quinta-feira, 29 de outubro de 2009

nu, cortina de outro corpo

Drummond consegue sempre, depois de tantos anos, ainda trazer o verso que mais me abala e que mais me comove.

Em Mineração do outro, o poeta maior traz mais uma vez a velha questão que me fez apaixonar-me por ele, enquanto eu ainda era só um adolescente: a capacidade de dizer por mim o que eu sinto, e o que eu jamais poderia supor em outro verso.

Como ele mesmo coloca em Elegia 1938, "a literatura estragou as minhas melhores horas de amor". Talvez porque todas elas, em algum lugar, no fundo, repetissem algum hábito que não questionassem o "gerir um corpo alheio" ou que não entendesse que o corpo é o maior de todos os obstáculos.

Ao repensar e repastar minha própria "vida de retinas", meus próprios conhaques e luas, vejo que Drummond sempre me disse mais da mão na pequena área do quarto, do retrato de família, da Viagem na família, das sem-razões do amor. "O eu te amo porque..." como o vazio das justificativas, como a repetição que esvazia e que nos põe contra todos os espelhos. Ou mesmo o que ele me dizia, ainda novo, dos cruéis amores que não vêem os amados em Destruição.

Drummond consegue, sempre, questionar as minhas mais tenras madrugadas e meus mais simples madrigais.

Um dia, uma amiga me disse que talvez não tivesse sido Drummond a modelar minha vida, e sim que eu tenha feito de Drummond um molde tal que tenha me perdido nele. Não sei hoje dizer. Sei que, sempre, Drummond me tira da mesquinhez comum do factível e me mergulha violentamente na realidade, nos contatos, mostrando-me a profundidade da palavra usada levianamente na noite: amor.

2 comentários:

  1. acho que não tenho sensibilidade suficiente pra ler drummond. mas acho que, no fim das contas, cada um tem um autor e sente issto que você disse.

    engraçado como às vezes é uma sensação de roubo. como se aquele autor estivesse contando por toda parte o que a gente sente.

    beijos, danilo.

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  2. É estranho mesmo, Isadora. Mas acho que não tem muito esse papo de não ter sensibilidade suficiente. O poema sempre nos toca com as mãos que escolhemos nele, e às vezes escolhemos múltiplos tentáculos!

    Obrigado pelo carinho da leitura. Bjo pra ti tb.

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