. É sempre agora o silêncio desta raiva que o não-dito no tempo aparecia.

Ante à Máquina feroz que acelerava toda a pele e todo amor que outrora ouvira, fez-se a mulher do outrora regressada, presente no meu canto mais que viva.

É cor de força densa, contemplada, e chama-me ao nome deste dia. Refaz o abril inteiro de repente, que ao silêncio de nós dois correspodia.

Amor de verdadeiro e simplesmente que no tempo anterior a minha partida fez-se a abraços soltos na verdade a voz que em mim por tempos se estendia.

Sabia dele o nome e agora entrava no nome em que ela, hoje, densa, habita. É mais o agora intenso da palavra que nada processa em mim: potência fina.

É ela outra vez recolocada na ordem primeira do meu dia. Surge a outra Alice contemplada, densa de potência que tardia

à hora que o tempo então regressa, ao mim de mim que acaba neste prisma. O mundo que o nome convocava, do lado de lá do espelho, respondia. De mão extensa e voz apassentada,

rouca me dizia o que, um dia, o silêncio do abril despedaçara e que em mim reverberou no tom que via.

Não soube dizer nada, de repente, ao nome que formou a tal jornada. Sabia a clara voz que agora vinha, de vida ampla, inteira, carregada,

saltada da palavra que continha o nome que escrevia na alvorada. O amor refez meu tempo e, de repente, trouxe o silêncio que abraçara. Abracei com forte angústia a tal palavra

como o corpo abracei em outra vida. É ela, Alice, inteira, de repente, a recriar-se potente como nada. À enorme realidade que continha, mostra a face de si, plena, em som que espalha.

Perdido plenamente de meu tempo, o amor que em mim agora silencia comunica de forma mais potente o amor de outrora que em hora se perdia.

Refeita Alice toda, de repente, que a Máquina feroz me oferecia, soltei a larga lágrima que, amarga, urgente, reclamou o que a chuva tinha.

Desfez-se Alice em forma de presente, no nome que surgiu no outrora nada. Falou de meu amor, mais que a perfídia, perdendo em mim a ausência de rasgá-la

como carne de papel, som e moinho,
jogada ao vento completa e deformada.

Na Máquina do mundo vi lascívia e medo de seus berros desmontados. Sumiu-se Alice inteira entre as palavras do amor que então cantava na memória.

Não sabia que amores silenciam, de carne que se fazem simplesmente. Não sabia que perdia de repente, na tarde de abril que então, formosa,

a chuva me trouxeste, em outra vida, o abraço que dissolve a cor da hora.

E deu-me Alice o abril com seu presente: suspensa cor que agita o nome em frente. E o nome principia no vermelho com a mão aberta de cor indiferente.

Ali, de ante de mim, com ocaso brilho, que nunca vi em olhares contemplados. Na noite, a cor da aurora se formava e a Máquina do mundo recolhia

Alice que sumia toda e inteira, deixando o nome e o perfume na partida. Sumiu-se tudo de repente e está de volta o branco que em mim, completa cifra,

dá passo incerto no presente da amurada, sem a mão dela, sem seu som, sem seus delírios.

O amor me abraça inteiro de repente, e parto com o nome que esvazia, para caminho torto e diferente, sem mais abril, com a marca do presente.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Da linguagem

Disse Duda Machado a nós, alunos da graduação, no fim de uma aula: "o verdadeiro aluno é aquele que permanece na aula mesmo depois que ela termina".

É claro que, dada à juventude, à pouco leitura, ao contexto, entendi pouco da frase, que reverberou. Não entendia que Duda ampliava de forma extraordinária o sentido de continuidade e do exercício da aula, do que é "estar em aula", muito maior do que a contagem do tempo humano da sala e da atividade burocrática que acostumamos a chamar de estudo.

A então aula de Teoria da Literatura II terminava, mas continuei nela, preso na memória - este passado recheado de agoras de que diz Walter Benjamin - por todo o tempo que se seguiu, na grande aula que é o constante aprendizado. O sentido de aula, na frase poderosa de Duda, era o de estar em contato, em busca constante pelo saber. Não pelo saber específico que a tecnocracia ironicamente nos diz dar ao nos conferir um papel, como um diploma de graduação, de técnico em informática, em culinária. Mas a aula como a experiência: a busca pela experiência presente no tempo e só possível de, nele, chegar próximo de um vislumbre do saber.

Isso transforma a aula num continuum: sempre em contato com a experiência que vislumbra o saber maior que só o tempo no traz, a aula nunca termina e o aluno - o que está aquém da luz - pode sempre aprender continuamente.

De todas as lições, as reais lições da graduação, esta é uma das mais fortes porque efetivamente ensina, transmite a experiência profunda de que fala Benjamin: o mais velho e viajado narrador dá aos mais novos em uma narração potente um saber que ele buscará compreender por toda a vida, reverberando e suspendendo o tempo daquele momento de fala, efetivando a grande aula.

Só hoje vislumbro esse conceito ampliado de aula que nos deu Duda e só hoje posso aplicá-lo a outra aula da qual nunca saí.

Um dia, numa tarde nas Intocáveis, encontrei as meninas empolgadas numa calorosa discussão que já havia tomado um dia - o anterior à minha chegada - e que me atropelou antes do tradicional café que sempre bebia lá, como faço em casa de amigos. Bia, com olhos brilhantes, disse que a discussão que a envolvera, assim como à Vanessa e à Carla, era se havia linguagem em um quadro, em uma escultura, como há em um texto poético. Claro que a pergunta não era da definição meramente linguística da linguagem. A pergunta jogava a discussão para o profundo terreno da filosofia, pois indagava, de modo fundamental - como diz Heidegger - principiando o verdadeiro pensar interessado, que sempre retorna.

Tomei a pergunta a sério e discuti calorosamente o restante daquela tarde, pensei na frase pela semana, ainda discutindo com Bia pelos dias que passaram, até pedirmos a ajuda de nosso professor de História da arte, José Arnaldo, que trocou o foco da discussão impondo-nos outra pergunta: a da existência de um discurso, mais palatável ali aos estudantes de graduação de letras e história tão distantes que estavam dos pensamentos da filosofia e da teoria da linguagem.

Imputávamos, naquela querela, a grande aula de que disse Duda. Eu não sabia que a discussão da tarde entraria em mim na mesma suspensão que a da aula de Teoria II, e de que a outra pergunta de Zé, que desviava ilusoriamente o foco, não seria o bastante para a resposta.

Não sei quem iniciou a discussão nas Intocáveis, mas, de fato, a pergunta era valiosíssima e acredito hoje ter chegado perto de uma resposta. Como pergunta valiosa, como as grandes perguntas das grandes aulas que fazem com que os alunos permaneçam nela mesmo depois que elas terminem, acredito nunca podê-la responder sem criar com ela outra profunda questão filosofando ao gosto heideggeriano em sua Introdução à filosofia.

Em bravata, empolgada com a questão imensa que ali, em explosão na mão dos jovens estudantes causava o despertar saboroso do contato livre com o saber, Bia defendia: sim! Há linguagem em tudo. E há. A linguagem nos envolve, sem fora, fundadora, nas palavras de Heidegger.

Era a linguagem que nos provocava, independente de onde tenha partido a pergunta. Assim como a aula de Duda: no planisfério da linguagem que nos domina, iludido é, como diz Leibniz aquele que acha que domina a linguagem, que nos usa sempre e a todo instante e que usou a nós naquela tarde.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Começar: de novo e de novo e de novo...

Pula, vai, tá um calor danado e a água tá boa.

Era uma terça-feira, feriado. Pula! Quatro latas de cerveja, um churrasco na casa de colegas, uma piscina com um metro e meio de profundidade. Pula! Os meninos pularam, parecia funda, ali, do lugar em que estava observando.

Pulei. Uma forte dor nos ombros e na cabeça depois de batê-la no fundo da piscina. O putaquepariu tomou a garganta, depois que ergui o corpo ainda na água. Com essa você poderia ter quebrado o pescoço, disse um dos colegas.

Em casa, depois de um dia sentindo a dor de cabeça aumentar. O ombro doía ainda e meu irmão empurrou o pescoço: é uma luxação, amanhã passa. Uma noite de sono. Na manhã seguinte, a dor na coluna, a corrida de hospital em hospital, a chegada ao João XXIII, o encaminhamento: mergulho em águas rasas. A emergência foi ontem, senhora, para a minha mãe, ali, comigo.

A sala de raio-x: o último segundo antes da notícia, deitado na maca para fazer uma radiografia do crânio: Não se mexe mais, meu filho, falou a enfermeira, ao pé do ouvido, saindo para dar a notícia a minha mãe.

Fratura do corpo da quinta vértebra do pescoço em quatro partes, trincas na quarta, na terceira e na sexta. Um milímetro: o que separava o corpo fraturado da medula. A imensa distância que me separou naquele dia da morte, da cadeira de rodas e que me faz, hoje, escrever este blog.

A fratura como um divisor de águas. Para o menino que, ainda no berço, quase morreu com uma parada cardíaca e uma respiratória, aos três meses: pneumonia, coqueluche, e tudo o que prejudicou pulmões por uma vida. Para o jovem que, depois da fratura, foi espancado na segunda de carnaval ao voltar da casa da então namorada, um ano depois do pulo na piscina; que dois anos depois de ser espancado, cortou a mão e a faca quase atingiu a artéria; que três anos depois disso foi atropelado; que três anos depois do atropelamento, teve o apartamento em chamas.

Seria uma bonita e trágica ficção e se contada em um livro venderia milhares de exemplares para um público ávido por tragédias. Mas, aqui, 12 anos depois do pulo na piscina, completos ontem, é uma lembrança amena de uma vida como as outras.

Brinco com amigas que as quero de branco em meu velório. Talvez porque a morte seja minha companheira de vida, em tantos momentos soprando o hálito doce em meu nariz que quase não sente cheiros. Dá-me a mão sempre, a morte, mostrando que viver é frágil como o sono que tenho nas noites: sem ar por segundos que atormentam os que me vêem dormir, a intermitência pulmonar constante.

Estar vivo hoje, desde aquele 8 de dezembro de 98, às 14h. O pulo como a fecundação. Naquele momento, ainda no ar, nunca poderia imaginar que a distância que promove a vida, a contínua vida que sempre reaparece diante de mim, é imensa como um milímetro. Imensa como o centímetro que separou a lâmina da artéria, como o minuto em que o coração parou junto com os pulmões, no corredor do hospital, no frágil corpo de três meses de vida.

A distância constante entre a vida e a morte é frágil como tantas vezes constatei. Deitado no asfalto, enquanto apanhava de muitas pessoas, pensava nos chutes que acertariam a coluna. Com a cabeça em frangalhos, arrebentada em todos os lados, nenhum chute no pescoço. Instantes que separam os chutes do portão que se abriu, salvando-me de um linchamento sem fim em época que pessoas morriam espancadas no bairro. Os mesmos centímetros que separaram as chamas no apartamento da botija de gás debaixo do fogo, na área de serviço. Pequenos instantes no imenso tabuleiro, em que a morte dá um xeque, sem mate.

É nas pequenas distâncias, nos pequenos e insignificantes momentos que a luta feroz entre morte e vida se dá: um lance no tabuleiro. Errada a jogada, a morte ganha. Até agora, ela tem dado apenas bons apertos. Faz parte da minha trajetória, do meu cotidiano. Durante o jogo, a distância, a mínima distância prova constantemente que a vida é sempre mais forte, mesmo nesses bons apertos.

sábado, 27 de novembro de 2010

A matula

para Edmar Ávila

Quando sair de casa, meu filho, leva um tanto de dinheiro mas faz a matula de comida. Pega um queijo do serro e um canastra. Leva uma garrafa da branca e da dourada, uma moringa d'água, um tanto de polvilho e uma pedra do rio das mortes. Leva na matula também uma caixa de goiabada e um pedaço dessa broa enrolada num pano, que a fome aperta na viagem. Não esquece a paçoca de carne e carne de lata, caso no além-Gerais, não tenha comida boa, que deixa o rosto corado. Leva um punhado de café que foi torrado hoje cedo, e tenta voltar pra semana santa: tem leite pra dar pros outros como manda a tradição.

Come aí antes de ir. Tem articum e o coco de polpa amarelo que pega no dente. Leva fubá, um guarda-chuva, um casaco, um santo antônio, uma imaculada conceição, um são jorge. Leva uma carranca e faz o nome do pai no rio. Não olha pra trás da árvore, não come fruta dada, passa fumo na picada do marimbondo preto, na da cabeça-de-nego, na da lava-pé. Não mata besouro verde porque fede muito e não bebe na ave-maria. Leva essa faca cega, na cinta, o canivete e a palha no bolso.

Lugar de cama de pé alto é rato na certa. Não amarra cachorro com linguiça, não fala muito e tenta que os outros não te notem. Fica quieto no pé da mesa e não responde os mais velhos, nem não olha nos olhos dos padres. Pra espantar, dipindura no cordão da medalhina de nossa senhora do pilar essa figa que o preto velho te deu, que pai joaquim benzeu e dona maria rezou em cima. Leva um ramo de arruda e põe na orelha na hora de cozinhar os quitutes ou quando gente estranha não arredar da frente quando cê pedir pra passar.

No dia de nossinhora, cê não trabalha não, tá? Não vai desrespeitar a santa. E pede a bênça a seu pai antes de ir que ele tá lá no fundo olhando um trem procê levar que cê pode esquecer alguma coisa. A ferradura ele já botô na mala e é procê dipindurar atrás da porta quando puser a santa no altar do quarto e o terço na cabeceira. Bagagem nunca é demais, mas não atrase na saída.

Se apressa que o sol e-vem aí. Procura ouvir se a rolinha tá cantando. Se cantar, é morte na certa. Se sonhar com dente, reze, que é mau agouro.

Vai logo, meu filho, vai logo!

Num atrasa não e que Deusteguardecomnossinhoraeosanjoseasalmas pelos caminho tudo aí afora amém.

Não esquece a matula que pode ser que cê tenha fome, e lá pra onde cê vai a gente não sabe como é o queijo, se o povo oferece café, se cê pode comer e apiar bem em casa que esbarrar. Vai saber, né! Não confia em ninguém e não deixe que desconfiem docê.

Agora, vai, vai logo que o sol e-vem e o trem parte cedo.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Pela democratização do livro

Como é sabido, faz parte das propostas de base do futuro governo o investimento pesado em educação, com a expansão do que foi feito nos oito últimos anos do governo Lula. A ampliação e criação de novas escolas técnicas, o investimento nas universidades públicas, a criação de novas vagas para contratação de mão-de-obra - sejam professores, técnico-administrativos e servidores de vária ordem - que garante o bom funcionamento das instituições de ensino, e a criação do plano de carreira e do piso salarial para a educação básica são boas medidas que esperamos que continuem em implantação, expansão, efetivação e desenvolvimento. Mas acredito que um elemento principal, fundamental e de indiscutível importância ainda está bem longe do alcance da população brasileira.

O livro ainda é artigo de luxo, caro acima das medidas necessárias para uma política que se quer efetivamente democrática no que se pensa em popularização da cultura. Em um país onde se produz papel na escala em que o Brasil produz; onde há um baixíssimo nível de leitores garças a uma histórica política de distanciamento entre sujeito e o mundo das letras; em um país que possui órgãos públicos mantidos pelo dinheiro do contribuinte que poderiam produzir mais livros baratos - a Imprensa Oficial, seja ela federal ou as estatais e as muitas editoras das universidades públicas - o livro ainda é editado e impresso, em sua maioria, por instituições privadas que visam o lucro com seus livros didáticos, teóricos - no campo das ciências humanas, sociais, exatas e da natureza - , de legislação ou de literatura - nacional e internacional.

Produto de luxo, o livro, que nunca chega na mesa do trabalhador, não alimenta, efetivamente, a fome de saber que o povo brasileiro tem. Produto das elites do país, o livro chega a cifras absurdas, mais altas em valor que muitas horas trabalhadas por um cidadão, infinitamente distantes da realidade econômica de muitos dos brasileiros.

Para isto, basta pensar o seguinte: o salário mínimo é de R$510,00 para um trabalhador em função de 40h semanais e a hora trabalhada vale R$12,75 sem os desconto. O preço médio de um livro no Brasil, por exemplo, um livro de literatura brasileira, está entre R$15,00 e R$30,00, chegando a mais que o dobro da hora trabalhada. Levando-se em consideração que a cesta básica custa para um trabalhador assalariado, em média, R$ 240,00, e que, do restante, há ainda os gastos com moradia, transporte e higiene tanto dele e quanto de seus familiares, o livro se torna artigo de luxo e de segunda preocupação.

Além do alto custo do livro para um trabalhador, que impossibilita a compra desse para si e para seus familiares, as escolas de ensino fundamental e médio, tanto quanto as bibliotecas públicas, muitas vezes presas ao que suas condições de acervo permitem, não têm livros o suficiente para os estudantes e para os demais cidadãos. Isso sem contar que nelas raramente se encontram os livros que estão à venda nas livrarias.

Pensemos outra situação: qualquer curso de graduação visa, entre outras coisas, a melhoria econômica daquele que o faz e de seus familiares. Um dos caminhos para a ascensão econômica em um país que supervaloriza o diplomado é a universidade. A graduação é feita efetivamente de livros que saem muito mais caros do que a média. Livros básicos das áreas da saúde, das ciências humanas, sociais e da natureza, custam mais que os R$30,00 acima citados, podendo alcançar cifras impensadas, como R$120,00, R$150,00, R$ 200,00 ou mais. Isso dificulta muito que um trabalhador assalariado ou um estudante que dependa de um salário como renda familiar curse uma universidade pública.

Outro ponto é o de que o livro é também caro para o Estado, uma vez que o Governo precisa comprar destas mesmas editoras a preços altos os livros que serão utilizados na sala de aula e nas bibliotecas, os livros que os estudantes e os brasileiros poderiam levar para suas casas, tê-los.

Uma política de popularização do livro que reduzisse a preços módicos obras fundamentais para o leitor brasileiro é urgente. É urgente que a Imprensa Oficial e as editoras universitárias assumam a produção com qualidade de obras importantes, sejam os livros didáticos ou o cânone da Literatura Brasileira lida nas escolas. Se é possível fazer remédios genéricos, é possível fazer livros genéricos, com igual eficácia e qualidade, alterando, por exemplo, o exclusivismo que um autor obrigatoriamente tem com a editora que o publica. Um autor deveria ser publicado pelo maior número de editoras, uma vez que ele é o menos favorecido em todo o percurso da venda de sua obra.

Se o Governo Federal criasse uma efetiva política de popularização e de barateamento do livro no Brasil sem prejuízos à sua qualidade, levando em consideração o poder de compra do salário mínimo vigente, como se faz nas maiores democracias do planeta, o brasileiro não seria mais um excluído das letras e não teria que escolher entre uma semana de alimento ou um livro.

Livros baratos, efetivamente baratos, já! Só facilitando e encurtando o acesso ao livro, dando ao cidadão mais que o direito, a possibilidade de aquisição de cultura a baixíssimo preço, sem que este prejudique em seu orçamento, é que poderemos pensar numa efetiva melhora dos níveis educacionais e na democratização da cultura no país. O Governo Brasileiro precisa, o quanto antes, de colocar em funcionamento suas editoras públicas mantidas com o dinheiro dos impostos para editar livros para o povo. Livros baratos e de qualidade. Um país que quer acabar com analfabetismo precisa dar acesso a livros bons ao seu povo e propiciar que este os adquira, mais baratos que o alimento que consomem, que os impostos que pagam.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um presente público

Hoje é aniversário da Bia e ela, lá em sampa, além das alterosas, bebe sem mim. E eu, aqui, também além das alterosas, comemoro a meu modo.

Como o presente é reviver os agoras do passado, imortalizando assim o tempo que é posto com o ato em suspensão, vai meu presente público, como um álbum aberto: Bia trouxe a Lourdes, as noites de sinuca no snooker, uma madrugada falando de livros, muitas conversas sobre as nossas tortas vidas, uma cozinha aberta para uma visita que fiz a ela em Sampa, num primeiro de maio, de um perdido mineiro que não sabia onde descer do ônibus de viagem na Grande Cidade sem-fim. Viagem que terminou com a minha ida para Juiz de Fora, para o apartamento da Vanessa, numa das idas semanais corriqueiras de um mestrado de anos, nunca acabado.

Bia na livraria, de sobretudo de família, com Gabi, na mesa lendo meu primeiro livro. Bia chorando em frente ao computador, lendo um conto meu. Bia, que lê meus rabiscos de há muito e de agora, que me abraçou eufórica em Mariana, num show, quando estava para formar, às lágrimas.

Um grande álbum de fotos, que queria descrevê-las todas neste presente a ela. Mas a memória é movente, é múltipla, e acaba se transformando em outras imagens, trazendo a Gabi que está além, muito além, nas outras partes do país, que traz a Vanessa em tantos outros momentos, que traz minhas tardes na mesa da copa das Intocáveis, onde conheci tantas das melhores amigas que fiz, as minhas meninas que tanto me custaram ciúmes doentios de namoradas.

O aniversário da Bia é um amálgama de coisas tão caras que cercam Beatriz com a fragilidade de um poema de Drummond: como um arabesco.

Daí as fotos moventes para a amiga além das palavras.



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

... chuva, pode cair à vontade...

Tão atarefado com leituras e escritas, em pensar lentamente coisas que me gritam urgências, em viver os prazos que me comem pelos calcanhares, em ficar horas com livros abertos pelos cômodos, com grifos e quilômetros de anotações que não se encaixam, em viver com conceitos descendo lentos pela goela, com poemas retumbando como hinos, entoados nos sonhos, acordando-me de madrugada e buscando se escrever sobre, em sonhar com toda a trama de elementos bem alinhavada, clara feito água na minha cabeça, capaz de sair por horas para pessoas de vária ordem; depois de dias trancado em casa pensando e escrevendo desconexos papéis e análises que não se completam e não se concluem, pedi a pausa para a noite.

Mergulhar todas as informações na noite. Os amigos, cansados de outras batalhas, prontos para mergulharem outras histórias em seus litros de conversa, de risada, de chuva. Surge um violão para o qual não tenho dedos, não tenho músicas, refugiadas, dando espaço para as anotações que se buscam e se atropelam. Surge um livro de músicas. O livro com o qual se deve lembrar músicas. Como um baú de retratos, na mesa, o livro se abre e canto, com uma amiga, as músicas de meu passado, de minha infância. As velhas músicas ouvidas na sala da casa de meus pais, enquanto meu pai ainda me ensinava a dançar. As melodias que primeiro toquei no violão, os sambas que cantei no chuveiro, na minha casa, nas ruas pela madrugada quando voltava bêbado para casa ou quando fazia serenata pulando janelas de quartos de meninas. Músicas que ouvi pelas estradas de Minas, no rádio de pilha que minha avó mantinha ligado no basculante da cozinha, enquanto cozinhava o nosso almoço de domingo. As músicas do rádio velho de minha avó - um velho rádio que meu avô adaptou, pôs antena de radiola velha e que hoje fica mudo dentro do meu armário - trouxeram o gosto de suas comidas, de seus doces, do pano no cabelo enquanto cozinhava.

Tudo enquanto eu cantava as músicas inteiras, ou pelas metades, ou por partes, ou só as introduções, e tanto eu quanto minha amiga lembrávamos, cada qual, parte de nossas histórias, mergulhadas naquelas letras, naquele baú ali aberto diante de nós. Era como se dois álbuns de fotos, cada qual de um passado, estivessem ali, abertos, e que pudéssemos vislumbrar em ambos as histórias compartilhadas, as harmonias e vibratos que nos permeavam a alma.

Por um instante, todos os poemas na minha cabeça, os conceitos, as teorias e as brigas com os prazos, os dias trancado em casa, tudo cedeu lugar às músicas. Com elas, regressaram a trajetória de mim pelos caminhos, as decisões, o que deixei para trás. Lidas, as músicas traziam os muitos ônibus por muitos caminhos, as despedidas, os até-breves que ficaram no adeus perpétuo, as lágrimas que não vi os outros derramarem, o tempo repisado.

Mas naquela mesa, na noite, com aquele livro, estive novamente entre essas cores, numa época em que a leveza me permitia ver nas cores só cores, nos tacos da sala o universo particular que suas linhas me criavam, além de só tacos na sala. De ver nos olhos de todos o que não vejo mais.

A sensação que me trouxeram as músicas: fechar os olhos e ver a luz do sol de domingo esquentando o chão, o barulho das panelas enquanto minha mãe cozinhava conversando com meu pai, a voz de mãos irmãos no quarto, aos gritos. Todo o grito do mundo e a música, tocada - não sei se da tv ou se do rádio - enchendo os traços dos tacos da sala.

sábado, 6 de novembro de 2010

O paquiderme

O que me sobrou foi a ponte. Não a de pedras, sobre a rua do Catete; não a com os arcos de Santa Tereza, sobre os trilhos do trem; não o pontilhão de ferro sobre o Piranga; não a Ponte dos Suspiros, sobre o Carmo. Sobrou a imensa ponte sobre o mar.

Sem os arcos, sem as pedras das primeiras pontes de Minas, sem o ferro dos pontilhões, sem o charme de uma ponte que hoje nem mais é ponte, sobrou a ponte gigante de concreto armado, açoitada pelo vento do Atlântico: a ponte dos suicidas.

Nela, não se pode ficar parado ao acaso e olhar o mar. Nela, não se pode demorar, não se pode jogar pedras, não se pode fazer poemas como o de Apollinaire na ponte Mirabeau. Não se vê garimpeiros como na ponte sobre o Carmo, nem carros, como sobre o Catete, nem trilhos.

A ponte de concreto armado é das máquinas. Não se pode estar na ponte sobre o mar. Pode-se passar, porque é isso que fazem as máquinas. A ponte deixa de ser o lugar suspenso sobre: é movimento sobre. Como não pode parar, o movimento sobre a ponte nos dá o que sobrou da vista sobre o mar: o instante da janela, na manhã, com o sol que nasce majestoso e quente. Além, nas montanhas que terminam a baía, sob a cor rosa-laranja entre o Penedo e a água. Tudo visto em movimento.

A ponte dos suicidas, dos saltos dos desiludidos que não figuram nos jornais; a ponte das máquinas que nos transmitem o movimento e que amamos como a seres humanos dotados de vida; a ponte que não nos permite o açoite demorado do vento que vem do mar, que sopra por quilômetros por sobre o Atlântico. A ponte: um grande paquiderme.

Com os pés na água, o paquiderme é visto de longe, com o rabo descido sobre a ilha. Passeamos em seu dorso e ele, manso, nos parece amigável. Quase nos faz um favor, se não nos engolisse.

O grande pescoço entra no continente entre as serras. Comeu a terra que unia o Moreno e a Penha. Come a avenida e desenrola sua língua dentro do valão, reverberante, na cidade.

A ponte continua no fluxo inverso do resto de nós, que ruma ao mar da baía, imersos na fluida língua do paquiderme que nos engole lentamente. A língua é um rizoma e toma a Vila toda, como a caridade dos homens. Lambe bairros longínquos e traz as viscosidades de nós, misturando pobres e ricos na mesma cor cinza-opaca com cheiro de esgoto, com o nosso cheiro. Nós cheiramos no valão e o paquiderme nos traz a todos lento, misturando. Todos somos, na língua do paquiderme, cinza. Os seres que o paquiderme come têm o mesmo cheiro de esgoto, o mesmo formato fluido e diário. Nós, lentamente engolidos, olhamos para os outros lados: não somos nós no valão. Na língua do paquiderme, todos vêem um outro: um outro que não é nenhum ser humano, nenhum de nós. A verdade cinza de nossa matéria é trazida constantemente pela fome voraz do paquiderme que serve às máquinas que amamos como a seres humanos. E as máquinas querem que o paquiderme avance. Será dada mais comida, mais de nós, cinza, rumo a grande garganta que concentrará, jogando-nos irremediavelmente no azul do mar.

O que há de humano no mundo é jogado sem trato no mar. Diferente do que o que o mar nos traz e nos dá. Toneladas de homens da mesma cor e do mesmo cheiro, vindos por debaixo das pontes do Brasil, para desaguarem no Atlântico, trazidos pela língua voraz do paquiderme das máquinas.

O paquiderme avançará mais sua cabeça, e cresce a cada dia. Sua língua fluida, cinza e mal-cheirosa lamberá a todos - porque estamos todos misturados nesta língua - , no sentido oposto ao da cabeça do monstro, trazendo-nos para sua grande traquéia, para o estômago azul do mar, para que todos nós, cinza, possamos nos irmanar com a humanidade: o esgoto cinza do planeta que entra a todo segundo no azul.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A foto azul

Pense na valsa, eu disse a ela, pense na valsa. Os olhos dela eram grandes e brilhantes, a cabeça na minha barriga, os cabelos. Era assim que me ouvia: olhos brilhantes, um sorriso largo no rosto. A atenção era a maior das artes dela, a maior das artes. Na foto azul, em que estamos em silêncio, ela não me olha e não sorri para mim, atrás dela, atrás das lentes da máquina. Pense na valsa, e ela riu!

Quando ria fechava os olhos. Não sei se quando fechava os olhos ela pensava na valsa. Mas olhava de novo para mim, com olhos abertos e brilhantes. Também imitava as minhas feições e ria alto, como uma criança brincando. Dizia que parecia uma criança brincando e ela ria e fechava os olhos. Depois franzia as sobrancelhas, séria, imitando meu olhar sério, e me beijava a boca como alguém que só dá estalinhos. Temos muitos beijos nossos, dizia, olhando séria imitando as minhas feições. Na valsa estamos entregues, para a eternidade. Ela fechou os olhos e passou a mão no meu peito.

Ela passava a mão no meu peito distraída, olhando a parede, o armário desmontado. Quando me abraçava de noite, no escuro, pondo a cabeça no meu peito. Também me apontava o dedo, dizendo as promessas, as juras, como se nos imitássemos mutuamente. Ria depois do espelho que formávamos. Nossos nós e nuncas. Depois ria, de olhos fechados, como quando na minha barriga.

Uma vez disse, ela ainda na minha barriga, que a valsa é a maior das danças. Ela dançava comigo, na sala da minha casa. Era a mais bonita das mulheres quando dançava, como se não existisse mais, nem a música. Na valsa, ela olhando de olhos brilhantes, na minha barriga, a gente se entrega. É quando tudo pode ser reduzido e quando a música nos mostra seus maiores préstimos. Ela olhou séria. Era como se eu dissesse a maior das leis. Foi a maior das leis, como os nós e os nuncas.

Uma vez lembramos isso e rabiscamos tudo nos cadernos. Rabiscamos cães e cadeiras. Rabiscamos a velhice enquanto íamos de ônibus por uma estrada. Ela desenhava atenta, com os mesmos olhos brilhantes que não aparecem na foto azul. Aparecem na foto amarela, em que ela salta das cores de um vestido num dia sem valsa.

Eu disse, ela na minha barriga, os olhos sérios em mim sobre a cama, os lençóis. Peguei os dedos, as unhas pintadas. Ela disse de que não gostavam que ela usasse esmaltes vermelhos, que disseram que era coisa de puta. Nunca foi, e as unhas vermelhas eram bonitas ali, nas mãos dela, que me olhava atenta enquanto falava das valsas. Eu olhava as unhas, lembrava das outras cores das unhas e dizia que gostava de quando eram vermelhas, ela ria de olhos fechados e se erguia da barriga deixando cair os cabelos. Fala das valsas!, pedia. Tudo ganhava uma outra cara, outra cor.

Há mulheres com quem a gente dança uma valsa curta, como que por protocolo, ela séria, sentada na cama, e mulheres com quem não se deve dançar sequer uma parte de valsa, ela franziu as sobrancelhas, e aquelas com quem se deve dançar uma valsa inteira. A gente sabe quando uma mulher merece uma valsa inteira, mais que o tango do filme, ela olhava as unhas vermelhas. Entrava uma luz pela porta, que vinha da cozinha, o quarto semi-escuro como uma foto. Ela olhava as unhas vermelhas, sentada na cama, o armário desmontado.

Como você sabe que uma mulher merece uma valsa inteira? Eu sei, mas não sei como. Aqui dentro a gente sabe. Ela aproximou o rosto séria, mas com olhos que brilhavam mais que a luz que entrava saída da cozinha, iluminando o armário desmontado: e eu, sou uma mulher de uma valsa inteira?

Das outras cozinhas

Na mesa da cozinha, o resto de pão e o café que cheira longe. Nos restos de nós, o que sobrou depois de tudo, da festa vermelha, da noite de sono.

Depois de tudo, do começo confuso e das partidas, das idas para além-além sem mais dispersos, os farelos de pão e o sal. O gosto das cores das palavras que se espalham na saliva, no grito, na vontade. Não fica o gosto amargo de ontem, da boca seca e da ressaca.

O amanhã é amarelo pela janela sobre a cômoda. Na cozinha sobreposta por outra, sem mesa e sem pães, o mel cristalizado, as vasilhas que se empilham sobre as vasilhas. Há a sujeira imposta, intermitente, como o tempo.

De sujeiras de tempo, meus azulejos, a tinta velha na parede que descasca, o que é perene é sujo. Sujo os olhos do cão, sujo o farelo amarelo-pão sobre a mesa na cozinha sobreposta. Sujo o corpo humano, o cansado corpo que gira sem mais tarde, sem mais fibra, sem mais a vontade.

Esquecido no não ser sem vontade, no nosso não ser sem moral, nas falências humanas sem café e sem pão, espalhadas nas sujeiras do mundo que se suja com a poeira que invade sob a porta, sob a colcha, impregnando o branco-encardido dos lençóis já gastos, descobre-se que a casa é também sobreposta, o tempo é sobreposto, não-linear como até então se pensava.

Agora, diante dos olhos, o tempo sobreposto e sujo que experimentamos, fraternos, na nossa fadiga. Não sobrou a casa, a cozinha, as cores do farelo com sal. Sobrou a sobreposta lição do mar: no leito abissal do mar, longe do sol, além das maiores cordilheiras da terra, sob a pressão profunda das águas do mundo sob os corpos, a vida cria outro lago.

Mais salgado, mais denso, o lago sob as águas é margeado de vida que não vê o sol. Estranhamente vermelha, a vida desconhecida com seus animais confusos, não sabem dos homens e de suas vontades, dos problemas humanos da secretária, do padeiro, da mendiga. A grande lição do mar: sobreposto, o sal é sempre sal, indispensavelmente sujo como um feto, como éter, como penicilina.
O sal nos dá outra lição: o mundo está além do humano, além-além numa planície desconhecida que acreditamos domar. Tudo sobreposto, tudo insolitamente líquido e sobreposto numa realidade que a água, como o ar, é impossível de dinstinção aos olhos.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

De novo no vermelho

Do olho do furacão, no meio da multidão, pula uma velha foto, outra música, um copo d'água. É hora de lembrar que somos, sobretudo. Somos, na soma de seres que nos dizemos ser a todo momento, em suas multiplicidades. Somos o conjunto do que fomos e a força constante impelindo ao movimento, como as coisas do mundo.

Na multidão, surgem outros olhos, esquecidos olhos que já se pensavam impossíveis, carregados de vontades, de vozes na chuva. Viver é também estar na chuva, com vozes, em canto. Viver é estar em canto também, nos quartos, nas ruas varridas, na madrugada.

Do resto que fomos, somados como pedaços de coisas, nossos guardados, nesta vontade constante de gritar. Há muito não se via, há muito se tinha esquecido e agora, na grande luta contra tantos outros inimigos com ternos tão iguais aos de antes, é preciso lembrar de nós mesmos, do que somos, nestes seres incontáveis.

Lembrar para não deixarmos que vençam as velhas práticas, os velhos medos. Lembrar porque é disso que vive a matéria-homem: de passado lembrado para que no futuro nunca o passado se repise igual. Sem passado, nem os mortos estão seguros.

Recortados das fotos de jornais, nossos olhos na multidão. Outra vez na multidão! Outra vez a multidão vermelha a pedir, constante, o que sempre pediu. Não a paz aniquiladora das verdades prontas, mas a cor vermelho-voz do que nos faz humanos: o direito inconstante de falar.

Tornemo-nos, pois, falantes, é hora! De novo nas ruas, de novo no vermelho que tanto quiseram calar.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Pelo mês do aniversário do Poeta Maior

Estamos a praticamente meio mês das comemorações do aniversário de Drummond. Este ano, se estivesse vivo, o poeta comemoraria 108 anos de vida em dia de eleição. E neste ano, ele não aparece, escondido que está, dentro de seus livros.

O mais engraçado é que a popularidade de Drummond vem assomada de uma série de coisas. O poeta é mais uma marca do que reconhecido pelos seus textos. Tem estátua no Rio, estátua em Itabira, Fundação cultural, selo comemorativo, moeda especial da casa da moeda, bóton, camisa, chaveiro, bibelot de estante, xícara, quebra-cabeça, viaduto, bilhete de ficha de cerveja de festa de DA de letras: Carlos Drummond de Andrade virou coisa.

As coisas Drummond, pelo país, são rios de lucros para comerciantes que o exploram como a uma mina de ferro, de ouro, vendendo-o a um conjunto de fãs que colecionam - como eu - cada uma dessas quinquilharias. Falta ser marca de perfume e rótulo de conhaque.

Logo ele, que inveja a força das coisas. "E eu não sou as coisas e me revolto", verso de Nosso tempo. Logo ele, tão preocupado com o não tornar-se etiqueta, que tanto pediu pela paz dos picos de Itabira, quando ainda existia pico em Itabira.

A coisificação da figura do poeta é um fenômeno ainda não pensado e de difícil digestão. Como coisa, Drummond vira marca, produto, tem preço estampado. Drummond já foi moeda corrente de rápida desvalorização no plano Cruzado.

Nisso, claro, há o reconhecimento do amor que o povo tem por seu poeta. Se não fosse amado, não seria tão lembrado. Mas o problema é que em tudo que se vê gosto também se vê dinheiro e o que ele é capaz de fazer com a imagem do poeta: vendê-lo, só por ser ele, por qualquer meia dúzia de reais.

Isso me incomoda um pouco. Drummond deveria ser lido, ser estudado, estar na vida das pessoas por seus textos. Não porque se tornou coisa, como monumento público ou xícara de café. Deveria estar por ser literatura, não pela sua figura pessoal. Transformar Drummond em coisa é esquecer, em parte, o que Drummond dizia, na ilusão de que a comercialização de sua imagem o mantém vivo.

Deveria estar na boca do povo e não no bolso das políticas públicas oportunistas, como a secretaria de turismo de Itabira tanto explora, e a de obras de BH tanto faz questão de edificar. Os escritores brasileiros deveriam ser patrimônios não por serem pessoas geniais, figuras de outdoor, e sim porque escreveram coisas geniais, que não se estampam nos mesmos outdoors.

Não acredito que a coisificação do poeta propicia uma maior leitura de seus textos. É fenômeno que merece ser pensado. Fato é que Drummond agora é produto mercantil do mundo caduco que criticou.

Mas, independente de ter virado coisa, Drummond merece os parabéns, talvez um dia, um feriado. Parabéns, poeta!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Na política, parte II


Continuando a pausa feita na produção de literatura comum ao Desde que o samba é samba e voltando mais uma vez às reflexões sobre o período eleitoral, o que mais tem me incomodado nos últimos dias, tanto na mídia golpista quanto nas discussões mais informais com amigos, é a de que as pessoas polarizaram a discussão política entre votar em Serra ou em Dilma.

Claro que tal disputa não está desligada de um ranço que o brasileiro tem de encarnar na figura de um único sujeito toda uma idéia de política. Ninguém discute as vantagens e as desvantagens de se votar no PT ou no PSDB. A miltância tucana ataca a figura pessoal de Dilma, chegando ao ponto de divulgar um vídeo no Youtube dizendo que "Lula segurou o PT"e tenta implementar o medo perguntando se ela segurará, como se Lula também não fosse PT. Em contrapartida, essa mesma militância esconde a figura de FHC como se FHC também não fosse PSDB.

Nessa corrida por votos, o eleitor acaba sendo iludido pelas mentiras escabrosas da mídia golpista e se esquece de pensar que quem efetivamente governará o país é o partido que levar as eleições. A figura do líder é importante, sem dúvida, mas mais importante é a quantidade de membros que o partido que governará tem nas cadeiras do Senado e na Câmara. Fato é que o PT e a base governista, no primeiro turno, conseguiram maioria em ambas as casas.

Outro problema que não vejo discussão sobre é com relação ao sistema de eleições que herdamos do governo bipartidarista de fachada dos militares. Não faz sentido em uma estrutura eleitoral pluripartidária um segundo turno entre A ou B. As eleições então se tornam uma corrida para um plebiscito e, no fim, somos obrigados a ver a corrida desesperada das legendas pelos votos da terceira opção. As candidaturas já partem da seguinte premissa: se não levarmos no primeiro, empurramos a briga para o segundo turno em que pegaremos mais um conjunto de votos dos pequenos partidos ou das legendas que ocuparam as terceira e quarta posição.

Acredito que falta no brasileiro uma discussão mais profunda sobre o sistema eleitoral. Foram escolhidos somente dois candidatos entre os 9 presidenciáveis. Por que não podemos ter, uma vez que são tantos os concorrentes ao pleito, 3 candidatos no segundo turno? Isso forçaria necessariamente um debate mais aprofundado no primeiro turno, as coligações teriam que se voltar mais para quais opções podem ser apresentadas e não teríamos, no segundo turno, um plebiscito.

Outro ponto importante é que os atuais candidatos não estão disputando um pleito de 4 anos. Desde que os tucanos conseguiram aprovar a reeleição, todos querem um pleito de 8 anos. É ingenuidade pensar que quem assumir a presidência - seja o PT seja o PSDB - vai governar o primeiro mandato não visando uma política, ao findar deste, em que o discurso seja o da efetivação daquilo que o candidato só começou e que ele precisa continuar, como foi nos últimos 16 anos. Cristóvão Buarque, em entrevista antes da eleição de Lula para o segundo mandato, disse que a reeleição é só uma oportunidade de o/a presidente fazer quatro anos de campanha paga com o dinheiro do Estado, mesmo que essa campanha melhore a situação do país.

Nesse sentido, porque não discutirmos a ampliação do pleito para seis anos, sem direito a reeleição? Assim, além de um processo eleitoral que não nos levaria a um plebiscito - no segundo turno entre três candidatos -, o candidato realmente terá tempo para pôr em prática suas metas de campanha e então encaminhar seu substituto, seja pelo seu partido ou pela coligação que fizer.

Assim efetivaríamos a democracia pluripartidária de que tanto nos orgulhamos e mataríamos de vez esse esquema que a ditadura nos deixou, que faz com que sempre nos voltemos por uma disputa bipolar, entre o sujeito A e o sujeito B. É preciso colocar de novo em cena, também, os partidos, suas idéias e suas propostas e esquecer que o voto não será no indivíduo. Se assim fosse, o número dos candidatos deveria ser o seu número de suas carteiras de identidade, e não o número de uma legenda.

Enquanto isso não acontece, neste plebiscito, como disse em post anterior, fico com o PT e seus próximos 4 anos de governo.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Na política:


Pensei muito no que escrever sobre as eleições e cheguei à seguinte situação.

Entre

1-) o sucateamento da educação pública, o sucateamento da máquina pública com a não contratação de funcionários, a tentativa de trocar o nome da Petrobás para Petrobrax numa tentativa de privatização, a venda a preço de banana da Vale do Rio Doce, a tentativa de por fim à CLT, a crise energética, a não criação de escolas técnicas federais, o não investimento em pesquisa e infraestrutura, a alta taxa de juros, o baixo investimento na saúde e a substituição da contratação de médicos pela mão de obra voluntária, resultado da administração de oito anos do PSDB,

e


2-) a criação de Universidades Públicas e a ampliação das já existentes, a criação do piso salarial dos professores da rede pública de ensino, a criação e ampliação dos institutos federais de educação e o nivelamento salarial dos professores federais, a contratação de professores da rede pública, o investimento na máquina pública com a contratação de profissionais de vários setores, a não-privatização da Petrobrás e a transformação dessa na segunda maior empresa energética do mundo, o renascimento da indústria naval, o investimento no pequeno agricultor via agricultura familiar, o crescimento econômico, a respeitabilidade internacional, a exigência do beneficiamento do minério brasileiro no Brasil, o investimento em pesquisa, o investimento nas UPAs e no SAMU, a transformação do país numa potência emergente, resultado da administração de oito anos do PT,

eu fico com o segundo grupo de coisas. Eu fico com o PT.

domingo, 3 de outubro de 2010

A cor da voz de Marina


Em alguns momentos de minha vida, meu coração leviano se deixa levar por vozes femininas. Vozes que são tocáveis, de mulheres que me chegam só pelos ouvidos, mulheres que carregam na cor vermelho-carne das veias azuis dos pescoços o grosso caldo da vontade que me causa a vontade de mais, de crer na possibilidade das coisas.

Aconteceu pela primeira vez com Marisa Monte, de noites dos meus 16 anos, noites inteiras em que o samba de Paulinho da Viola chegava a proporções absurdas, densas, como um beijo. Pensei ser da idade, escondi-me dela enchendo o ouvido de outras músicas, dos choros de Paulo Moura em Os oito batutas. Passou, quase como uma forte pneumonia, deixando sequelas no meu ar.

Depois, outra voz de mulher me carregou, traindo a Marisa que a custo eu apaguei. Gal era a tuberculose incurável neste quase adulto cheio de responsabilidades. Chegou, trouxe pela mão de novo a velha amante, seus cachos-pesados-diminutos, em que eu misturei tantos amores. Há pouco, no desconexo tempo, Gal cantou para mim numa manhã uma música mais forte, com Mamãe não chore, do Tropicália, quase como se eu dissesse da independência composta de não-tem-mais-fins.

Quando Gal chegou, deixei de lado a fuga. Quis a montanha russa que ela provocava e mergulhei por inteiro em dias pesados de Maria Bethânia, ouvi desesperado Elis, Ella, Joss Stone, Billie Holiday, Tracy Chapman, Diana Krall, Nora Jones, Maísa, Dolores, Roberta Sá, Vanessa da Mata, Mercedes Sosa... Mulheres apresentadas por amigos, por mulheres reais, sem tanta voz. Tantas vozes femininas que é difícil colocar aqui tantos nomes.

Mas, de todas, sempre Marisa e Gal, como mulheres mais principais, mulheres com mais que vozes. Nelas, as cantoras carregam uma personalidade capaz de transmutar a vida, de nos carregar para os sem-fim lugares dos desejos.

Como um adolescente, como aquele adolescente de 16 anos que viu a foto da capa do Mais e quis daquela mulher mais do que a imagem, mais que a foto, quis a voz, os passos, as noites, essa semana me perdi de novo, num retorno, em outra voz brasileira, outra voz que traz uma carga pesada da vontade impactante como também fizeram as cores Marisa e Gal.

Quase Marisa, quase Maria da Glória Gal Costa, surge outro nome, mais que a foto. No rodapé da página última, nos rostos que a Carta Capital nos apresenta em branco e preto, Marina de La Riva, tão cubana, tão brasileira, tão latina, trouxe a cor que eu busco nas vozes femininas. Um peso maior que os beijos, que os corpos. Marina trouxe de volta o amor inocente por uma voz que inundou e inundará constantemente a cor-aurora.

Com um respeito incomum à música latina, tão difícil de entrar hoje no cotidiano dos ouvidos eletrônicos, Marina recupera os pianos e os metais de Havana com a limpidez das vozes das cantoras dos antigos saloons cubanos, com neblina-cinza dos Cohiba. Isso, sem abandonar o batido brasileiro, a faceirice de quem canta com olhos fechados, quase como se amasse, num misto de gozo e clareza que faz surgir dentro do compasso o sorriso branco, leve, limpo.

O disco dispensa apresentações. Todo ele é um elogio a las calles, a los amores. Um soco. O disco de Marina pede o ruído dos LPs e o sol de sábado quando em casa eu ouvia, com meu pai, tantas músicas latinas. Até Chico Buarque fica como um coadjuvante. Se não estivesse lá, não faria falta. Aliás, Chico deveria compor uma música para Marina. Aliás, João Gilberto, Caetano, Gil, Paulinho, todos deveriam compor músicas para ela, músicas cubanas, músicas latinas que fazem com que nós nos reconheçamos num pan-americanismo, cheio de palmas, trompetes e falta de ar, suor e poeira levantada. Marina é mais forte que a tuberculose, mais forte que a pneumonia. Marina de La Riva é a minha maior falta de ar.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Caixa de guardados

As coisas do costume, os papéis, os cacos de uma xícara na gaveta, as fotos que desbotam. Velhos relógios, fotos digitais, máquinas esquecidas e quinquilharias, fios de telefone, parafusos. Radiografias da coluna, dos pulmões, da cabeça, das costelas.

Todas essas coisas - fragmentos no tempo de um resíduo - são parte estranho de meu corpo. A caixa de guardados, na sala entre tantas outras caixas de guardados.

Em todas as coisas - o marca-páginas anotado no verso com letra de mulher, a bola-de-gude, o retrato 3 x 4 datado, a carteirinha de papel da biblioteca, os anéis que deixei de usar - todas essas coisas, minhas velhas coisas, envelhecem, em silêncio, entre livros, notas fiscais, recibos de aluguel. Guardei todas essas coisas - como todos guardam coisas - para que elas, agora que já não são mais coisas, fossem uma marca, uma luz que não me deixasse esquecer.

O problema é que eu esqueci o que não podia esquecer e que agora os fragmentos meus da caixa de guardados me fazem lembrar que esqueci. Atônito, diante desses restos de mim, com cheiro de poeira e de vidros vazios de perfume, vidros de relógios, o esquecimento do que não podia me esquecer me induziu à viagem, ao retorno que me faria encontrar, assustado, com o que esqueci, como um grito por detrás da escada.

Lembrei da frase de Monte Cristo, no alto da cela "Não me deixe esquecer", da Casa Balzac de Carlos Eduardo, em Coimbra, da morte de Pedro da Maia, com um tiro. Da infância na Itália facista e das memórias que sobraram ao bibliófilo, do não analisa não. Lembrei do Matraga, aos murros no chão, de Rioblado retumbando o sertão, o que não sei, do batistério aberto com o nome de Maria Deodorina. Da armadura desfeita de Rimbaldo, paladino de Carlos Magno, do visconde esquerdo brigando com o direito, ambos pelas metades. Da pele, única bandeira digna de drapejar ao vento.

Lembrei da insônia de Beatriz, sentada no sofá do quarto do fundo do quintal, do Jovem Promissor correndo no escuro pelo parque municipal atrás de Vedetinha, da Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora. Da fonte que troca a cor das pessoas, surgida no meio da viagem, da carne da perna da Caipora na barriga respondendo. Da âncora na página que não mais poderia ser vista novamente, do homem que lê um romance diante de uma janela, do parafuso que seria a paz. De louco gritando pelas ruas de Paris Eu quero a Farfallo e da manifestação pela cidade das camélias, na Rua da Bahia. Da menina de vermelho, no parque, seduzindo o homem, do cavalo morrendo de exaustão depois de descer a serra a galope, da palmeira boiando na enchente, da sacola de ovos com o visco amarelo no bonde, do tiro errado de Turíbio Todo, dela vindo com o estandarte, de vestido, no carnaval, de estar deitado numa pequena canoa no rio, descendo, de em Copagabana encontrar um homem que me perguntaria: Você é Eduardo Marciano, não é?

Lembrei outros, outros cacos de coisa. Lembrei do pé da múmia, do retrato oval, da mancha do gato depois do incêndio. Até dos moinhos, da destruição da biblioteca, do pergaminho a ser traduzido, do doce dado à Ana Karenina, do homem se escondendo dos guardas debaixo das saias da mulher com quem teria um filho e que escreveria a história dentro de um manicômio. Do piado da coruja na noite, nos três tons de castanho dos cabelos de Maria Eduarda, do cheiro de ranço ao som da Rádio Relógio pingando as horas. Das ruas de Praga cheia de tanques, do sul da Inglaterra, na fazenda, da locomotiva Elizabeth e de Quinipeg, do homem na estação, outro andando pela multidão, do adultério visto pela janela do palácio. Do mar, de Ismael ao mar.

Todas as lembranças dos sabores do vinho, dos cognacs, dos charutos, das iguarias de Simbá, de Abade Busoni e dos títulos da casa Morrel e filhos. Todas, menos o que havia esquecido.

Cansado do recriado e da necessidade de lembrar, larguei a rotina azul-cinzenta da cidade em troca do mar. E se eu fizesse uma canoa? Uma canoa pequena que só coubesse a mim e me lançasse ao mar? Chegaria à outra margem, a terceira? Será que é na terceira margem que mora o que eu esqueci?

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Sal fino

Mais uma noite a menos. Tudo é a agonia ruim, amarga, incômoda. O dia amarelo-ovo-cozido nasceu, molhando de amarelo tudo como gema mole. Esse tom de laranja que no fundo também cheira a óleo, a ovo, a sal.

Vem do mar o sal e o sol. Uma vez na praia, sentado na areia, seria possível olhar a amarelidão complacência do mar tomando a rua e fazendo o mundo voltar a funcionar, os ratos e seus boeiros para amanhã, fechando as portas, o cigarro e o gosto velho de cerveja quente.

Mas aqui, nesse lugar sem lugares, espaço difuso-meu, um labirinto, a manhã traz a agonia do não concluído.

Lá fora, o sol banha as banhas dos políticos em letras e números que não dissolvem. Uma pasta rançosa como queijo velho faz lembrar as narinas, nessa política que se divide como um bolo para as cadeiras do senado.

Um vento de mar, que a lua ainda no céu guarda, será a lembrança da noite não acabada. Um dia que não acontece, na contagem regressiva do que espera além, como um trem de ferro.

Falta sal para as palavras.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

amar em potência

Descobri esses dias a leveza que existe na potência de amar. Percebo que há, em mim, a potência de amar como só a madureza permite notar, arrumando o espaço das coisas.

Na potência de amar, o dizer – esse mero dizer habitual – perde totalmente o sentido que possa haver na vida das pessoas. Mais que comunicar, o dizer passa a ser a troca, a silenciosa troca que existe até no não-dizer. Nos olhos, nas mãos, no abraço. A fala sobra, meio perdida, sem lugar no grande lugar que o dizer ocupa.

Na potência, o dizer é além-palavra, além-verbo. Na pele, na gota de bile, na indiferença, no costumeiro ato do café a dois, na tarde de maio, na janela sobre a cômoda. Em todas essas novas coisas, outros dizeres em outros lugares, diferentes das falas comuns de todos, de todo-dia.

Perguntado um dia se amava, neguei veementemente. Não amo, disse taciturno. E reafirmo: não amo. Não o amor vazio da fala. Em mim, amor-substantivo, sujeito-paciente e febril, morre de espera. Existe em mim o amar, potente. Voltado para o olhar nas plantas, nas cores do mar. O amar do bom-dia que se dá aos seres humanos nos seus dias. Na conversa reconfortante com velhos e novos amigos. O amar que observa a jovem que veste um vestido que não será nunca mais usado de outro jeito que naquela tarde, beira-mar, em que ela é a potência reproduzida do amar em seus espelhos.

Isso não me torna um ser mais duro que os demais, desprovido da leveza e da intensidade sem pressa que existe na potência de amar.

Quando se está de posse desta consciência, a de que não mais se espera amor em qualquer lado das faces humanas, mas sim oferta-se a potência de amar, no cotidiano constante dos segundos, um mar de complicações se desfaz.

Nada mais cabe no hábito e tudo, em tudo, ganha o tempo natural que os seres tentam, em vão, abandonar. Para tudo na existência é preciso um tempo certo: o tempo para a madureza. Estarmos maduros para, como um delicioso e suculento fruto, ofertarmos os sabores que nos habitam, inesgotáveis e impossíveis, que línguas e Línguas tentam, em vão, interpretar.

Aí, no tempo de madureza, tempo-sem-pressa, sabe-se que é preciso a perda: no olhar, nos gestos, no toque e no contra-toque. A perda que nos dá a intensidade.

Tudo pode o amar, sem pressa, potente. Interessar-se, demorar-se, perder-se por longos minutos no silêncio mútuo, ofertado como é também o copo d’água, o ouvido, o olvido, o falar nas noites quentes. Passar a serem mútuos os cabelos e os olhos, o tato e a linguagem. Um ser envolto a tal ponto em outro ser que, no detalhe, se mostra assim, difuso. O amar traz a inconstância de se ser constante na possibilidade infinita de sempre se ter mais.

Por isso tenho a potência de amar. Não carrego mais a obrigatoriedade do protocolo comum a que nos obrigam os gestos e condutas do cotidiano e vazio amor da fala.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Amizade de cozinha

Nascer em Minas é saber que as amizades mais íntimas são à cozinha da sua casa.

Ninguém é tão seu amigo se não for "da cozinha da casa da sua mãe", "da cozinha lá de casa". O lugar, então, é mais que o lugar da fome e das panelas. É onde o mineiro passa seu maior tempo. Nas cozinhas de Minas se discute política, economia, futebol, religião. Foi de uma cozinha nas vertentes que a Inconfidência saiu.

Mais que um cômodo, as cozinhas de Minas guardam as histórias de gerações, guardam a fome do período do ouro, os adultérios, os divórcios. As cozinhas - além de seus sabores, seu alho, suas folhas de loiro no feijão, suas linguiças a defumar sobre um fogão à lenha - são o lugar maior das amizades e das confidências.

Sair de uma cozinha mineira é uma batalha. Uma vez à mesa do café da manhã, num sábado, as refeições se trocam entre um e outro café, e as pessoas comem a farta culinária, o quitute, o doce de leite com queijo fresco, o pão-de-queijo feito com queijo do Serro. Bebem-se as cachaças das vertentes, do sul, da Campanha, de Ouro Preto, do Triângulo, de Sete Lagoas. Todos os países que coexistem dentro de Minas expõem-se à mesa, nos sabores que atravessaram o sertão, as serras, as minas nos lombos de seus muitos tropeiros por séculos de sua história.

Estive na última semana com amigos da cozinha da minha casa. E todos nós, amigos das cozinhas uns dos outros, passamos os dias na cozinha da casa do Costilla, confabulando, falando do governo, criticando frankfurthianamente a sociedade lucianohuckyzada que cheira a lavanda, as mulheres de plástico. Rimos, bebemos, tomamos cafés e mais cafés entre as farras gratuitas que só os amigos das cozinhas compartilham, dividem, compreendem.

Amigos de cozinhas, viajamos para ver as cozinhas que faltavam ser conhecidas. Em Rio Casca, mais cozinhas, mais histórias, mais confabulações. Falta a grande cozinha de São João do Rio das Mortes, viagem que sempre adiamos mas que cumpriremos em breve. E a de Timóteo, quando se tornar realidade, para mostrar aos cariocas que a cozinha, para nós, é a consubstanciação máxima daquilo que entendemos por amizade.

Amigos da cozinha da minha casa, eu das cozinhas das casas deles. Todos nós, numa imensa cozinha: a nossa identidade compactada.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Homenagem do Pata do Guaxinim ao Qu4rto desamp4ro

Continuo na campanha "leia você também o QU4RTO DESAMP4RO". O download é gratuito e pode ser feito no blog http://quartodesamparo.blogspot.com

O livro já ganhou a ilustre homenagem de Pablo Bráulio de Souza, cartunista-amigo, bancário e historiador, no seu não menos interessante blog Pata do Guaxinim.

O link do blog do Pablo está na barra ao lado. Mas para quem tiver pressa é só clicar em http://patadoguaxinim.blogspot.com/2010/09/danilo-lanca-qu4rto-des4mparo.html

Leiam o post e passeiem também pelo blog! É um dos de minha predileção!


sábado, 28 de agosto de 2010

em memória de mim

Sem atropelos, sem destroços.

A verdade comungada como um pão de sal, como a sardinha na mesa dos pescadores, a cor-pão-guardada no armário estudantil, o macarrão das noites, a comida pronta, a mesa do almoço da família de amigos, a fruta roubada de uma árvore pública por mendigos, por meninos de rua, conhecidos e desconhecidos dos restaurantes públicos, em todos os lugares onde pobres e ricos comungam uma verdade.

Os lugares das verdades nos dentes das pessoas do mundo, das cidades do mundo, dos lugares imprecisos do mundo. Como se todos os seres pudessem, no comungar a verdade, saber algo que mora nas peles das civilizações, no pão etrusco, na tâmara dos beduínos, na carne salgada dos homens dos pampas.

Comer, como uma dádiva: na língua, as civilizações se alimentam dos saberes ancestrais, dos milênios em que as cozinhas dos povos adaptaram-se à única e real rotina dos seres: vencer, a contragosto e sobretudo, o hostil mundo que nos recebe todas as manhãs como um corpo humano recebe um vírus.

A verdade digerida, no estômago humano, gigante e gordo estômago humano, menos nobre que os estômagos das vacas.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

QU4RTO DESAMP4RO prepara-se para tornar-se público

Depois de mais de doze anos de escritas e reescritas, de leituras incessantes e constantes, de conselhos de amigos que leram cordialmente depois dos meus exaustivos pedidos, virá a lume nas próximas semanas meu segundo livro, agora de contos: QU4RTO DESAMP4RO.

Decidi fazer um lançamento virtual porque o mais importante de um livro é ser lido e a internet disponibiliza a leitura em larga escala gratuitamente. Outro ponto é o fato de o livro ter um momento virtual. Alguns dos textos foram publicados neste blog, reescritos e reencapados para irem aglutinar-se aos demais, no compêndio-livro. Isso sem contar as experiências de outro blog, onde postei textos da última versão antes da definitiva. Nele, recebi críticas das mais variadas de todos os tipos de leitores.

Uma vez que o livro também necessitou da internet para ser feito e teve, com isso, breve vida virtual, nada mais justo do que lançá-lo virtualmente.

Em muito pouco tempo, virei aqui no Desde que o samba é samba anunciar a publicação e convidar os leitores para a festa virtual de lançamento: um texto, um blog e um arquivo em pdf.

Tudo simples, rápido e direto!

Mas, como para antecipar a festa, publiquei alguns fragmentos de alguns dos contos no blog do livro. Caso queiram conferir, basta acessar http://quartodesamparo.blogspot.com

Assim, começa a empreitada de divulgação virtual!

Espero que gostem do livro e de suas outras formas de cor.




segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Nau cabralina

As coisas andam meio loucas e paradas, como uma grande calmaria que carrega um dos navios da esquadra cabralina para o desconhecido.

Como eu ainda, à deriva, não sei aonde baterá a nave - se num cais, se na ilhas das sereias, se no abismo do mundo que acaba, ainda não redondo - vou fazendo minhas preces marítimas, como um português aventuroso e ladrão, doente e magro deitado no convés.

Faz sol, sem vento, e a correnteza lenta me leva para um conjunto de páginas que brotam, soltas, de dentro da água. Maiores que as nuvens, sem provocar o vento, as páginas que brotam de dentro do mar têm mãos que as seguram, mãos rotas de pessoas de um tempo futuro, divinas e compactas.

Nessa miragem no deserto azul de sal e calor, percebo entre o branco que separa as letras desenhos que desconheço, imerso que estou, marinheiro, nesta personagem viajante, nesse homem-mar.

De um estalo, o homem-mar que sou dá lugar a Ismael, a Jonas, ao Capitão Nemo, a Colombo, a Oribela, a Fernão de Magalhães, a tantos outros seres do mar - fictícios - que povoam a memória coletiva, a memória humana ibérica e ancestral de que meu povo é eternamente cansado e escravo.

No ocidente, nas américas, no Brasil, todos somos do mar, homens do mar à deriva como os tripulantes da coroa que sumiram, como os canibais da Nau Catarineta, como os loucos da Nau dos desgraçados. Eternamente nômades, saudosos, fadistas, somos o povo que se fez ao mar, dentro dos livros.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Dois dedos de uma ida a Minas

Minas como dois dedos de poeira na estrada de ferro que levou e trouxe Minas.

A frase, carregada de significados, surgiu depois de longa conversa que tive com o pai de uma velha amiga (que carrego em mim como um leve passo de dança; amiga além do mais-que-perfeito). Jorge Guardacampos, o tal pai, poeta de um livro que li de um só tapa pouco depois de o ganhar de presente, mostrou outros novos poetas que eu desconhecia e que se guardam aqui, entre as montanhas, como um presente a ser dado a um velho filho que retorna ou ao viajante que partirá com a tropa com o raiar do dia.

Minas, a puta do poema de Paulo Augusto de Lima, ouvido na sala da casa de minha amiga, depois de um profundo mergulho nos livros e no passado dela, é sempre a dadivoza moça de Guimarães Rosa. Min(h)as além do som, na noite carregada de seu sorriso de ferro, como o trem que apita fumegando, levando e trazendo o velho sonho do mar, o velho desejo da pátria nunca isolada e sempre quista desde o inconfidente.

Aqui, entre as montanhas, Minas me traz mais que presentes, mais que novos poetas guardados em suas gavetas. Traz meus velhos amigos em longas conversas em que se olham nos olhos as mudanças e as permanências das muitas palavras que tivemos, nas noites de frio, na chuva intermitente no pátio marianense em que fazíamos de nós outras formas de crer. E também amigos que embarcam em outras formas de trem, na partida inevitável de quem nasce no solo Minas. Nosso eterno partir, dentro e fora de Minas, nômades eternos como os antigos índios que nos formam, como os bandeirantes que nos cortam, como os jagunços que dominam, como a tropa que nos faz.

Vacância, vaquejança, troparia: tudo, em andar e desandar resume em Minas nossa felicidade-ausente, substantivo que Guardacampos me ensinou ao relembrar o que some em Minas.

A estadia curta, entre meu partir e partir, levou-me mais de uma vez ao meu centro, o colapso Minas em que se filosofa sobre o resgate acenstral em se fumar um cigarro de palha, em que se tem a casa de amigos na fronteira além-Minas, nos frios campos que nem os paulistas resistiram tendo que inventar este chão beira-rio. Nos que vão aos campos paulistas reviver o trem fumegante, nos que ficam quietos à margem do Ribeirão do Carmo, recebendo a desfeitensa de mim, que não poderei cumprir outra promessa de café e conversa.

Todos os meus de Minas, de longe e de perto, em Minas nos dias que fiquei e que ficam, esperando o trem que me levará de volta ao litoral, sem vapor, mas com foligem e óleo e minério. Num vagão da Vale, meu coração de ferro embarca com a alma de Minas indo ganhar o mundo e o mar.

terça-feira, 6 de julho de 2010

o atropelo

A cidade é um atropelo. Na esquina, nos ônibus, no mar. Um constante e inquieto atropelo, arrebentando as pessoas como relógios.

Na cidade, nada cabe. Não cabe o espaço, não cabe o tempo, não cabem as cores. Não cabe a dor, na cidade. Cabe o atropelo e acabamos confundindo dor, espaço e tempo, achando serem essas as imanências, com o que na verdade são os destroços do atropelo.

Somos, na cidade, aos destroços. Reunidos, os nossos destroços com os dos outros formam os mosaicos que são os rostos que perambulam apertados na cidade. Comprimidos entre prédio e prédio, o mosaico-homem é repartido no atropelo-cidade, se perde por completo naquilo que acreditou ser formoso e completo como um móvel sem detalhes, liso como a superfície brilhante de um objeto. Somos, na cidade, às sobras. Tão iguais: sobras.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

(mais um, do livro)

Como tudo muda o tempo todo, o meu livro mudou de nome. Agora, em processo de registro, manterei o título em segredo, até seu provável lançamento. O conteúdo mudou um pouco, e o antigo conto que abria o livro - postado aqui há alguns meses - sai de cena. Aquele conto agora fica como parte do blog.

Ao invés de postar o conto que substitui o primeiro no novo livro - no antigo "Fome" - aqui está o último (que gosto mais).

Espero que gostem também.


***

Ela sentia falta do sol. Não desse sol praiano que nasce majestoso e soberano, mostrando ao mundo que ele é a vida em profusão, mas do sol pálido, aquele que aparece no alto da montanha numa manhã, entre, sobre, que está nas coisas. Falta daquela suavidade, como criança.

Ele sentia falta do frio. Aquele frio úmido, que dói os nós dos dedos, que nos faz esfregar as mãos uma na outra, ou aquecê-las na xícara de café. Só nessas épocas entendia o porquê de café quente pela manhã. O frio fazendo doer o nariz. O dia nascendo esquentando o resto de nuvem, evaporando o orvalho e dando ao ar um cheiro-manhã, antes do sol aparecer sem força, acordando o azul-céu do edredom.

Mas ela sentia mais falta do vento. Sentir o vento. Sensação de liberdade, os cabelos para trás, o corpo solto. As roupas coladas à pele e as lágrimas brotando açoitadas pela força, sem direito a durarem no rosto. Um vento cortante em que abriria seus braços, querendo tocar os pólos e o sabor da saliva quente dentro da boca, cortada de frio, que sangra ao menor sorriso.

Ele acha que o vento tira do chão, que dificulta o passo. Uiva na esquina da rua, sofre, corre de agonia, foge. O vento como um bandido que joga atrás de si os objetos que encontra dificultando a perseguição, de braços abertos e aos saltos.

Ela sentia falta do vento cuidando, dificultando-a, ciumento, impedindo-a de acabar de ler a página, despenteando-a como se sentisse saudades, tirando sua roupa, com sede de tocar a pele e feri-la com seu sopro louco mais delirante.

Para ele, o vento não precisa existir. O vento é dono de si e pode causar, derrubar o mundo ou levar a vida, esconder a voz e deixar atrás de si uma tempestade sem fim, com mortos. O vento cega. Não tem pátria, não tem.

Às vezes, ela sentia falta de estar ao vento. Solta, deixando nele o seu passado, deixando-se ser carregada, sem memória, sem pátria, para o lugar mais longínquo e que não mais a perturbe. Ser-do-vento. Tentar controlá-lo com as mãos, tentar ter com ele rédeas curtas e vê-lo se agitar como um cavalo louco e indomável. Soltar-se nele por inteira e ser como ele, livre, sem lei, sem regras, sem forma definida, sem boa educação e bom humor fingido. Ser parte do vento, como era um pouco parte de todas as coisas.

É das coisas do mundo que ele mais sentia falta. Nada lá fora dependeria do seu bom comportamento. Nada no mundo pararia pelo seu mal.

Mas o homem, para ela, era insignificante na sua existência de erros, precisava do vento. Precisava se castigar porque era frágil demais diante do vento. Precisa de família porque era frágil demais. Precisava de leis, porque era fraco. O homem, para ela, tem medo de si mesmo.

O que mais a incomoda é que esses muros não deixam o vento entrar. Tanto abrigo, tanto esconder! Às vezes, se sentia a poeira. Escondida ali, não incomoda.

Queriam muito ser menos que isso. Ser-mais-forte. Saberem a hora de morrer.

Pensavam sempre que lei era algo em que se acredita. Se não acreditar, ela não existia. Se ela não existia, ela não os punia. Podiam se punir assim, por fora, sem as leis. A maior lei eram eles mesmos. Se eles não se puniam por dentro, não erravam, e mesmo que o mundo os punisse, apontando-lhes os dedos, eles eram livres e controversos, sem punição.

Queriam, cada qual, estar ao vento. Para ser exato, queriam estar no vento agora para que o dia em que morrerem se tornarem parte do vento também. Ser-do-vento, Ser-mais-forte, sem medos.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Cais

Enfim, deixar para trás, como cortar os pulsos. Sem o melodrama, é um banho de sangue e de água do mar, lavando a alma em três matérias.

Olhar a diante sem a preocupação da dor torcido-opaca do pescoço, esperando, no canto do olho, o brilho que nos faça voltar. Não há mais. O lugar, em mim, tem mais peso que o lugar real. E nele, onde habito, faço meu sudário.

Deixar para trás as noites frias e secas, as mãos no escuro, as lágrimas, a ante-sala madrugada em que o destino me pregou um grande susto. Deixei para trás, sepultando longe o que restou da camisa colorida que cobria, como no samba.

No limite, de onde tudo parte, esse princípio, vislumbro outras paragens com outros sabores e sais. Do cais, o barco partiu, enfim, desligado do para trás, e não sobra de tudo mais que uma marca, uma cicatriz no braço, pequena para o que se pensou ser imensa chaga. Como as cicatrizes que ficaram depois dos parafusos. Sem atenção, quem perceberia?

Agora ao cais! Depressa, pois é preciso embarcar.

terça-feira, 1 de junho de 2010

casas, livros, rachaduras

Passei parte da noite fazendo um exercício que há muito não fazia. Arrumei mais ou menos as coisas da casa e sentei-me para olhar as lombadas de meus livros. Um café quente. O momento era de fechamento de coisas, de trocas. Tudo o que traz de novo as muitas histórias dos meus livros, histórias sobre histórias, o que abre milhares de labirintos.

Um deles me remete à sensação de sentar para olhar os livros. Em Ópera dos mortos, Autran Dourado fala de um filho que quer, na casa que herda do pai, um pouco de si e um pouco do pai, de forma que vista de longe a casa seja uniforme, mas que se olhada com detalhe, se perceba o filho sobre o pai, no segundo andar um pouco diferente do primeiro, como uma continuação ao mesmo tempo parecida mas particular. A casa como ícone da individualidade que não nega a tradição. É claro que Autran Dourado não falava de casas.

E casa me remete a uma frase de um amigo, bêbado, num bar em Mariana: "toda casa muito bonita, se olhada muito de perto, apresenta rachadura". É claro que o amigo não dizia de casas, e sim de mulheres, de uma em específico.

A mulher em específico, minha amiga, há alguns dias, me disse que procurava casas que fossem outras vertentes. É claro que minha amiga não falava de casas e sim de destinos, dela mesma, de ligações, retornos e partidas.

Eu, numa aula, usando a frase acima, a do amigo, disse que a palavra casa era exemplo de pluralidade de significações. É claro que eu não falava de casas. Mas o que importa mesmo é que a casa, a primeira, é anterior em qualquer sentido, anterior até a que hoje estive a observar as lombadas e as histórias dos livros.

Nas longas e frias madrugadas de Mariana, em que ficava férias sozinho, fazia isso: sentado, bebia café e olhava os livros.

Ler mesmo os lia depois, mas ali, imóveis nas estantes, era como se observasse a terra inteira sem a mão de alguém que se aventure por tal ou qual caminho. Distante, como um observador mudo, me vi sempre mais distante das coisas todas, dos livros, da própria casa. Pensava mais detido nas histórias que os livros teriam vivenciado até aquele momento, ali, na estante, e as histórias que terão para além daquelas estantes, quando serão de tantos outros, em um destino ignorado, separados e vendidos em bancas, estocados em alguma biblioteca, herdados por amigos que também ignoram os destinos de seus livros depois que passarem por eles. E das casas que tiveram: as casas por que passaram até aquela, e as que passaram além daquela até esta. As que ainda passarão de aqui para adiante. Dos meses que muitos passaram em outras casas, outras mãos. Da minha ignorância sobre todos eles e suas histórias e meus afetos a eles como coisas além das que ficam nas estantes, do que carrego deles. Cada um, como uma casa.

Essa semana outro livro voltou da rua, para casa, depois de seis meses. Mas antes de chegar, outro partiu para breve estada fora. Um outro chegou depois de anos, de ameaças de destruição, de esquecimento em outras casas, cheio de outros cheiros, como mulher que se deitou com outro. E tantos outros, em mais ou menos tempo, tiveram destinos variados por cidades que eu desconheço, mesmo depois de chegarem aqui. E sabe-se lá o que causaram, se amor ou ódio, sono ou desespero. Marcados de dedos, curvos de outras estantes, muitos de meus livros rodam por aí meses sem mim. E não me contam o que viram do mundo, além do que lhes vêm impresso, como digitais. Além do que carregam, como aquilo possível de se perceber, não menos intrigante e complexo do que o que se pode tocar nos seres. Como casas, que recebem tantos em tantas épocas.

Não sei eu o que minha casa recebeu até mim, e não saberei o que receberá depois. Como não sabia nas outras casas que morei e muito provável não saberei das casas que virão. E de destino ignorado, como o dos livros, que só guardarão as digitais por baixo das tintas. E nas digitais outras histórias que as paredes não me contam e que nunca tiveram testemunha e se perderam, como muitos dos que passaram por meus livros.

Casas como livros, como rachaduras. Imperfeitos todos, cheios de marcas, particulares e indistintos. Mas é claro, não falo de livros, nem de casas, nem de rachaduras.