quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Re-ouvindo o passado


Como a vida é o movimento e entro nesse mês no meu processo retrospectivo, muitas das múltiplas sensações de contatos reaparecem. Repesar e remedi(a)r tornou-se a primeira tópica. Nesse complicado exercício de mergulho num labirinto no qual não tenho muita noção de luz e de sombra, sobra alguns cacos no caminho. Desses muitos cacos, o poder perturbador que alguns atos têm sobre as pessoas, como uma caixa fechada; alguns álbuns de retratos antigos, das faces de meus muitos, e por último, algumas músicas.

Andei refletindo sobre isto, sobre as músicas, e caí num repertório imenso que não sei o início e que ainda aumenta. Sei de grandes épocas marcadas por discos completos, como As cidades ao vivo do Chico no período da graduação, juntamente com Flávio Henrique e Marina Machado - disco de tardes inteiras em Mariana; Louis Armstrong com Dream my litle dream above you, dueto com Ella Fitzgerald, música que ainda me persegue pelas ruas de Vitória e de BH, remontando o holograma Juiz de Fora em novas formas urbanas desconexas. O estranho é que essa música em especial não vem isolada num contexto de rememorações. Aparece, quase amalgamada, com Fever, cantada por Ray Charles.

No momento então em que o jazz se apodera das minhas visões urbanas mais confusas, Paulinho da Viola atravessa a cena, louco, com Eu canto samba, música que me acompanha há anos.

Nesse maluco caleidoscópio de reminiscências, em que meu passado aparece "saturado de agoras" nas palavras de Walter Benjamin, caio na adolescência em que buscava no olhar de qualquer mulher o jeito da Daomé, de Coisa Feita de João Bosco, música e músico que ouvi a exaustão em minha vida. Traz um gosto assim delicado, que me põe num furacão de memórias que se chocam com todo o disco ao vivo Fina Estampa, de Caetano, em que ele regrava Suas mãos.

Um dia, há meses, ouvi um disco de João Gilberto que divide minha vida em duas épocas e lembrei, nas notas dissonantes, que meu ingênuo amor já foi vivido no tempo dos ingênuos amores que se rasgam como cartas mas que perpetuam-se como doces perfumes. Em Farolito, que tocava suave numa madrugada, numa noite infinda de Belo Horizonte, vejo a imagem do céu, do recorte de estrelas que via da janela do apartamento.

Por fim, caí inevitavelmente em Cartola em Corra e olha o céu, em Caymi com Morena Rosa, no Chão de estrelas na voz de Nelson Gonçalvez e Boêmio na voz de Orlando Silva. E penso na vida um instante, como me pede Orlando, vendo que Come together, dos Beatles, Eu você nós dois, na voz de Caetano em Prenda Mia me trazem novas rememorações, quase presentes e tocáveis.

Na ciranda, retorno a Louis Armstrong, na mesma música de há pouco, mas agora com De noite na cama, na voz de Marisa Monte, no Mais. E ao entrar nessa múscia, reouço Gal em Baby, Maria Bethânia no disco ao vivo com o Chico, que me traz um trecho da estrada de São João -BH, e Futurantes amantes que me traz uma cor, um tipo específico de verde. Mais além, na confusão musical de tempos que se sobrepoem, tem Besa-me mucho, o primeiro bolero que dancei, na rua, em Pitangui, ainda quase menino, e Lábios que beijei na voz de Caetano, que dancei na sala de meu apartamento em JF. E me acabo em gargalhadas com Coriente 348, um tango cantado por Nelson Gonçalvez em gravação de péssima qualidade, juntamente com a não menos saudosa Vermelho 27.

Acho que, saindo do turbilhão, acabo nos vocais inigualáveis de Because, dos Beatles. Ultimamente esse é o som das manhãs, e Sérgio Sampaio em Velho Bandido, nas noite. E volto, quase sem perceber, sempre ao samba Se alguém perguntar por mim, que recitava aos 13 anos em todas as ocasiões em que partia: Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí/ com um violão embaixo do braço. Em qualquer esquina, eu paro/ em qualquer botequim, eu entro/ e se tiver motivo, é mais um samba que eu faço.

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