sábado, 10 de outubro de 2009

Esse eu tento seguir

Não há um perturbador contato em tudo. Em nada.

Quero mãos que se esfreguem no escuro e que, com o inelutável choque das unhas, arranhe, mais profundamente, o que está por trás da carne. Tudo está por trás da carne: meus sentidos, meus gostos, o jazz.

O jazz vive atrás da carne, por debaixo da minha sujeira-mundo que carrego. O samba também está por trás da carne. Desde. Esse por trás de tudo, da carne, do corpo que eu carrego, única bagagem, mobília que envelhece e que ganha marcas e que por mais que queiramos, não se troca. E a troca é outro problema por detrás da pele. A velha troca que não existe mais, como relacionamentos entre fios, como o contato vazio entre pessoas que não mais se vêem.

O mundo, o entorno e intocado mundo, continua lá, de fora de todas as coisas que quero tocar, as forte coisas, mergulhadas em seus profundos silêncios, não me abanam os braços e nem me pedem abrigo. Não há um real contato em tudo, mesmo que a agonia dos dias nos force à empreitada.

Sob os meus pés, as músicas de Caetano que não esqueço e que Belchior cita. Sobre tudo, o sol que não mais se sustenta e que reflete o calor no ar em suspensão.

Tudo isso detrás da carne causaria um efeito lento, como em êxtase. Num bolero lento em que pés se pisam e se arrastam sem contato. Como o sexo sem a real entrega de corpos e de mais contatos.

Tudo, em redor, é leve brisa que não agita as folhas, e o que sobra - nas velhas e tortas retinas - é a lágrima clara sobre a pele escura e a noite e a chuva que caem lá fora.

3 comentários:

  1. É...não há mais lugar para essências e entregas reais! O mundo- máscara é dono de várias "cortinas" que ocultam trocas humanas, artísticas...sensoriais!!
    Por trás da carne há vazio, vozes...que gritam, solitárias, verdades esquecidas... Por trás de tudo há paisagem, plenitude...alma!

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  2. E nem a alma é tocada Andressa. Nem a alma.

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  3. Será?
    Discordo do poeta... especialmente porque posso sentir a minha tocada por várias espécies: uma melodia, um raio de sol, uma flor, um poema...
    O leque de possibilidades que faz o "ovo" ser "tocado" é grande. Basta não se deixar "afogar" pelo mar das resistências...

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